A Natureza Humana nos Escritos de Daniel


A visão de D’us e seu séquito celestial ajuda o profeta a reconhecer as limitações e os valores de todos os homens. De Nabucodonosor vem o reconhecimento de que diante do Eterno “todos os moradores da terra são por ele reputados em nada” (4:35). Daniel relembra Belsazar que sua própria vida está nas mãos de D’us, assim como todos os seus caminhos (5:23). A marcha de monarcas e impérios nas páginas deste livro é uma constante recordação da fragilidade humana.

Entretanto, Nabucodonosor se recusa a admitir sua humanidade e se gaba, dizendo: “Quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (3:15). Analisando a obra de suas mãos, o rei de jacta: “Não é está a grande Babilônia que eu edifiquei para casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?” (4:30, grifo nosso; conf. 5:20). A violação de Belsazar dos vasos sagrados do templo foi o sinal de que esse bêbado devasso se levantou “contra o Senhor do Céu” (5:22-23).
A arrogância do homem não conhece limites e até aspira a se igualar ao “príncipe do exército” (8:11). Antes da intervenção divina final, Daniel prediz que um rei terreno fará o que quiser e “se levantará, e se engrandecerá sobre todo deus; contra o D’us dos deuses” (11:36).

A tragédia disso tudo é que o homem peca a despeito de seu conhecimento. Belsazar deveria conhecer mais ao invés de repetir os erros de Nabucodonosor (5:22). Israel se rebelou contra D’us “que gradas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (9:04). O pecado de Israel é tão infame que é comparado à traição (9:07). A confissão de Daniel é um comentário inteligente sobre o coração humano quando se volta a D’us: “temos pecado e cometido iniquidades, procedemos perversamente e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; e não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que em teu nome falaram… A ti, ó Adonai, pertence à justiça, mas a nós, o corar de vergonha, como hoje se vê… a Adonai, nosso D’us, pertence a misericórdia e o perdão,… todo este mal nos sobreveio; apesar disso, não temos implorado o favor de Adonai, nosso D’us, para nos convertermos das nossas iniquidades e nos aplicarmos à tua verdade” (9:5-13).
Entretanto, ninguém escapará da responsabilidade. Privilégios implicam responsabilidades, e respostas (positivas ou negativas) determinam recompensas. Nabucodonosor foi restabelecido ao seu reino em virtude de seu arrependimento. A esperança da restauração de Israel estava, da mesma forma, no arrependimento e mudança. A sentença foi proferida aos dois monarcas babilônicos, e a calamidade de Israel nada mais era do que uma confirmação das palavras ditas por D’us contra eles e seus governantes (9:12).

Ambas as partes do livro testificam do extermínio das nações consideradas inadequadas ao governo pelo Senhor dos Senhores. Os privilégios do “reino e grandeza, glória e majestade” haviam sido franqueados a fim de que potestades terrenas assim favorecidas pudessem “praticar a justiça” e mostrar “misericórdia aos pobres” (5:18; 4:27). Yhwh tinha concedido extraordinários privilégios a Israel a fim de que pudesse ser sua testemunha e declarar seu louvor (9:15, 19; conf. Isaías 43:12,21).
O livro de Daniel é um constante recordar da realidade do julgamento. O nome de seu autor provavelmente significa “D’us é meu juiz”. O fato de que o D’us de Daniel é o supremo soberano do qual a vida e força humanas dependem é razão de sobra para o ser humano prestar-lhe contas (5:23). Haverá um dia quando livros serão abertos e sentenças proferidas (7:9-14) e aqueles que se acharem inscritos no livro serão salvos (12:1-2).
Um remanescente que leva a sério o favor divino também é evidente nas mensagens deste livro. Lemos sobre Daniel, seus amigos, e de uma incontável multidão chamada de “os santos (literalmente ‘os sagrados’) do altíssimo.
Para Daniel e seus amigos, a lealdade a D’us é mais importante do que a própria vida. Eles se recusam a comer alimentos ofensivos à sua consciência ou a se ajoelhar diante de ídolos de qualquer espécie. Sua confiante obediência é incrível. Eles afirmam sua lealdade e convicção de que D’us é capaz de livrá-los, mas “se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (3:18). Sua lealdade não apenas testifica do compromisso deles, mas também os guia à salvação (3:28; 6:22).

A experiência de Daniel e seus contemporâneos prenuncia a experiência dos santos mencionada mais tarde no livro. Eles são igualmente ameaçados com sofrimento, distinguidos por sua lealdade, e finalmente salvos. Os santos são o povo especial de D’us na terra, que sofre perseguição intensa por um determinado período de tempo. Por meio de um veredito judicial, finalmente recebem o reino de D’us e a vida eterna (7:18, 21,22,27).
Hasel conclui que “os santos do Altíssimo” em Daniel 7 devem ser identificados como os fiéis seguidores de D’us que constituem seu povo remanescente, que são seus escolhidos, separados do restante das nações, perseguidos pelo poder que se opõe a D’us, mas mantêm a aliança, sua confiança e fé em D’us, de quem finalmente recebem um reino eterno”. Assim, no livro de Daniel D’us não desiste do homem. Seu objetivo na criação é alcançado no escaton, ou seja, no fim dos tempos, o ‘Acharit há-iamim’. (Gên.1:26 e Daniel 07:27).

Fonte: adaptado de Estudos sobre Daniel, Origem, Unidade e Relevãncia Profética, editor Frank B. Holbrook, UNASPRESS, 2009, págs. 42 e 43, autor: Arthur J. Ferch

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