Daniel 2 – O Acharit há-iamim – Fim dos Dias


Em uma tentativa para compreender o significado do sonho dado a Nabucodonosor, observamos no início que ele forma uma parte das profecias apocalípticas do livro de Daniel. O capítulo 2 está intimamente ligado em conteúdo temático com as visões dos capítulos 7 e 8. Consequentemente, se os últimos são vistos como profecias apocalíticas, o primeiro deve igualmente ser considerado como apocalíptico.

O capítulo 2 descreve um sonho dado ao rei nos símbolos de uma estátua composta de metais decrescendo em valor do ouro para o barro, e finalmente destruída por uma pedra de origem sobrenatural. O rei e seus sábios são incapazes de lembrar o sonho ou compreender seu significado, mas o destino das nações está nas mãos do D’us do Céu, que revela o conteúdo do sonho a Daniel e provê uma interpretação escatológica de seus simbolismos. A revelação divina mostra um julgamento que destruirá os reinos deste presente mundo mau e estabelecerá a nova ordem mundial de D’us. O enfoque é sobre o fim do tempo e o estabelecimento do eterno reino de D’us.
O reconhecimento do capítulo 2 como de natureza apocalíptica afeta nossa abordagem à sua interpretação. Aqui o triunfo de Deu ocorre por sua direta intervenção nos negócios da humanidade, subvertendo as nações e estabelecendo o seu reino mundial sobrenatural. Assim, a natureza apocalíptica do capítulo 2 não permite a possibilidade de interpretações sugerindo um aparecimento gradual do reino de D’us sobre a terra …
Em vez disso, no ambiente histórico do cativeiro babilônico, o capítulo 2 é um exemplo claro da revelação de D’us de sua soberania e sua presciência. É uma revelação que aponta para o término de todas as instituições humanas e o estabelecimento de uma nova ordem divina em seu lugar. A natureza apocalíptica do sonho argumenta a favor da pedra-reino como um ato de Deus que ocorrerá em um ponto histórico no tempo e devastará os reinos e pecadores terrestres, mas livrará, salvará e estabelecerá os santos em seu eterno domínio.
Nabucodonosor. III jpg

Uma Análise de Daniel 2

A profecia singular de Daniel 2 surge de uma situação imposta por D’us sobre Nabucodonosor, um monarca pagão…
Por causa de sua violação da aliança, Israel foi para o cativeiro. D’us agora desejava refazê-los e usá-los par atingir os pagãos a quem eles haviam negligenciado.
A fim de chamar a atenção do rei, D’us lhe falou através de um sonho. O sonho foi dado no segundo ano de Nabucodonosor (603 a.C.). No ano anterior suas tropas haviam experimentado considerável dificuldade em destruir Asquelom. Não há dúvida de que estava preocupado com o que o futuro reservava para ele e o seu reino.
O momento era oportuno para a transmissão de uma mensagem. D’us não somente introduziu o sonho, mas também removeu sua lembrança a fim de aprofundar a ansiedade do rei para conhecer o seu significa. Esta ação divina expôs a falsidade dos “magos” do rei e preparou o caminho para Daniel obter acesso ao monarca.
Nesse cenário D’us provê um esquema da história na forma de uma imagem metálica que se estende “do exílio ao estabelecimento do reino de D’us”. Nada na profecia se baseia em contingências ou condições humanas. Não há nenhum indicio de que sua sequencia de nações estivesse em algum sentido condicionada à obediência de Israel a D’us. Em vez disso, é uma descrição direta da presciência de D’us, o que Ele previu que ocorreria no futuro.
O enfoque culminante do sonho centraliza-se nos “últimos dias”. Parece seguro sugerir que 2:28-29 faz com que o leitor espere ter, ao longo da profecia, uma pesquisa da história desde o próprio tempo de Nabucodonosor até o estabelecimento do reino de D’us. Contudo, a fim de compreender a interpretação da pedra-reino encontrada em 2:34,35, 45, é necessário dar atenção a expressão “nos últimos dias” (2:38) aos quais a profecia se relacionava, conforme dito a Nabucodonosor.

As expressões aramaicas acharit yômayyã significam “na última parte dos dias” e é uma versão aramaica mais exata do hebraico acharit hayyãmîm, que é encontrada com frequência no ‘Tanach’. O significado da expressão varia com o contexto e, portanto, é dinâmico, não estático. Acharit é derivada do verbo ‘ahar (“permanecer atrás, demorar, tardar”), e carrega o significado de “posterior”, “subsequentemente”. É um substantivo abstrato que é mais bem traduzido de forma neutra. Estando só, seu significado nem sempre pode ser claro, sendo que o contexto é necessário para supri o enfoque correto. Seria proveitoso notar várias utilizações e significados dados no ‘Tanach’.

1. Há o significado temporal de “depois”, ou “posteriormente” como em Deuteronômio 8:16, que se refere a um tempo e condição depois da experiência do deserto. Jó 42:12 é semelhante; “ O Senhor abençoou os últimos (acharit) dias de Jó mais do que seu inicio….”

2. Há também o lógico “depois”, conforme indicado em Provérbios 14:12: “Há um caminho que parece direito…mas seu fim (acharit) é o caminho para a morte”. (cf. 5:4, 20:21).

3. Em algumas passagens acharit meramente se refere ao futuro. “Não tenha o teu coração inveja dos pecadores; antes, no temor do Senhor perseverarás todo dia. Porque deveras haverá bom futuro; (acharit) não será frustrada a tua esperança.” (Prov. 23:17 e 18). Também Isaías 46:9 e 10 fala do D’us incomparável como alguém que está “declarando o fim (acharit) desde o principio.”

