Kapará, Mechilá e o Judaísmo Rabínico – Parte 2


O título deste artigo, “Kapará, Mechilá e o Judaísmo Rabínico”, indica que expiação e perdão são ensinos judaicos por excelência e que portanto devem ser refletidos pelo Judaísmo como tal. A questão é, até que ponto há uma visão realmente bíblica sobre o assunto?

A “kapará”, expiação, e “mechilá”, perdão é de suma importância para a yeshu’ah/salvação de uma pessoa, seja ela judia ou não.
As Escrituras Ancestrais, isto é, a Bíblia Hebraica, o Tanach, ou Velho Testamento indicam que o pecado é uma situação muito séria e desastrosa em que como humanos nos encontramos, é só olhar ao nosso redor ou assistir os noticiários e teremos as provas da degeneração dominante. D’us leva o pecado a sério porque leva o homem a sério.

O perdão, “mechilá”, está ligado diretamente à ação de D’us agir, porém, como agir sem comprometer Sua santidade e perfeição? Como deixar o pecado pra lá sem considerar sua realidade devastadora ou ser perdoador e ser justo ao mesmo tempo?

O que D’us poderia fazer ou o homem para que o perdão fosse efetuado? Naturalmente a ação reconciliadora deveria levar em conta à gravidade do pecado, a responsabilidade moral do homem, a culpa humana e a reação de D’us.

O pecado é a intenção do ser humano de viver independente da vontade de D’us, por este motivo ele transgride a Lei Divina, aliás, o homem nasce pecador e por isso peca, é uma condição de berço, de útero, de DNA.

Somos diferentes dos animais, somos moralmente responsáveis, o Criador nos fez assim e, como criaturas vivas, somos devedores a Ele por aquilo que fazemos ou não durante o curto espaço de tempo que chamamos “minha vida”.

Quanto à culpa, todos são inescusáveis por tudo aquilo que a natureza mostra da Pessoa de D’us, seja o Seu poder extraordinário visto nas noites estreladas, ou Sua delicadeza na macia pétala de uma flor. Seja no conhecimento da Lei de D’us dada aos judeus, ou a luz moral dada aos gentios, todos são responsáveis diante do Todo Poderoso.

Para termos uma idéia da reação de D’us diante do pecado, as Escrituras Ancestrais nos falam primeiramente da reação do homem diante de D’us:

1. Moisés escondeu o rosto diante de D’us.

2. Isaías viu O Entronizado Celeste, e o senso de sua impureza o dominou imediatamente.

3. Jó diante da auto-revelação divina jogou pó e cinza sobre a cabeça e o corpo, uma atitude típica de alguém que reconhece o seu estado pessoal.

4. Ezequiel caiu prostrado no chão.

5. Daniel diante de uma visão semelhante perdeu o fôlego e as forças.

D’us é Santo, Santo, Santo, e Sua reação diante do pecado é de uma ira santa, devido a tudo o que o pecado trouxe a vida de bilhões de seres humanos neste mundo.

A reação de D’us é uma reação moral, um antagonismo ao mal, uma indignação do amor diante da injustiça do pecado e da maldade.

Mechilá para ser efetiva, segundo a Bíblia, precisa da kapará.

O Judaísmo Rabínico ensina que “o arrependimento, mesmo no leito de morte, sempre leva ao perdão divino, não importa quão graves tenham sido os pecados. Orações, como o kadish, também podem granjear o perdão… D’us deseja perdoar, e até reza a Si mesmo para ser clemente…” Dicionário Judaico – Perdão – Jorge Zahar Editor

Quanto à kapará, a expiação, o Judaísmo Tradicional diz que após a destruição do segundo Templo no ano 70 e.c. (era comum) o Iom Kipur, o dia da expiação continuou a ter poder expiatório, daí que muitas comunidades judaicas asquenazitas, que são os de origem européia central e do leste, ainda hoje, realizam a kaparot, sacrificando uma galinha para cada pessoa.

A pessoa que participa deste ritual deve dizer:

– Isso é em substituição a mim, isso é em vez de mim, isso é minha Expiação. Este galo (ou galinha) irá morrer, e eu irei para uma vida boa e longa e para a paz.
Dicionário Judaico – Kaparot – Jorge Zahar Editor.

