O Rei Salomão


No reinado de Davi e Salomão, Israel tornara-se forte entre as nações, e tivera muitas oportunidades de exercer poderosa influência em favor da verdade e do direito. O nome de Jeová era exaltado e tido em honra, e o propósito para o qual os israelitas haviam sido estabelecidos na terra da promessa dir-se-ia estar a alcançar seu cumprimento. Barreiras haviam sido derribadas, e os pesquisadores da verdade vindos de terras pagãs não retornavam insatisfeitos…

Salomão foi ungido e proclamado rei nos derradeiros anos de seu pai Davi, o qual abdicara em seu favor. Os primeiros tempos de sua vida foram promissores, e era propósito de Deus que ele fosse de força em força, de glória em glória, aproximando-se cada vez mais da semelhança do caráter de Deus, inspirando assim Seu povo a cumprir sua sagrada incumbência, como depositários da verdade divina.
Davi sabia que o elevado propósito de Deus para com Israel só se realizaria se dirigentes e povo procurassem com incessante vigilância atingir a norma estabelecida para eles. Ele sabia que para que seu filho Salomão correspondesse à confiança com que Deus Se agradara em honrá-lo, o jovem governante não devia ser meramente um guerreiro, um estadista, um soberano, mas um homem forte, bom, um ensinador de justiça, um exemplo de fidelidade.

Com terno fervor Davi exortou Salomão a ser varonil e nobre, a mostrar misericórdia e magnanimidade a seus súditos, e em todo o seu trato com as nações da Terra honrar e glorificar o nome de Deus e tornar manifesta a beleza da santidade. As inúmeras experiências probantes e notáveis pelas quais Davi passara durante o curso de sua vida haviam-lhe ensinado o valor das mais nobres virtudes, e levaram-no a declarar a Salomão, em suas instruções no leito de morte:

“O Deus de Yisra’el falou; a Rocha de Yisra’el me disse:
Quem governa deve ser levantado sobre o povo, governando no temor de Deus; como a luz da manhã no amanhecer de um dia sem nuvens que faz a relva sobre a terra brilhar depois da chuva.”. Sh’mue’el Bet/II Sam. 23:3 e 4.

Oh! que oportunidade a de Salomão Tivesse ele seguido a instrução divinamente inspirada de seu pai e seu reino teria sido um reino de justiça, tal como o descrito no Salmo 72:

“Ó Deus, reveste de tua justiça o rei, e o filho dos reis, de tua retidão, para que ele julgue seu povo com retidão e seu pobre com justiça. …

Que ele seja como a chuva sobre uma lavoura ceifada, como aguaceiros que regam a terra. Em seus dias, floresçam os justos, e haja paz, enquanto durar a lua. Que seu império se estenda de mar a mar, do rio (Eufrates) até os confins da terra …

Que os reis de Tarshish e das regiões litorâneas lhe tragam tributo; os reis de Sh’va e S’va lhe ofereçam presentes. sim, todos os reis se inclinarão diante dele, e todas as nações o servirão. …

Que orem por ele continuamente; sim, que se invoque bênção sobre ele o dia todo.

Que seu nome dure para sempre.
Que seu nome, Yinnon, dure tanto quanto o sol.
Que o povo seja abençoado por meio dele, que todas as nações o chamem bendito.
Bendito seja Adonai, ó Deus, o Deus de Yisra’el, que realiza feitos maravilhosos.
Bendito seja o seu glorioso nome para sempre, e que toda a terra seja cheia com
sua glória. Amém e Amém.” Tehilim/Sal. 72:1-19.

Na juventude, Salomão fez sua a escolha que fizera Davi, e por muitos anos andou em retidão, sua vida marcada com estrita obediência aos mandamentos de Deus. Logo no início do seu reinado, foi ele com seus conselheiros de Estado a Gibeom, onde ainda estava o tabernáculo que havia sido construído no deserto, e ali uniu-se aos seus conselheiros escolhidos, “aos capitães de mil e de cem, aos juízes e a todos os líderes de todo o Yisra’el, os chefes dos clãs…, ofereceu mil ofertas queimadas diante de Adonai.” Divrei-Ha Yamim Bet/II Crôn. 1:2.

