Os Filhos de D’us em Gênesis 06:01 a 04 Terceira Parte


4. Conclusão 

                   Chegado ao final desse estudo, nos parece que o acúmulo das evidências extraídas do texto apontam para a interpretação Setita. O contexto literário indicou nessa direção, como o fez também a estrutura do texto. 

                            Na análise da identidade dos "filhos de Deus" e das "filhas dos homens", um evento final veio do modo como Deus foi introduzido na genealogia de Adão no capítulo 5 de Gênesis.             

                             Ele foi apresentado ali como um membro regular dessa genealogia, de fato, como o primeiro membro da mesma. Portanto, não seria nada estranho apresentar os descendentes de Sete como "filhos de Deus". 

                        Quanto às "filhas dos homens", Gênesis 6:1-4 fez o mesmo tipo de referência, apontando para Gênesis 4:1, ao Homem (Adão e Eva) como os primeiros membros da genealogia de Caim.

Notas

1 Umberto Cassuto a chama como "um dos mais obscuros" parágrafos no Pentateuco; Robert Davidson a descreve como "uma das passagens mais estranhas de todo o Antigo Testamento"; já John Skinner a designa como uma narrativa "obscura". Ver U. Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis. Part I: From Adam to Noah (Genesis ICVI 8) (Jerusalem: Magnes Press, The Hebrew University, 1961), 291; R. Davidson, Genesis 1-11 , The Cambridge Bible Commentary (Cambridge: University Press, 1973), 69; J. Skinner, A Critical and Exegetical Commentary on Genesis, 2nd ed., The International Critical Commentary, vol. 1 (Edinburgh: T. & T. Clark, 1951), 139.


2 Ver E. A. Speiser.Genesis. Introduction, Translation, and Notes , The Anchor Bible, vol. 1 (New York: Doubleday, 1964), 45.


3 Ver E. G. Kraeling, "The Significance and Origin of Gen. 6:1-4," Journal of Near Eastern Studies 6 (1947): 193-208; C. Westermann.Genesis 1-11. A Commentary (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1984), 379-381.


4 Ao falar acerca de Gn 6:1-4, Brevard S. Childs observa que "é crucial para a compreensão dessa passagem que possamos determinar o significado do termo ‘filhos de Deus’", todos os outros elementos estão relacionados a ele.
Ver B. S. Childs, Myth and Reality in the Old Testament , Studies in Biblical Theology, no. 27 (Naperville, IL: Alec R. Allenson, 1960), 49.


5 Isto quer dizer o Método Histórico-Crítico do AT em seus três ramos principais: Criticismo das Fontes, Criticismo da Forma, Criticismo das Tradições. Ver G. F. Hasel, Biblical Interpretation Today. An Analysis of Modern methods of Biblical Interpretation and proposals for the Interpretation of the Bible as the Word of God (Washington, DC: Biblical Research Institute, 1985), 6.


6 Para uma discussão acerca do Método Canônico ver B. S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress, 1989), 69-83.


7 Não trataremos acerca do gênero literário, pois, além de seu caráter como uma narrativa, Gênesis 6:1-4 não parece ter qualquer outro gênero em particular. Ver G. W
Coats, Genesis with an Introduction to Narrative Literature, The Forms of the Old Testament Literature, vol. 1 (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 198¬3), 86.

 8 Ver D. Stuart, Old Testament Exegesis. A Primer for Students and Pastors , 2nd ed., rev. and enl. (Philadelphia: Westminster Press, 1984).


9 Para uma análise dessas interpretações ver P. S. Alexander, "The Targumim and Early Exegesis of ‘Sons of God’ in Genesis 6," Journal of Jewish Studies 23 (1972): 60-71; L. Pirot and A. Clamer, eds., La Sainte Bible. Texte latin et traduction française d’après les textes originaux avec un commentaire exégétique et théologique (Paris: Letouzey et Ané, 1953), 1:175-177; G. J. Wenham, Genesis 1-15 , Word Biblical Commentary, vol. 1 (Waco,TX: Word Books, 1987), 139-140.

