De Porfírio a Jerônimo


Um documento que é um ponto de referência na história da interpretação de Daniel é o décimo-segundo livro da maior obra, intitulada “Contra os Cristãos”, escrita pelo filósofo pagão neoplatônico Porfírio (cerca de 233-304 d.C.). Essa décima-segunda seção lida com as profecias de Daniel Porfirio assumiu a posição de que o livro de Daniel não foi escrito no sexto século a.C. Antes, era uma história que pertencia à era dos macabeus, escrita depois dos eventos na forma de profecia.

Mas de onde esse antagonista da fé cristã tirou sua ideia? Nesta seção, o autor demonstra a familiaridade de Porfírio com os escritos de Hipólito sobre o livro de Daniel. Hipólito (falecido em 236) é o primeiro escritor cristão a identificar o chifre pequeno de Daniel 8 com Antíoco Epifânio. Ele também defendia Antíoco e suas atividades como o cumprimento da maior parte de Daniel 11. De forma razoável, o autor infere da evidência à disposição que foi o cristão Hipólito quem de modo involuntário forneceu ao pagão Porfírio a arma (a interpretação de Antíoco) com a qual ele tentou refutar o significado profético do livro de Daniel.

Lançando mão da ideia do pai da Igreja, Porfirio defendeu um antecedente macabeano para o livro de Daniel e deduziu um cumprimento por Antíoco para a maior parte de suas profecias. Ele não somente afirmava que Antíoco era o chifre pequeno de Daniel 8, mas foi o primeiro a projetar a opinião de que Antíoco era representado também pelo chifre pequeno de Daniel 7. Da mesma forma, ele defendia um cumprimento de Antíoco para uma parte maior de Daniel 11 do que fizera Hipólito e estendia a presença de Antíoco no capítulo 12.
Embora não seja conhecido o que ele propôs para Daniel 9 (sua obra sobre Daniel está preservada apenas em parte por Jerônimo), é possível inferir que ele tinha uma interpretação de Antíoco para Daniel 2.
Um paradoxo que surge dessa obra anticristã é que o pagão Porfírio de fato corrigiu e melhorou a interpretação histórica de Hipólito da primeira parte de Daniel 11. Com alguns pequenos ajustes, todos os modernos intérpretes – preteristas, futuristas e historicistas igualmente – sequem seu esquema até o versículo 13. Os preteristas e futuristas continuam com os pontos de vista dele até o versículo 20.
Durante o quarto e quinto séculos, três intérpretes cristãos (até onde vão os presentes registros) no setor sírio da Igreja adotaram a opinião de Porfírio de que o chifre pequeno de Daniel 7 era Antíoco. Um deles, Policrônio (374-430 d.C.), tentou harmonizar o elemento de tempo do capítulo 8 (as 2.300 tardes e manhãs) com o elemento tempo de associado ao chifre pequeno do capítulo 7 (tempo, tempos, metade de um tempo). Ele fez isso dividindo os 2.300 por 2 para obter 1.150 dias. É o primeiro escritor conhecido a ter tentado essa espécie de abordagem ao período de tempo dos 2.300 dias.
Entretanto, segundo a evidência literária disponível, parece que nem os escritos de Porfírio nem aqueles dos pais da igreja síria que adotaram suas ideias tiveram muito impacto sobre a compreensão de Daniel da Igreja em geral naquele tempo. Uma opinião historicista em termos gerais era mantida em relação a Daniel 7 e 9. Mas a informação é incompleta. É possível que, à semelhança de Hipólito, os escritores posteriores também tenham visto Antíoco em Daniel 8 e 11. Isso é verdade quanto a Jerônimo, o último escritor estudado.

Jerônimo (340?-420 d.C.) escreveu um comentário sobre Daniel, uma importante contribuição. Ele reafirmou o esquema historicista dos quatro reinos mundiais e concordou com todos os intérpretes cristãos anteriores de que Daniel messiânico e cristocêntrico. Ele não deu nenhum lugar a Antíoco em Daniel 2, 7 ou 9. Contudo, concordava com Hipólito e o pagão Porfírio quanto a ver Antíoco Epifânio como a figura dominante em Daniel 8 e o principal tema na profecia de Daniel 11.
Jerônimo acrescentou a ideia de que nos capítulos 8 e 11 o Antíoco histórico era, ao mesmo tempo, um tipo de anticristo por vir. A ideia de que Antíoco tinha significado típico não era de Jerônimo originalmente, mas seu escrito sobre o assunto é o exemplo mais extenso dessa espécie de aplicação dupla que tem sobrevivido desde sua época.
Portanto, no resumo desta seção e da anterior, pode-se observar que existem duas alusões na literatura judaica a uma intepretação de Antíoco de certas partes de Daniel (Antiga Septuaginta Grega; I Macabeus 1:54) e uma identificação direta ao capítulo 8 por Josefo.

A interpretação de Antíoco (para os capítulos 8 e 11) entrou no pensamento cristão por meio dos escritos do pai da Igreja Hipólito que derivou sua ideia de I Macabeus. Seu ponto de vista, por sua vez, proveu a base para o filósofo pagão posterior, Porfírio. Com esse ponto de partida, Porfirio elaborou a opinião de que o livro de Daniel estava enraizado na era dos macabeus e, consequentemente, estendeu uma interpretação de Antíoco para a maior parte de suas profecias.
Embora o pai da Igreja posterior, Jerônimo, se opusesse a Porfirio em certos assuntos, continuou a manter e promover, por meio do seu comentário, uma interpretação de Antíoco para o chifre pequeno de Daniel 8 e para o capítulo 11 do versículo 21 em diante. Além disso, ele popularizou a ideia em seu comentário de que o Antíoco histórico (retratado nos capítulos 8 e 11) tipificava a futura vinda de um anticristo.
Estudos sobre Daniel – Origem, Unidade e Relevância Profética – Editor Frank B. Holbrook – autor: William H. Shea – UNASPRESS – 2009.

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