Cremação ou sepultamento? A visão judaica


Rabino Ilan Stiefelmann, do Beit Lubavitch/Copacabana

Pergunta: Atualmente muitas pessoas têm pedido em testamento para serem cremadas após a morte, seja por causa dos altos custos de um sepultamento ou às vezes movidas simplesmente por desejos pessoais românticos. Qual é a posição do judaísmo sobre esse assunto?

Resposta: O processo de cremação consiste em incinerar o corpo e o caixão a uma temperatura de 1200º C, fazendo com que a madeira do caixão e as células do corpo evaporarem, passando direto do estado sólido para o gasoso. Esses restos são colocados em uma espécie de liquidificador que tritura os ossos durante meia hora. São esses resíduos que compõem as cinzas que sobram como lembrança dos restos mortais de uma pessoa cremada; um corpo de 70 quilos fica reduzido a menos de 1 quilo de restos mortais.

A cremação do corpo é totalmente proibida pelo judaísmo. “Tu és pó e ao pó retornarás” foram as palavras de D-us para Adam, o primeiro ser humano (Bereshit 3:19). A Lei judaica é inequívoca e intransigente em sua insistência para que o corpo, na sua totalidade, seja devolvido à terra. Com a morte, a alma passa por uma dolorosa separação do corpo que até então lhe servira de abrigo. Esse processo de separação é concomitante à decomposição do corpo. A partir do momento em que o corpo é enterrado, ele se desintegra paulatinamente, fornecendo desta forma um conforto à alma que está se liberando do corpo.

Mesmo que a vontade expressa pelo falecido tenha sido a de ter o seu corpo cremado, os parentes que zelam pelo bem da sua alma não devem cumpri-la de forma alguma. Para nós não há dúvida de que o próprio falecido, agora mais perto do Criador, deseja seguir a Vontade Divina. E tem mais: pela Lei judaica, não se pode fazer Shivá (sentar em luto) por alguém que tenha sido cremado. Ele não pode ser merecedor da recitação do Kadish e suas cinzas não poderão ser enterradas em um cemitério judaico.

O modo judaico de lidar com a morte é parte integrante da filosofia de vida de que o corpo é um veículo para alma e deve ser respeitado mesmo após seu óbito. Não temos direito sobre nosso corpo! Ele nos foi emprestado para abrigar a alma e ao final de nossa vida devemos devolvê-lo. Se cremado, o corpo se transforma em cinzas. Muito diferente de ser enterrado, quando o corpo retorna ao pó e se funde com a terra. O solo é fértil, as cinzas não. Solo possibilita novo crescimento e mais vida. Cinzas são estéreis e sem vida. Torrar o corpo para transformá-lo em cinzas contraria a natureza. Mas o processo gradual do retorno ao solo através do sepultamento é natural e carrega um importante simbolismo: o falecimento de uma geração permite o brotamento de outra, e os vivos são nutridos e inspirados pelo legado daqueles que já se foram. Nossos antepassados são o solo do qual nós brotamos. Mesmo em sua morte, eles são uma fonte de vida!

Cortesia: RUA JUDAICA * 31-10-2012 * JUDAISMO * SIONISMO * HUMANISMO *

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