O Shabatt


No Shabat, os judeus relembram que o mundo não foi dado à humanidade para que ela faça dele o que bem entender, mas que se trata de uma criação de De-us. Os judeus também relembram a escravidão pela qual passaram no Egito e a promessa divina de que jamais voltarão a ser escravizados novamente – as obrigações diárias com o trabalho e outros compromissos são ferramentas pelas quais os judeus procuram cumprir o propósito divino na terra, e elas não devem nos escravizar.
O Shabat é a identidade judaica, é a noiva de Israel, a alma gêmea do povo judeu. É uma das formas mais poderosas e significativas de se demonstrar o judaísmo e transmití-lo aos nossos filhos e netos. Os judeus têm permanecido fiéis no cumprimento do Shabat em diferentes lugares, culturas e circunstâncias nos últimos 4 mil anos de nossa história – desde os dias mais gloriosos até os mais negros e trágicos. Nas palavras de um famoso escritor judeu: “Mais do que os judeus têm guardado o Shabat, o Shabat tem guardado o povo judeu”.
O Shabat representa momento de prazer. É um dia em que os judeus preparam uma mesa de refeição farta e diversificada. Completam a beleza desse dia o brilho das velas, cânticos suaves e uma revigorante noite de sono. No decorrer da semana é um desafio aproveitamos corretamente os bons momentos que a vida nos traz. Nós somos seres físicos em um mundo materialista, por isso, precisamos estar atentos para que nossos prazeres diários não tomem conta de nós de forma descontrolada. Mas, no Shabat, tanto o corpo quanto a alma são igualmente elevados para um plano espiritual superior. Assim, os prazeres provenientes da comida, bebida e do descanso se tornam uma mitzvá, um ato divino.

O Shabat é espiritualidade. É a alma da semana. Os cabalistas ensinam que no Shabat todas as realizações da semana anterior alcançam plenitude e elevação e, a partir do Shabat, todos os esforços e projetos para a próxima semana são abençoados. Guardar o Shabat garante a bênção de D-us para o sucesso de toda a semana de trabalho que está por vir e enche nossas vidas de propósito e significado.
O Shabat é uma prévia do Mundo Vindouro. “Naquele tempo, não haverá fome nem guerra, nem ciúmes ou rivalidade. O bem será pleno e todas as iguarias estarão disponíveis como poeira. O Mundo inteiro estará dedicado a conhecer a D-us”. Também os sábios e profetas de Israel descreveram a Era da Redenção – o “sétimo milênio” quando ocorrerá a realização e o cumprimento de seis milênios da história humana em sua empreitada para fazer da terra a morada de D-us.
O Shabat é o nosso vislumbre semanal deste mundo vindouro.
E, assim como o gosto de uma deliciosa comida, só é possível compreender o que é o Shabat uma vez que se tenha experimentado vivê-lo plenamente. Portanto, em última análise, a resposta mais adequada para a pergunta “O que é o Shabat?” é: “Experimente-o!”.

Os Rituais

O Shabat é especial porque D-us o santificou tornando-o singular. A característica especial desse dia é demonstrada pelos judeus através atitudes pouco comuns e através de rituais específicos que tornam única a experiência de guardar o Shabat. Esses rituais dão ao Shabat uma áurea de separação dos demais dias da semana e trazem a santidade do Shabat para as nossas vidas.
Tudo começa com a forma como recepcionamos o Shabat. Trabalhamos com intensidade na sexta-feira para nos prepararmos para o momento em que começa o Shabat. De repente, 18 minutos antes do pôr-do-sol, tudo se torna quieto e tranquilo. As mulheres acendem as velinhas de Shabat, cobrem seus olhos e recitam a bênção apropriada. A tranquilidade do Shabat que cai sobre nós permanece até o serviço religioso na sinagoga, na sexta à noite: “Venha meu Amado conhecer sua Noiva; saudemos o Shabat”. Após o kidush, realizamos uma refeição festiva em honra ao Shabat. Ao final, ao entardecer de sábado, realizamos a cerimônia de Havdalá, em despedida ao Shabat.
São com esses rituais: as velas, as rezas, o kidush, as refeições festivas e a havdalá, que cumprimos a mitzvá de guardar o Shabat. Tais rituais nos habilitam a receber a santidade do Shabat em nossas vidas.

