A Sinagoga e a Igreja


Jacques B. Doukhan

Nascido na Argélia de família judia,
Jacques Doukhan(Ph.D., Universidade de Estrasburgo; Th.D., Andrews University)
ensina hebraico e exegese da Bíblia Hebraica na Andrews University.
É também o editor de
Shabbat Shallom e L’0livier,  revistas publicadas em inglês e francês respectivamente.

Entre seus livros se contam Drinking at the Sources, Daniel e
Hebrew for Theologians.

Seu endereço é: Andrews University,
Berrien Springs, Ml 49104-1500; E.U.A.

 

Yeshua “entrou num dia de sábado na sinagoga,
segundo o seu costume” (Lucas 4:16)…

Essa passagem descreve um costume na vida de
Yeshua, algo que Ele fazia cada sábado. Ele adorava na sinagoga
judaica ou no templo.

Este foi um costume que os talmidim seguiram
mais tarde ao irem de cidade em cidade em suas viagens
como registrado no livro de Atos, um livro histórico da B’rit Hadashah.

… Os emissários, mesmo quando adoravam
nas sinagogas, falavam muito sobre a kehilá,  a igreja, como o corpo do Mashiach e como
a comunidade de crentes nEle como o Enviado de D’us.

Essa era a idade apostólica. Mas desde então,
a história não tem registrado nada senão contenda
e conflito entre a sinagoga e a igreja, entre judeus e os crentes em Yeshua, os cristãos.

É este conflito necessário? Devia o ódio
marcar a relação entre as duas comunidades? Podemos compreender
e aprender um do outro? A resposta devia ser “sim” por três
razões: ambas as comunidades têm muito em comum; o cristianismo
pode aprender muito do judaísmo; e o judaísmo pode aprender
muito do cristianismo.

O terreno comum

O cristianismo e o judaísmo partilham a mesma
raiz. Primeiro, há a Escritura. Yeshua e os talmidim tinham
uma só Bíblia: a Bíblia Hebraica. Com efeito, o Novo Testamento/B’rit Hadashah
funda-se nela e a amplia.

Segundo, há a teologia. Tanto o judaísmo
como o cristianismo partilham o conceito de um D’us pessoal que criou
nosso mundo. A história da Queda, o chamado de Abrão, a
outorga dos Dez Mandamentos e a ênfase ética dos profetas
são todos parte de uma herança comum dos dois grupos religiosos.

Terceiro, há a história. A filosofia
da história de que D’us está no controle e que a história
move em direção de um clímax numa base linear pertence
tanto ao cristianismo como ao judaísmo. A kehilá crente deriva sua história
da kehilá no deserto, e haure apoio e inspiração das promessas
feitas aos israelitas. Ademais, a igreja cresceu no solo de Israel. Os
primeiros crentes eram todos judeus que se conduziam como judeus
fiéis. Yeshua era judeu. O Tanach bem como os midrashim
(as parábolas judaicas) eram parte de Seu ensino. Todos os Seus
discípulos eram judeus; a maior parte, senão o todo do Novo
Testamento, a B’rit Hadashah, foi escrito por judeus que constantemente faziam referência às Escrituras e tradições.

Com tanto em comum, por que deveria haver conflito
entre as duas religiões? Ao contrário, não deveriam
estar aprendendo uma da outra?

O que o cristianismo pode aprender do judaísmo?

A kehilá pode aprender de Israel seu amor pela Escritura.
As Escrituras hebraicas foram preservadas pelo trabalho tenaz de escribas
judeus, que com cuidado copiaram os antigos manuscritos, e também
pêlos judeus fiéis, que os leram através das gerações
na sinagoga. Moisés, Isaías, os Salmos e o Cântico
dos Cânticos são ainda cantados na língua original.
Graças aos judeus, os crentes em Yeshua podem ter acesso ao texto
hebraico do Tanach, ao modo hebraico de pensar dos escritores
da B’rit Hadashah e até às orações hebraicas,
através das quais Yehsua adorava. O papel da Escritura na vida e
no culto judaicos é algo que os crentes podem apreciar.

A kehilá também pode aprender do judaísmo
o sentido mais profundo da lei, dos Dez Mandamentos, das leis dietéticas,
do sábado e todo o código moral. Estes não só
têm sido preservados por escrito pêlos judeus, mas também
têm sido testemunhados pela gente que os observa em sua vida. A
kehilá precisa dos judeus para refletir sobre a teologia da lei. Os crentes cristãos
tendem a enfatizar a graça a tal ponto que amiúde têm
ignorado o valor da justiça e obediência. As emoções,
sentimentos e a experiência subjetiva têm sido salientados
à custa da fidelidade, vontade e o dever objetivo da obediência.