10 Ver Wenham, 139. Não concordamos com Wenham, no entanto, na sua posição de que a Septuaginta e o NT (2Pe 2:4; Jd 6,7) interpretam os "filhos de Deus" como sendo anjos. A Septuaginta traduz a expressão hebraica benêy elôhîm, em Gn 6:2 e 4, como hoi huiói tou theoú e não como hoi ángeloi tou theoú, como ela o faz em Jó 1:6 e 2:1, por exemplo. Em Jó, a Septuaginta claramente entendeu os "filhos de Deus" como sendo anjos, mas este não é o caso em Gn 6. O Códex Alexandrinus tem hoi ángeloi tou theoú em Gn 6:2, no entanto, esta frase parece ter sido escrita sobre a frase original hoi huiói tou theoú, a qual teria sido apagada nesse verso, mas foi mantida no vs. 4 desse códex. Para mais discussão ver Alexander, 63-64. Quanto ao NT, as duas passagens salientadas por Wenham não necessariamente se referem a Gn 6. O pecado dos anjos mencionado em 2Pe 2:4, pode se referir a rebelião de um grupo de anjos contra Deus antes da queda do homem. A seqüência dos eventos descrita em 2Pe 2:4-10 pode ser entendida como se referindo à rebelião dos anjos no céu, depois ao dilúvio, e então à destruição de Sodoma e Gomorra. Além disto, em outras partes da Bíblia, o fato dos anjos rebeldes terem sido atirados ao inferno, está ligado à expulsão desses depois da rebelião no céu e não com o casamento com seres humanos ver Ap 12:7-12. Em Jd 6 e 7 a comparação entre os anjos caídos e Sodoma e Gomorra enfatiza a semelhança do juízo de Deus sobre ambos e não necessariamente uma semelhança de pecado cometido por eles.


11
Justin, Apologia , II,5; Clement of Alexandria, Stromata , II,vii; Tertullian, De idolis , IX; and others, cf. Pirot and Clamer, 175.


12 Ver Cassuto, 292-294; The Interpreter’s Bible (New York and Nashville: Abingdon, 1952), 1: 533-534; D. Kidner, Genesis. An Introduction and Commentary, The Tyndale Old Testament Commentaries (Chicago: Inter-Varsity, 1967), 83-84; G. von Rad, Genesis. A Commentary , The Old Testament Library (Philadelphia: Westminster Press, 1961), 110; Skinner, 141-143.


13 A maioria dos comentaristas que adotam a interpretação mitológica hoje mantém esse ponto de vista. Ver W. Brueggemann, Genesis, Interpretation (Atlanta: John Knox Press, 1982), 71; Childs, Myth and Reality, 49, 54-55; R. S. Hendel, "Of Demigods and the Deluge: Toward an Interpretation of Genesis 6:1-4," Journal of Biblical Literature 106 (1987):13-26; R. Marrs, "The Sons of God (Genesis 6:1-4)," Restoration Quarterly 23 (1980): 218-224; D. L. Petersen, "Genesis 6:1-4, Yahweh and the Organization of the Cosmos," Journal for the Study of the Old Testament 13 (1979): 58-59; J. van Seters,"The Primeveral Histories of Greece and Israel Compared," Zeitschrift für die Alttestamentliche Wissenschaft 100 (1988):5-9; Speiser, 44; Wenham, 140.


14 Ver Wenham, 139 para essas três razões.


15 Ver Alexander, 62; M. M. Kasher, Encyclopedia of Biblical Interpretation.
Tôrâh Shelêmâh, A Millennial Anthology (New York: American Biblical Encyclopedia Society, 1953), 1: 182183.


16 Meridith G. Kline considera que os "filhos de Deus" é uma referência a uma dinastia Caimita que governava o mundo antes do dilúvio, de acordo com o relato pré-diluviano. Ela apóia seus argumentos sobre o paralelismo acerca do motivo da realeza em Gn 4-6 e a tradição sumero-babilônica sobre o mundo pré-diluviano. Essa tradição apresenta a realeza como de origem celestial e fala acerca dos reis que reinavam sobre as cidades. A. J. Greig aceita a identificação real dos "filhos de Deus", mas argumenta que o autor Javista tomou esse mito antigo e o aplicou a Davi e seus descendentes, os quais transgrediram a ordem social, legal e moral estabelecida por Deus. Greig aceita a explicação etiológica que Claus Westermann dá para Gn 6:1-2. David J. A. Clines sugere uma combinação entre as interpretações mitológicas (angélicas) e real, os "filhos de Deus seriam então tanto seres divinos e governantes antediluvianos". Ver M. G. Kline, "Divine Kingship and Genesis 6:1-4," Westminster Theological Journal 24:2 (1962):187-204; A. J. Greig, "Genesis 6:1-4. The Female and the Fall," Michigan Quarterly Review 26:3 (summer 1987): 483-496; Westermann, 365-368, 370-373; D. J. A. Clines, "The Significance of the ‘Sons of God’ Episode (Genesis 6:1-4) in the Context of the ‘Primeval History’ (Genesis 1-11)," Journal for the Study of the Old Testament 13 (1979): 33-46.