As velas

Entramos na paz e santidade do Shabat acendendo as velas ao pôr-do-sol de todas as sextas-feiras. As velas devem ser acesas 18 minutos antes do pôr-do-sol, momento que marca o começo do Shabat. A mitzvá de acender as velas foi entregue especialmente às mulheres judias, mas, por ser uma obrigação a ser realizada em todas as casas judaicas, se uma mulher não estiver presente, as velas podem ser acesas pelo homem da casa.
A partir do momento em que uma jovem já puder compreender o significado do Shabat e recitar a bênção (aproximadamente aos três anos de idade) ela já deve acender sua própria velinha de Shabat. A jovem deve acender antes de sua mãe, pois somente assim sua mãe poderá prestar assitência a ela, caso necessário. As velas devem, preferencialmente, serem acesas na mesa, ou próximas a ela, onde é realizado o janatar de Shabat.
É costume depositar em um cofrinho de caridade algumas moedas antes de acender a vela de Shabat. A razão prática disso é o fato de que, no Shabat, os judeus não podem manuziar dinheiro, assim, damos uma caridade extra antes do início do Shabat para compensar a ausência dessa boa ação nesse período. A razão espiritual é para que relembremos a importância de considerar as necessidades daquelas pessoas menos favorecidas, especialmente em momentos de grande elevação, como o Shabat.
Após depositar as moedas e colocar de lado caixinha de Tzedaká, acenda as velas de Shabat.
Garotas e mulheres solteiras acedem apenas uma vela. Após casadas, as mulheres devem acender duas velas. Algumas têm o costume de acender uma vela para cada membro direto da família (filhos e filhas).
Puxe suas mãos contra si, sobre as chamas, trazendo o calor das luzes para o seu interior.
Cubra seus olhos e recite a bênção:

Transliteração: Baruch Atá Ado-nai, E-lo-hei-nu Me-lech Ha-Olam, A-sher Ki-de-sha-nu Be-mitz-vo-tav Ve-Tzi-va-nu Le-Ha-dlik Ner Shel Sha-bat Ko-desh.
Tradução:
Bendito És Tu, Senhor nosso D-us, Rei do universo, que nos santificou com Teus mandamentos e nos ordenou acender as velas do Shabat.
Tire as mãos dos olhos e observe por alguns instantes a luz das velas. Cumprimente sua família e os presentes com um caloroso Shabat Shalom!
Logo após acender as velas, é costume as mulheres pedirem por saúde e felicidade para seus filhos . As meninas também oferecem suas orações nesse momento especial, enquanto descobrem a beleza dessa prática que trará vida e luz para o resto de suas vidas.
Após acender as velas e recitar a bênção, o Shabat é efetivamente acolhido. O fogo é considerdo muktzá no Shabat. Por isso, é proibido tocar nas velas e nos castiçais até o final do Shabat.

As boas-vindas

Ao escurecer, após acender as velas, vamos a pé até a sinagoga para a reza especial de Shabat. A cerimônia, conhecida também como Cabalat Shabat, é famosa por suas rezas poéticas e melodias marcantes.
A cerimônia se inicia com “Lechu Neranená” – “Venha, vamos cantar”. O destaque da noite fica com a reza “Lechá Dodi”. Neste hino místico, os judeus descrevem os preparativos para as boas-vindas ao Shabat. O refrão é: “Venha, meu Amado, para se encontrar com sua Noiva; saudemos o Shabat!”.
A reza de Lechá Dodi foi escrita por Rabi Shlomo Halevi Alkabetz (5260-5340), professor e cunhado do renomado cabalista Rabi Moshe Cordovera. O autor assinou seu nome, Shlomo Halevi, como acróstico na primeira letra de cada estrofe.
Após as rezas de boas-vindas ao Shabat, seguem as demais: Barechu, Shemá, a Amidá e Alênu.
Caso não seja possível ir a pé para a sinagoga, ou não haja uma em sua cidade, as rezas podem ser feitas em casa.

Kidush e refeição noite sexta-feira

Yom Hashishi. “E os céus e a terra e todas as hostes que neles habitam foram finalmente concluídas… E abençoou D-us o sétimo dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que D-us criara e fizera.” (Gênesis 1:31 2:1-31)
Antes da refeição de Shabat, na sexta-feira à noite, é realizada uma pequena cerimônia, chamada de Kidush. Logo após chegar da sinagoga, reúna sua família, amigos e convidados ao redor da mesa. É costume recitar o cântico “Shalom Aleichem” em agradecimento à presença dos anjos na cerimônia de Cabalat Shabat.
Em seguida, recita-se “Aishet Chayil” , poema de autoria do Rei Salomão, em louvor ao Shabat e agradecimento às mulheres. Segundo o Midrash, esta homenagem foi originalmente composta pelo Patriarca Abraão, como um tributo por ocasião do falecimento de sua esposa, Sara. É costume todos os homens refletirem e agradeçerem, ao final de mais uma semana, a importância e o papel que suas esposas têm desempenhado nos afazeres diários. O poema também se refere à “Rainha do Shabat”, a alma gêmea espiritual de toda a Nação Judaica.
Agora, encha o copo de kidush até a borda de forma com que transborde um pouco – usar um recipiente de prata, com detalhes e adornos a sua volta – não usar copo plástico.
Levante-se, segure o copo com a mão direita, e recite a bênção:
Yom ha-shishi, Va-yechulu ha-shamayim ve-ha’aretz ve-chol tzeva’am.
Va-yechal Elohim ba-yom ha-shevi’i melachto asher asah, va-yishbot ba-yom ha-shevi’i mi-kol melachto asher asah.
Va-yevarech Elohim et yom ha-shevi’i va-yekadeish oto, ki vo shavat mi-kol melachto asher bara Elohim la’asot.
Savri maranan:
Baruch ata Hashem, Elokeinu melech ha-olam,borei peri ha-gafen. (Os presentes respondem: “Amen.”)
Baruch atah Hashem, Eloheinu melech ha-olam, asher kideshanu be-mitzvotav ve-ratzah banu, ve-Shabbat kodesho be-ahava uve-ratzon hinchilanu, zikaron le-ma’aseh vereishit, techilah le-mikra’ei kodesh, zeicher litziat mitzrayim.
Ki vanu vecharta ve-otanu kidashta mi-kol ha-amim, ve-Shabbat kodshecha be-ahavah uve-ratzon hinchaltanu.
Baruch ata Hashem, mekadeish ha-Shabbat. (“Amen”)
Tradução:
No sexto dia. E o céu e a terra e tudo o que neles há foi concluído. E D-us terminou no Sétimo Dia a obra que Ele havia iniciado, e Ele descansou no Sétimo Dia de toda obra que Ele tinha realizado.
E abençoou D-us o sétimo dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que D-us criara e fizera.
Atenção senhores! Bendito És Tu, Senhor Nosso D-us, Rei do Universo, que criou o fruto da videira.