“Em cada sacrifício ocorre à idéia de substituição: a vítima toma o lugar do pecador…

A substituição e transferência dos pecados são realizadas.”

The Jewish Encyclopedia, vol. II, pág. 286, Artigo: Atonement

Porém, muitos judeus da atualidade dão tzdaká, isto é, uma esmola que,

consideram, pode substituir o sacrifício. Já o sofrimento e até a morte de um judeu pode ter o caráter expiatório, um judeu pode até dizer:

– Que isto de ruim que aconteceu comigo seja uma expiação. Ou antes, de morrer, fazer uma prece – que seja a minha morte uma expiação por meus pecados.

O que precisamos refletir é se esmolas aos pobres, sofrimentos pessoais ou mesmo a morte da própria pessoa são suficientes para o perdão dos pecados individuais. Ou, se a morte de uma galinha ou galo satisfaz a D’us.

Afinal, de que D’us estamos falando? Um ser que precisa ser aplacado, acalmado ou comprado? Seria o sangue de animais escorridos em uma bacia por um sacrificador qualificado o preço para culpas morais humanas?

Seria a condição de pecadores morais livres para escolher, expiada por sofrimentos e amarguras pessoais? Será que todas as esmolas do mundo modificariam a gravidade do pecado, a responsabilidade e condição moral do homem, a culpa humana e a reação de D’us?

Boas obras, que afinal, são esperadas de todos nós, ou o derramamento do sangue de uma ave, que se repetem anualmente, nunca jamais tornam alguém aperfeiçoado, visto que no ano seguinte tem que se repetir novamente fazendo recordação dos pecados.

É certo que o D’us de Israel ensinou que a ‘vida da carne está no sangue’ e que o sangue faria expiação em virtude da vida” conforme Levítico 17:1 e que as boas obras devem acompanhar a vida de um verdadeiro israelita, porém, a que tudo isto leva?

Quando a Torá diz que o sangue faria expiação em virtude da vida, esta querendo dizer:

1.Que é vida por vida.
2.Alguém morre para que alguém viva.
3.Há um substituto que normalmente é um cordeiro ou bode, e alguém era substituído, o judeu devoto.

É um conceito judaico de que uma vítima inocente morre no lugar do transgressor, assim, a justiça é aplicada, o pecado leva à morte e a misericórdia é concedida, o devoto é perdoado, ambos os fatos em cada sacrifício na Bíblia Hebraica caminham juntos.

A questão mais profunda é se o sangue de animais equivalem ao sangue humano. Um animal era sacrificado no Templo, uma ave é sacrificada na kaparot, um animal por um ser humano? Esta balança esta correta? A culpa moral de um ser humano feito à imagem e semelhança de D’us é liberada pela morte de um animal irracional?

Talvez a forma de responder estas inquietantes perguntas seria olhar os sacrifícios de um outro ângulo. Seriam os sacrifícios um fim e si mesmos? Seriam eles o remédio para os pecados do povo ou seriam eles uma amostra de uma realidade superior?

Haveria a possibilidade de todo o sistema sacrifical mosaico ser na realidade uma figura, ou profecia em larga escala, uma dramatização de um evento tremendamente impactante para o Judaísmo e para o mundo?

Bem, o pensamento de que sangue ou a vida de animais não equivalem ao sangue e vida de um ser humano feito a imagem de D’us parece ser bem clara. Digamos que a possibilidade levantada acima no último parágrafo seja a verdadeira questão, e que o animal sacrificado seja apenas um símbolo profético, talvez ele represente a morte de um ser humano, mas, não qualquer ser humano.

Qualquer ser humano é cheio de erros e pecados. O sacrifício deveria ser imaculado:

“E, por sua oferta pela culpa, trará, do rebanho, ao ETERNO um carneiro sem defeito, conforme tua avaliação, para oferta pela culpa; trá-lo-á ao sacerdote. E o sacerdote fará expiação por ela diante do ETERNO, e será perdoada de qualquer de todas as coisas que fez, tornando-se, por isso, culpada.” Levítico 06:06 e 07

Wladimir

Continua no artigo: “A KAPARÁ, A MECHILÁ E O MASHIACH, HÁ JUDAÍSMO AQUI OU É COISA DE CRISTÃO?”

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