Na mesma linha, a igreja, a kehilá, precisa dos judeus a fim de
redescobrir o valor intrínseco e a beleza de estudar a Palavra
de D’us. Com demasiada frequência a Bíblia tem sido usada
para provar nosso ponto numa disputa teológica ou como uma inspiração
sentimental superficial para devoção religiosa. Na verdade,
o crente pode esperar a direção e iluminação
do Ruach haKodesh, mas é ingênuo pôr o Espírito
no lugar do estudo pessoal das Escrituras.

Os crentes também podem aprender do
modo como os judeus adoram: sua reverência, seu respeito pela Escritura,
seu cântico congregacional que envolve esforço mental, sensibilidade
estética e emoções profundas, bem como os movimentos
do corpo. Atenção a estes pontos podia inspirar os cristãos
a fazer seus cultos mais criativos e exaltantes.

Outro valor religioso que os crentes em Yeshua podem
aprender dos judeus é a alegria de viver, o sentido de festa e
a habilidade de receber a dádiva de D’us na Criação.
Desde os primeiros tempos, a influência do gnosticismo, especialmente
de Marcião, levou a igreja a opor o D’us da Bíblia Hebraica como
o D’us da Criação ao D’us da B’rit Hadashah como o D’us
da salvação. Esta distinção reflete-se às
vezes na teologia cristã que interpreta o domingo como o sinal
da salvação versus o sábado, sinal da Criação.
Este dualismo tem influenciado gerações de crentes cristãos
e produzido uma religião de tristeza que deprecia o riso e o regozijo.
Os crentes cristãos podem aprender dos judeus a dar atenção
tanto à vida física como à espiritual. Podem deles
aprender uma visão holística da vida. O que comem, o que
bebem, o quer que façam afeta todo seu ser. Os crentes,
como os judeus, podem afirmar que a religião é um modo de
vida e não uma pose da alma.

O que os judeus podem aprender dos crentes em Yeshua?

A história mostra que Israel precisa da kehilá crente.
Os crentes em Yeshua fizeram o D’us de Israel conhecido em todo mundo. Os
crentes traduziram a Bíblia hebraica e levaram sua mensagem
a todo o mundo. Do Amazonas à África, do Alaska à
Austrália a história de José e os salmos de Davi
têm sido ouvidos tanto por gente simples como sofisticada. A teologia
judaica de particularismo tem sido complementada pelo universalismo cristão.
Um subproduto desta missão cristã é o conhecimento
do povo do Tanach e a existência de Israel. Este é
um dos paradoxos mais interessantes da história. Sem a igreja,
o judaísmo podia ter ficado uma religião insignificante
e obscura que bem poderia ter desaparecido.

Os judeus têm ignorado a B’rit Hadashah, o Novo Testamento deliberadamente,
embora fosse escrito por judeus mesmo antes da redação do
Talmude. Os judeus tirariam proveito da leitura destes textos, pois não
só testemunham da vida e crença dos judeus do primeiro século,
mas também contêm verdades valiosas que podem fortalecer
e enriquecer suas raízes judaicas.

Acontece que judeus bem versados em suas próprias
Escrituras e tradição podem entender a B’rit Hadashah, o Novo Testamento melhor
mesmo do que os crentes cristãos, que amiúde projetam nele sua própria
filosofia. Os judeus descobrirão que a  B’rit Hadashah não
é tão estranho como pensam. Afinal de contas, foi escrito
no contexto de uma visão do mundo modelada pela Bíblia Hebraica.
Abordado deste modo, os judeus podem até obter uma melhor compreensão
de suas raízes. Frequentemente o significado e a beleza das Escrituras
hebraicas são iluminados pelas explicações do Novo
Testamento. As histórias do rabino de Nazaré, Suas parábolas
e Seus ensinos os surpreenderão por seu sabor judaico e os elevados
ideais judaicos que comunicam.