Compreendendo alguma coisa da magnitude dos deveres relacionados com o ofício real, Salomão sabia que os que levam pesados fardos precisam buscar a Fonte de sabedoria para orientação, se desejam desempenhar suas responsabilidades de maneira aceitável. Isto levou-o a encorajar seus conselheiros a se unirem com ele em sinceridade, a fim de estarem seguros da aceitação de Deus.

Acima de todo o bem terrestre, o rei desejava sabedoria e entendimento para a realização da obra que Deus lhe havia dado a fazer. Ele ansiava por acuidade mental, largueza de coração, brandura de espírito. Naquela noite, o Senhor apareceu em sonho a Salomão, e disse: “Diga-me o que eu poderia dar a você.” Em sua resposta o jovem e inexperiente príncipe deu expansão a seu sentimento de desamparo e seu desejo de auxílio: “Tens mostrado muita graça ao teu servo David, meu pai”, disse ele, “pois ele viveu de forma reta e honesta diante de ti, tendo um grande coração. Tu mantiveste para com ele grande graça, dando-lhe um filho que o substituiu no trono, como está acontecendo hoje.

“Agora, pois, Adonai, meu Deus, tu tens posto teu servo como rei no lugar de David, meu pai; mas eu ainda sou uma criança – eu não sei como liderar! Além disso, teu servo pertence ao povo que escolheste, um grande povo, tão numeroso que não pode ser contado. Todavia, dá ao teu servo um coração entendido, a ponto de estar apto para ministrar justiça diante do teu povo, de maneira que eu possa discernir entre o bem e o mal – pois quem pode julgar este teu grande povo?

“O que Shlomoh disse, fazendo esse pedido, agradou Adonai.”

“Deus disse a Shlomoh; “Porque você fez esse pedido, em lugar de pedir vida longa ou riquezas, ou a morte de seus inimigos, pedindo para você entendimento a fim de discernir justiça, farei o que me pediu. Eu darei a você um coração sábio e entendido, de maneira que não terá existido ninguém como você, nem haverá outro como você. Eu darei a você, também, tudo o que não pediu: riquezas e honras maiores do que as que têm os outros reis que vivem em sua época. E mais ainda: se você viver de acordo com os meus caminhos, obedecendo as minhas leis e as mitzvot, tal qual seu pai David. eu darei a você vida longa.”. M’lakhim Alef/I Reis 3:5-14.

Deus prometeu que assim como fora com Davi, seria com Salomão. Se o rei andasse perante o Senhor em retidão, se fizesse o que Deus lhe havia ordenado, seu trono seria estabelecido, e seu reino seria o meio de exaltar Israel como “possuidores de sabedoria e entendimento” D’varim/Deut. 4:6), a luz das nações ao redor.

A linguagem usada por Salomão quando em oração a Deus diante do antigo altar de Gibeom, revela sua humildade e forte desejo de honrar a Deus. Ele sentia que sem o divino auxílio para desincumbir-se das responsabilidades impendentes sobre si, estaria tão ao desamparo como uma criancinha. Sabia que lhe faltava discernimento, e foi o senso de sua grande necessidade que o levou a buscar de Deus sabedoria. Em seu coração não havia aspiração egoísta de conhecimento para que se pudesse exaltar sobre outros. Ele desejava desempenhar fielmente os deveres que lhe foram impostos, e escolheu o dom que seria o meio de levar seu reino a glorificar a Deus. Salomão nunca foi tão rico ou tão sábio ou tão verdadeiramente grande como quando confessou: “mas eu ainda sou uma criança – eu não sei como liderar!”. M’laklim Alef/I Reis 3:7.