4. Às vezes acharit significa posteridade ou remanescente. Salmo 109:13 é um exemplo do primeiro. “Desapareça a sua posteridade (acharit) e na geração seguinte se extinga o seu nome.” O paralelismo sinonímico hebraico nesta passagem ajuda a esclarecer o seu significado. Outras passagens em que o termo leva o significado de “posteridade” são Daniel 11:04, Salmo 37:38, e Ezequiel 23:25. Ás vezes a mesma palavra é mais bem traduzida por “remanescente”, como pode ser visto nos seguintes versículos: Amós 04:02, 09:01, Ezequiel 23:25.

5. A palavra pode se referir ao fim de uma transação ou de um evento. Em tais casos, o significado deve ser encontrado no resultado. Balaão orou: “Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim (acharit) seja como o dele” (Núm. 23:10). Para outros exemplos, compare com Deuteronômio 32:20, 11:12, Amós 08:10 e Eclesiastes 07:08.

6. A expressão ‘do Tanach’ “fim dos dias” (acharit hayyãmîm) significa “posteriormente aos dias”, “no tempo seguinte”. A frase é uma referência a um futuro tempo limitado, não necessariamente ao fim do tempo escatológico. Um exemplo do significado está registrado em Deuteronômio 04:30: “Quando estiveres em angústia, e todas estas cousas te sobrevierem nos últimos (acharit) dias, e te voltares para o Senhor, teu Deus, e lhe atenderes a voz” (conf. Deut. 31:29, Gên. 49:01, Jer. 49:39).

7. Finalmente acharit hayyãmîm tem um significado escatológico do fim do tempo, tal como pode ser encontrado em Daniel 02:28 e 10:14. Botterweck e Ringgren sugerem que a expressão acharit hayyãmîm em Daniel 10:14 e seu equivalente aramaico em Daniel 02:28 representam um termo técnico para o fim do mundo. Observam os autores(1):

“Em ambas as passagens é possível a tradução ‘tempos futuros’, mas isso não era o que o autor pretendia. ‘(D’us no Céu) fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser no acharit dos dias (2:28). O propósito ou interesse da visão não está no curso de futuros eventos, mas destruição da estátua colossal e na vinda de um reino indestrutível” (versículo 44). Assim, a consequência… é o que é pretendido, e não o futuro em geral.”
S.R. Driver concorda com a opinião acima. Ele declara: “Aqui como mostra a sequencia, é semelhantemente o período do estabelecimento do Reino divino que é principalmente indicado por ela (versículos 34,35, 44, 45)(2) …

A expressão se refere a qualquer período no futuro que o escritor tinha em mente, sendo que com muita frequência ela alude ao último período da história terrestre. O contexto é sempre importante para uma compreensão adequada da expressão. Seu uso em Daniel 02:28 se dirige a Nabucodonosor e ao leitor no futuro desde os dias de Babilônia através do surgimento e queda dos impérios subsequentes, que culmina na subversão final de todas as nações e no estabelecimento de um reino universal permanente. A evidência de que os “últimos dias” de Daniel 2 centraliza-se no término da história é também apoiada pela comparação com a visão dada no capítulo 7. A última atravessa a mesma estrutura histórica de tempo, mas é suplementada com uma ênfase sobre o chifre pequeno e um juízo celestial, seguido pelo estabelecimento do reino de D’us. Consequentemente, sugerimos que os “últimos dias” de Daniel se referem, em geral, ao futuro subsequente à Babilônia, mas com enfoque especial no dia quem os reinos deste mundo se tornam o ‘reino de Adonai’.

Acharit há-iamim – Fim dos Dias (3)

A doutrina das “últimas coisas” desempenha um papel importante na crença judaica, ligada como é à vinda do Messias e à ressurreição dos mortos. Na era pré-messiânica haverá grandes convulsões e guerras, conhecidas como “as dores de parto do Messias”, ou “as pegadas do Messias”, e a experiência judaica do sofrimento e do exílio em várias épocas foi vista como um presságio da redenção final, quando a história terrena chegaria ao fim. O Talmude escreve as pegadas do Messias como um tempo em que a arrogância recrudescerá. O governo tornar-se-á herético e não haverá ninguém para censurar seus erros.

As academias de Torá virarão bordéis. A sabedoria dos escribas apodrecerá. Os mais jovens envergonharão os mais velhos. A própria família se tornará uma inimiga. O semblante da geração parecerá o de um cão. “Com quem poderemos então contar? Com nosso Pai que está no céu.” Depois disso os exércitos de Gog e Magog serão derrotados, e terá lugar a reunião dos exílios na Terra Santa. O mundo estará em paz; os gentios reconhecerão o único e verdadeiro D’us e aceitarão a submissão a Seu reino, ficando a terra “plena de conhecimento do Senhor” (Is. 11:19). Na Era Messiânica haverá o grande Dia do Juízo para a humanidade, com os mortos erguendo-se de suas sepulturas para uma nova vida. Depois, no período chamado Olam Habá, os justos reunir-se-ão no grande banquete do Messias…”
Fonte: Adaptado por Herança Judaica de Douglas Bennet, Estudos sobre Daniel, Origem, Unidade e Relevância Profética, editor Frank B. Holbrook, págs. 279 a 283, UNASPRESS.

1 -TDOT, 1:211.
2 – The Book of Daniel (Cambridge at the University Press, 1905, pág. 26
3 – Alan Unterman, Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, Jorge Zahar Editor, RJ, 1992.

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