Bendito És Tu, Senhor Nosso D-us, Rei do Universo, que nos fez santos com os Teus mandamentos e nos agraciou, e nos deu o Seu Santo Shabat com amor e em nosso benefício, para que seja nossa herança, e como lembrança da Criação. É a primeira das festividades sagradas, comemorando o êxodo do Egito.
Pois Tu nos escolheste e nos santificaste dentre todos os povos da terra, e com amor e boa vontade nos deste o Teu Shabat santificado como herança. Bendito És Tu, Senhor, que santificas o Shabat.
Sente-se, beba pelo menos metade do copo de vinho, e derrame o restante em copos para os demais que estão presentes.
Certifique-se que todos bebam ao menos um gole do vinho.
A cerimônia de kidush está completa! Agora você está pronto para a sua refeição de Shabat.
O kidush deve ser feito pelo chefe da casa.
A refeição
Depois do kidush, lavamos nossas mãos como de costume para comer pão. Cada pessoa enche um copo grande e derrama a água duas ou três vezes , primeiro na mão direita, depois na esquerda. Levantamos nossas mãos na altura dos olhos e recitamos a seguinte bênção:
Baruch Atá A-donai, Elo-henu Melech Ha’Olam, asher kidshanu be’mitzvotav vetzvanu al netilat yadaim.
Bendito És Tu, Senhor Nosso D-us, Rei do universo, que nos santificou com os Teus mandamentos e nos ordenaste sonbre a lavagem das mãos.
Em silêncio, todos retornam à mesa. O chefe da casa ergue duas chalot e recita a hamotzí e todos dizem Amén. Corte a chalá, mergulhe-a em sal antes de comer. Coma o pedaço de chalá salgada imediatamente após recitar a bênção, sem nenhuma interrupção. O restante da chalá é cortado e distribuído para os demais que devem recitar a bênção individualmente, mergulhando-a no sal e ingerindo-a em seguida.
É mandamento divino expressar alegria e deleite no Shabat. Essas obrigações são cumpridas através de três refeições festivas: à noite, no almoço de Sábado e ao entardecer. São servidas as melhores comidas que podemos dispor que devem incluir carne ou frango e peixe.

Havdala e o término do Shabat

Na cerimônia de Havdalá os judeus proferem quatro bênçãos: a) a hagafen, sobre um copo de vinho; b) a bênção proferida sobre especiarias aromáticas; c) a bênção sobre a vela; e d) a bênção de Havdalá em si, de agradecimento a D-us que criou a separação entre o sagrado e o mundano (o Shabat e os dias da semana).
Após recitar alguns versos de inspiração e a bênção sobre o vinho, são recitadas as bênçãos sobre as especiarias aromáticas e sobre a vela. Com o copo de vinho na mão, recita-se a bênção de Havdalá. Depois de concluir a bênção, aquele que a recitou senta-se e bebe parte do vinho do copo.
Após a Havdalá, a chama da vela é extinta mergulhando-a no vinho que transbordou no prato sob o copo.
Muitos têm o costume de, após apagada a chama da vela, mergulhar os dedos no vinho derramado e esfregá-los na testa, logo acima das sobrancelhas. Isto se dá, pois, ao cumprir esta mitzvá, abrimos os nossos olhos para a semana que está por vir. Outros também têm o costume de passar os dedos nos bolsos como uma forma de antecipar o desejo de uma semana próspera e abundante.

fonte: site da Federação Israelita do Paraná: http://www.feipr.org.br/havdalashabat.aspx

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