Os que ocupam hoje posições de responsabilidade devem procurar aprender a lição ensinada pela oração de Salomão. Quanto mais alta a posição que um homem ocupa, quanto maior a responsabilidade que tem de levar, mais ampla será a influência que exerce e maior sua necessidade de dependência de Deus. Deve lembrar-se sempre que com o chamado para o trabalho, vem o chamado para andar circunspectamente perante seus companheiros. Deve ele permanecer ante Deus na atitude de um discípulo. A posição não dá santidade de caráter. É por honrar a Deus e obedecer a Seus mandamentos que o homem se torna verdadeiramente grande.

O Deus que servimos não faz acepção de pessoas. Aquele que deu a Salomão o espírito de sábio discernimento, está desejoso de repartir as mesmas bênçãos a Seus filhos hoje. “se a algum de vocês faltar sabedoria”, declara Sua Palavra, “peça-a a Deus, que a todos concede de modo generoso e sem condenação; e ela lhe será dada.” Ya’akov/Tia. 1:5. Quando o que leva um fardo opressivo deseja sabedoria mais que riquezas, poder, ou fama, não ficará desapontado. Tal pessoa aprenderá do grande Mestre não somente o que fazer, mas como fazê-lo de maneira a alcançar a divina aprovação.

Por todo o tempo em que permanecer consagrado, o homem a quem Deus dotou com discernimento e habilidade não manifestará anseios por alta posição, nem procurará dirigir ou governar. Necessariamente os homens precisam assumir responsabilidades; mas em vez de disputar a supremacia, aquele que é verdadeiro líder orará por um coração entendido, a fim de poder discernir entre o bem e o mal.

A vereda dos homens que estão colocados como líderes não é fácil. Mas devem eles ver em cada dificuldade um chamado à oração. Jamais devem deixar de consultar a grande Fonte de toda a sabedoria. Fortalecidos e iluminados pelo Obreiro-Mestre, serão capacitados a permanecer firmes contra pecaminosas influências, e a discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Aprovarão o que Deus aprova, e empenhar-se-ão com todo o fervor contra a introdução de princípios errôneos em Sua causa.

A sabedoria que Salomão desejou acima de riquezas, honra, ou vida prolongada, Deus lhe deu. Sua petição por acuidade mental, largueza de coração e brandura de espírito foi satisfeita. “Deus deu a Shlomoh uma sabedoria e um conhecimento excepcionais, bem como um coração tão grande quanto a areia do mar. A sabedoria de Shlomoh seperava a sabedoria do povo do oriente e toda a sabedoria do Egito. Ele era mais sábio que Eitan, o ezrachi, e mais sábio que Heiman, Kalkol e Darda, os filhos de Machol; de maneira que sua fama espalhou-se por todas as nações.”. M’lakhim Alef 05:09 a 11/I Reis 4:29-31.

“Todo o Yisra’el ouviu a decisão do rei e passou a tê-lo em grande estima, pois viu que a sabedoria de Deus estava com ele, habilitando-o para governar com justiça na medida certa.”. M’lakhim Alef/I Reis 3:28. O coração de todo o povo tornou para Salomão, como se havia tornado para Davi, e lhe obedeceram em todas as coisas. “Shlomoh, o filho de David, fortaleceu-se em seu governo; Adonai, seu Deus, era com ele, fazendo-o cada vez maior.” Divrei-HaYamim Bet/II Crôn. 1:1.

Durante muitos anos, a vida de Salomão foi marcada com devoção a Deus, com retidão e firme princípio, e com estrita obediência aos mandamentos de Deus. Ele promoveu todo empreendimento importante, e manejou sabiamente as questões de negócio relacionadas com o reino. Sua riqueza e sabedoria; as luxuosas construções e obras públicas que ele construiu durante os primeiros anos de seu reinado; a energia, piedade, justiça e magnanimidade que revelou em palavras e obras resultaram na lealdade de seus súditos e a admiração e homenagem dos governantes de muitas terras.

