H2O Puro e Simples


H20 Puro e Simples 

Por Chantal J. Klingbeil 

“Por que tudo parece cheirar a diesel?” É o que eu me
perguntava enquanto abria a torneira, certo sábado à tarde. Morando no
campus de uma escola que tem excelente abastecimento de água e um poço
artesiano, nunca considerei a possibilidade de enfrentar problemas com
água. Mas antes do pôr-do-sol daquele dia, nosso campus estava agitado
com a notícia de que nosso poço havia sido contaminado. Felizmente, a
escola tem uma equipe de manutenção “de primeira”, a qual começou
rapidamente a solucionar o problema da falta de água. Em pouco tempo,
chegaram vários caminhões-tanque da ADRA, suprindo-nos com água
potável.

A água é algo que, quase sempre, tive como coisa certa. Sempre
esteve à minha disposição. Mas, depois dessa experiência, tenho
procurado ter baldes com água em casa e me surpreendo com a freqüência
com que os tenho usado durante o dia e quão dependente sou de água.
Preciso de água não somente para beber, tomar banho e lavar roupa. Ela
é imprescindível para escovar os dentes, limpar o balcão da cozinha,
lavar as mãos enquanto cozinho e limpar a lama dos sapatos. Eu
simplesmente preciso de água!

“Se eu estivesse lá …!”
Se tudo falhar, pensei no dia em que faltou água no campus,
podemos coletar água da chuva; afinal de contas, é o começo da estação
chuvosa aqui nas Filipinas.

Entretanto, os israelitas dos tempos bíblicos não tiveram a
sorte de poder optar pela água da chuva, enquanto viajavam pelo
deserto. Não havia caminhões da ADRA – apenas poeira, pedras, mugido do
gado e crianças implorando por água para beber. Posso imaginar a
alegria desses israelitas numa ocasião em que, após viajarem pelo
deserto por três dias sem encontrar água, a notícia se espalhou entre a
multidão: “Encontramos água!” As crianças, com nova energia, começaram
a correr. O gado seguia adiante, respirando com toda força. Poeira,
sujeira, cargas pesadas, pés doloridos – tudo foi esquecido.
Finalmente, água!

Talvez uma vaca ou uma garotinha tenha sido a primeira a
chegar ao lago, ou talvez várias pessoas tenham chegado ao mesmo tempo.
Possivelmente, esperavam que a água fosse morna, mas não amarga.
Descobriram que a água estava contaminada e imprópria para uso. Isso
lhes pareceu uma brincadeira de mau gosto. Assim, o povo começou a
reclamar.

Todas as vezes que li a história dos israelitas no deserto,
fui muito crítica. Sempre me impressionou a sua falta de fé em Deus e a
rapidez com que se esqueciam dos milagres. Voltando mentalmente ao
tempo do Êxodo, eu me imagino como Moisés, sacudindo a cabeça diante do
comportamento incrédulo daquele povo.

Mas a experiência do problema com a falta de água em nosso
campus, ensinou-me o contrário. Hoje, reconheço que, se eu fosse um dos
israelitas que enfrentaram aquela situação, estaria na primeira fila,
reclamando a plenos pulmões. Estaria gritando: “O que minhas crianças
vão beber? Por que não planejaram melhor? Quem é o responsável por
isso?”

Penso que, antes, via o problema dos israelitas como
espiritual, desconectado da vida diária – pelo menos, da minha vida
cotidiana. Entretanto, ao enfrentar o problema da água contaminada,
comecei a entender alguns dos temores e preocupações dos israelitas.
Compreendi que algumas questões espirituais e as necessidades básicas
da vida estão intimamente interligadas. Minha vida espiritual não é
algo que eu possa pôr e tirar durante o sábado. Não é algo desconectado
do meu dia-a-dia. Na verdade, tem tudo a ver com minha atitude em
relação aos desapontamentos, quem e o que eu culpo pelas minhas
circunstâncias, como reajo aos meus medos e preocupações em relação aos
meus filhos e a quem me dirijo a fim de ter satisfeitas minhas
necessidades básicas, físicas e emocionais.
 