17 Ver Wenham, 140; e Clines, 34 para essas três principais razões a favor da interpretação real.


18 Julius Africanus (c. 160-240 A.D.) parece ter sido o primeiro defensor da interpretação setita. Para uma breve história dessa interpretação, ver Alexander, 63; e Pirot e Clamer, 175-177.


19 Para alguns representantes entre especialistas conservativos e liberais ver H. Kaupel, "Zur Erklärung von Gen. 6, 1-4," Biblica 16 (1935): 205-212; C. F. Keil and F. Delitzsch, Biblical Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1952), 3: 127-134; J. Murray, Principles of Conduct.
Aspects of Biblical Ethics (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1957), 243-249; Seventh-day Adventist Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald, 1953), 1:250; J. T. Willis, Genesis (Austin, TX: Sweet Publishing Co., 1979), 161-165.


20 Ver Murray, 244-247 para uma revisão desses cinco pontos e de outros mais.


21 Esta tem sido uma das principais objeções à interpretação mitológica. Ver Clines, 34.


22 Ibid.


23 Ver ibid., 33; e Childs, 49.


24 Ver Brueggemann, 23,70-71; Cassuto, 290-291; Coats, 85-86; Speiser,44-46; Wenham, 136; Westermann, 368.


25 Do capítulo 12 em diante o texto trata das origens de Israel e não tem mais a perspectiva universal dos capítulos anteriores.


26 Assim, teríamos a seguinte organização do livro de Gênesis:

Prólogo, 1:1-2:3
1)
Tôledôt dos céus e da terra, 2:4-4:26
2)
Tôledôt de Adão, 5:1-6:8
3)
Tôledôt de Noé, 6:9-9:29
4)
Tôledôt dos filhos de Noé, 10:1-11:9
5)
Tôledôt de Sem, 11:10-26
6)
Tôledôt de Terá, 11:27-25:11
7)
Tôledôt de Ismael, 25:12-18
8)
Tôledôt de Isaque, 25:19-35:29
9)
Tôledôt de Esaú, 36:1-37:1
10)
Tôledôt de Jacó, 37:2-50:26

Ver Wenham, xxii. Para a importância das genealogias como elemento de organização do texto ver também Westermann, 6; e Coats, 30.
27 O livro de Gênesis foi dividido pelos Massoretas em 45 "ordens" (
sedârîm) e Gn 6:1-4 pertence à quarta ordem. Ver K. Elliger e W. Rudolph, eds., Biblia Hebraica Stuttgartensia, 2nd ed., corrected (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1984), 7.


28 Ver Brueggemann, 70-71.


29 Ver Coats, 85; Speiser,46.


30 Ver Cassuto, 249-250; Wenham, 136.


31 Assim foi entendido pela Septuaginta, a Peshita, os Targumim e a Vulgata. Ver Elliger e Rudolph, 8, aparato crítico sobre 6:3.
32 para uma discussão sobre essa forma ver Cassuto, 296; Wenham, 136.


33
Ver A. E. Brooke e N. McLean, eds., The Old Testament in Greek, vol. 1, The Octateuch, part 1, Genesis (Cambridge: Cambridge University Press, 1906), 13; A. Sperber, The Bible in Aramaic, vol. 1, The Pentateuch According to Targum Onkelos (Leiden: E. J. Brill, 1992), 9.


34 Ver Skinner, 138.


35 Ver Coats, 84-85.


36 Ver L. Eslinger, "A Contextual Identification of the bene ha’elohim and benoth ha’adam in Genesis 6:1-4," Journal for the Study of the Old Testament 13 (1979): 65; Murray, 245-246.


37 Ver Wenham, 137.


38 Esta é provavelmente a principal objeção da parte daqueles que defendem a interpretação mitológica. Ver Childs, 49.


39 Ver Wenham, 116.


40 Ver Keil e Delitzsch, 128-130.


41Tselem é a outra palavra usada no relato da criação do homem em Gn 1:26 e 27.


42 Não concordamos com Eslinger, que vê nos "filhos de Deus" uma referência aos Caimitas e nas "filhas dos homens" uma referência a mulheres Setitas. Ver Eslinger, 65-72. Nos parece que o texto aponta em outra direção.

 

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