O nome de Jeová foi grandemente honrado durante a primeira parte do reinado de Salomão. A sabedoria e justiça reveladas pelo rei deram testemunho a todas as nações da excelência dos atributos do Deus que ele servia. Por algum tempo, Israel foi a luz do mundo, revelando a grandeza de Jeová. Não era na sua preeminente sabedoria, fabulosas riquezas, ou no vasto alcance do seu poder e fama que repousava a verdadeira glória do início do reinado de Salomão; mas na honra que ele levava ao nome do Deus de Israel, mediante sábio uso dos dons do Céu.

Ao passarem os anos, e aumentando a fama de Salomão, buscou ele honrar a Deus acrescentando sua força mental e espiritual e constantemente repartindo com outros as bênçãos recebidas. Ninguém compreendia melhor que ele, haver sido pelo favor de Jeová que entrara na posse do poder, sabedoria e entendimento, e que esses dons foram-lhe concedidos para que ele pudesse dar ao mundo o conhecimento do Rei dos reis. Salomão tomou especial interesse pela História Natural, mas suas pesquisas não estavam limitadas a um determinado ramo do saber. Mediante diligente estudo de todas as coisas criadas, tanto animadas como inanimadas, adquiriu clara concepção do Criador. Nas forças da Natureza, no mundo mineral e animal, e em toda árvore, arbusto e flor, ele via a revelação da sabedoria de Deus; e ao procurar aprender mais e mais, seu conhecimento de Deus e seu amor por Ele constantemente aumentavam.

A divinamente inspirada sabedoria de Salomão encontrou expressão em cânticos de louvor e em muitos provérbios. “Ele compôs 3 mil provérbios e 1.005 canções. Ele podia discutir sobre árvores, desde os cedros do L’vanon até o hissopo que cresce nos muros; ele podia discutir sobre animais,aves, répteis e peixes.”. M’lakhim Alef 5:12 e 13/I Reis 4:32 e 33.

Nos provérbios de Salomão estão esboçados princípios de santo viver e elevados intentos; princípios oriundos do Céu e que conduzem à piedade; princípios que devem reger cada ato da vida. Foi a ampla disseminação destes princípios, e o reconhecimento de Deus como Aquele a quem pertencem todo louvor e honra, que fez dos primeiros tempos do reinado de Salomão uma ocasião de reerguimento moral bem como de prosperidade material.

“Feliz é a pessoa que encontra a sabedoria, a pessoa que adquire entendimento; sua riqueza excede a prata, ganhá-la é melhor que ouro, ela é mais preciosa que pérolas – nada que você queira pode comparar-se a ela.
Vida longa está em sua mão direita, riqueza e honra, na esquerda. ela é a árvore da vida para aqueles que a alcançarem; quem se apegar a ela, encontrará a felicidade.” Mishlei/Prov. 3:13-18.

“O princípio da sabedoria é: busque sabedoria! E, quando a obtiver, busque discernimento!.” Mishlei/Prov. 4:7. “a sabedoria é, em primeiro lugar, o temor de Adonai, todos os que vivem por ela adquirirão bom senso. Seu louvor permanece para sempre. .” Tehillim/Sal. 111:10. “O temor a Adonai é odiar o mal. Odeio o orgulho e a arrogância, os caminhos do mal e o discurso duplicado.” Mishlei/Prov. 8:13.

Oxalá tivesse Salomão em seus últimos anos atentado para estas maravilhosas palavras de sabedoria Quem dera aquele que declarou: “As palavras dos sábios espalham conhecimento, mas o coração dos tolos não precede assim.” Mishlei/Prov. 15:7 e que ensinara, ele próprio, os reis da Terra a render ao Rei dos reis o louvor que haviam intentado dar a um governador terreno, não tivesse jamais tomado para si com “boca perversa”, em “soberba” e “arrogância” a glória devida a Deus somente!

Fonte: Ellen Gold White, Profetas e Reis, págs.. 25 a 35

As passagens bíblicas citadas são da Bíblia Judaica Completa – BJC – Editora Vida.

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