Aprendendo a Ser Agradecido
Assim como espero ter água potável em minha torneira, acredito
que posso ter supridas minhas necessidades básicas, como se tivesse
assinado um acordo, antes de nascer, com uma lista de meus direitos.
Mas, ao mesmo tempo, me esqueço de que metade da população do mundo não
possui sequer uma torneira para desfrutar de água potável no conforto
do lar. Logo descubro que tenho falhado em ser agradecida pelo
essencial: sou agradecida quando oro antes da refeição? Agradecida por
um lugar confortável para viver, pelos relacionamentos no trabalho e
pelas pessoas que me apóiam e me amam? Será que me lembro dos êxodos
que Deus tem me ajudado a atravessar, do estilo de vida do qual Ele me
salvou e dos pecados que pagou por mim?

Moisés fez o que eu preciso aprender a fazer: ele clamou ao
Senhor (Ex 15:25). Não sabemos exatamente as palavras que ele usou, mas
parece que “clamar ao Senhor” consiste em colocar os problemas diante
dEle no momento em que são identificados. O relacionamento de Moisés
com Deus era honesto e aberto. Ele entregou o coração a Deus. Expressou
suas preocupações e seus temores.

Então, o milagre aconteceu. Moisés se calou e deu a Deus a
oportunidade de falar com ele. Deus mostrou-lhe um arbusto. “Agora, o
que um arbusto tem a ver com água contaminada e um grande número de
pessoas insatisfeitas e gritando por água?” ele pode ter imaginado.
Confuso como possa ter parecido, Moisés seguiu as instruções de Deus e
jogou o arbusto na água – e, imediatamente, a água se tornou doce e
apropriada para uso.

Acho que a primeira pessoa a tentar beber daquela água estava um tanto cética.
Talvez, a solução do problema fosse um pouco simplista. Afinal de
contas, era apenas um arbusto que estava ali por perto. Mas a pessoa
encheu a mão de água e virou em direção à luz. Talvez tenha cheirado e,
finalmente, tentou um pequeno gole. “A água está doce!” ela exclamou.

Clamando a Deus
O objetivo de minha vida espiritual é chegar ao lugar onde posso
clamar ao Senhor, o local onde me despojo do manto da minha
auto-suficiência. E uma vez que derramei meu coração perante o Senhor,
preciso estar aberta ao Seu Espírito e deixar que me mostre o arbusto
do qual preciso. Pode ser que ele consista num telefonema e num simples
“perdoe-me”, para restabelecer um relacionamento, ou algo mais
complexo, pois Deus é incrivelmente criativo.

Certa ocasião, a fim de suprir a necessidade de água dos
israelitas, Deus disse a Moisés para tocar numa rocha (Ex 17:6). Em
outra oportunidade, Ele ordenou que os líderes cavassem a areia (Nm
21:16-18). Meu relacionamento com Deus não pode ser pautado por
fórmulas pré-estabelecidas. Não é uma negociação política entre dois
partidos poderosos. Por incrível que possa parecer, Deus Se oferece
para participar, comigo, da minha pequena vida. Ele quer Se envolver.
Juntos, podemos caminhar por terrenos áridos.
           

Meu Arbusto  
Enquanto eu carregava vários baldes cheios de água, diariamente,
no período em que nossa água estava contaminada e pensava quanto tempo
devia esperar até que tivesse água limpa outra vez, decidi estar mais
consciente da presença de Deus no meu cotidiano e mais aberta à
orientação do Espírito Santo. Só assim, permitirei que Deus me mostre
de qual “arbusto” necessito para transformar em “doce” o “amargo” da
minha vida. 

Chantal J. Klingbeil é professora assistente de Redação Acadêmica e de Pesquisa no Adventist International Institute of Advanced Studies – AIIAS (Instituto Internacional Adventista de Estudos Avançados) em Silang, Cavite, Filipinas.

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