Graça (hesed) não é propriedade
exclusive da mensagem cristã. O judaísmo também aprecia
a graça. Contudo, os judeus podem aprender dos crentes em Yeshua
que a salvação não é alcançada por
mitzwoth (leis), mas vem de D’us que entra na história
e atua em favor de. Seu povo. Os judeus precisam aprender mais quanto
à proximidade de D’us—ao D’us que entra no processo complexo
da encarnação a fim de falar com os seres humanos, a fim
de estar com eles e salvá-los. Certamente Abraham Heschel está
consciente disto quando observou que “a Bíblia não
é a teologia do homem mas a antropologia de D’us”.*…

A missão dos adventistas do sétimo dia

A missão do remanescente escatológico
de testemunhar ao mundo mal se cumpriria sem referência a suas raízes.
A flor não pode desabrochar se a árvore não tem raízes;
o futuro não pode ser evocado sem esta memória. Esta exigência
contém toda uma filosofia sobre testemunhar. A responsabilidade
de levar a mensagem aos judeus e aos cristãos implica o dever de
respeitá-los. Não é possível pregar aos judeus
sendo anti-semítico; de igual modo não é possível
pregar aos católicos sendo anti-católico. A missão
adventista pertence aos judeus, aos cristãos e a todos no mundo.

Nós adventistas somos herdeiros tanto da história
judaica como da cristã. Também temos o mandato da bessorá, o evangelho
eterno de Apocalipse 14. Nossa mensagem é única não
só porque proclama plenamente Yeshua e a lei, graça e obediência,
mas também porque abrange o futuro. Nossa missão não
é apenas de natureza histórica, de proclamar um acontecimento
do passado; é também de natureza escatológica, para
declarar um evento futuro.

Nossa missão, portanto, devia ser cumprida com
humildade, abertura e sensibilidade, com a consciência de que há
sempre algo a aprender e receber de outros a fim de alcançar homens
e mulheres em toda parte, gentio ou judeu.

Os dez pontos de Seelisberg

 

Logo apos a Segunda Guerra Mundial, pastores protestantes
e católicos preocupados com a forca terrível do anti’semitísmo,
que atingiu seu clímax com o Terceiro Reich, reuniram-se com seus
colegas judeus para enfocar dez pontos a fim de evitar “apresentações
ou concepções falsas, inadequadas ou errôneas
da doutrina cristã”.

  1. Lembrar que um Deus fala a nós todos
    através do Antigo e do Novo Testamentos.
  2. Lembrar que Jesus nasceu de mãe judia
    de semente de Davi a do povo de Israel e que Seu amor e perdão
    abarcam Seu próprio povo a todo o mundo.
  3. Lembrar que os primeiros discípulos,
    os apóstolos e os primeiros mártires eram judeus.
  4. Lembrar que o mandamento fundamental do cristianismo,
    amar a Deus e ao próximo, já proclamado no Antigo
    Testamento e confirmado por Jesus, é obrigatório
    tanto para cristãos como para judeus em todas as relações
    humanas, sem exceção.
  5. Evitar torcer ou apresentar erroneamente o
    judaísmo bíblico ou pós-bíblico com o objetivo
    de exaltar o cristianismo.
  6. Evitar usar o termo “judeus” no sentido
    exclusivo de inimigos de Jesus e a expressão “os inimigos
    de Jesus” para designar o povo judeu todo.
  7. Evitar apresentar a Paixão de modo a
    lançar o opróbrio de matar Jesus sobre todos os
    judeus ou sobre os judeus apenas. Foi somente um segmento dos
    judeus em Jerusalém e que pediu a morte de Jesus e a mensagem cristã
    tem sempre sido que foram os pecados da humanidade exemplificados
    por aqueles judeus e os pecados nos quais todos partilham que
    lavaram Cristo à Cruz.
  8. Evitar referência às maldições
    das Escrituras, ou o clamor da plebe furiosa, “Seu sangue
    caia sobre nós e sobre nossos filhos”, sem lembrar
    que este clamor não devia pesar mais do que as palavras
    de nosso Senhor: ” Paí, perdoa-lhes, porque não
    sabem o que fazem.”
  9. Evitar promover a noção supersticiosa
    de que o povo judeu é réprobo, maldito e reservado
    a um destino de sofrimento.
  10. Evitar falar dos judeus como se os primeiros
    membros da igreja não fossem judeus.

Publicado em 1947 pelo Concílio Internacional
de Cristãos e Judeus.

 

 

Referência
*Abraham Heschel, Man Is Not Alone: A Philosophy
of Religion
(New York: Octagon Books, 1972),
pág. 129.

 

Material Selecionado e editado da Revista Diálogo Universitário, 8(2), 15-17, por Herança Judaica.
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