3 – A Fornalha Ardente


O sonho da grande imagem, que abriu perante Nabucodonosor acontecimentos que chegam ao fim do tempo, tinha-lhe sido dado para que ele pudesse compreender a parte que lhe tocava desempenhar na história do mundo, e a relação que seu reino teria com o reino do Céu. Na interpretação do sonho, fora ele claramente instruído quanto ao estabelecimento do reino eterno de D’us. “Nos dias destes reis”, Daniel havia declarado, “o D’us do Céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, e será estabelecido para sempre. … E certo é o sonho, e fiel a sua interpretação.” Dan. 2:44 e 45.

O rei havia reconhecido o poder de D’us, dizendo a Daniel: “Certamente, o vosso D’us é D’us dos deuses… e o revelador dos segredos.” Dan. 2:47. Durante algum tempo Nabucodonosor sentiu-se influenciado pelo temor de D’us; contudo o seu coração não ficou purificado da ambição mundana e do desejo de exaltação. A prosperidade que acompanhou o seu reinado o encheu de orgulho. Em dado tempo ele cessou de honrar a D’us, e retomou seu culto idólatra com maior zelo e fanatismo.

As palavras: “Tu és a cabeça de ouro” (Dan. 2:38), tinham feito profunda impressão no espírito do rei. Os sábios do seu reino, tirando vantagem disto e do seu retorno à idolatria, propuseram-lhe que fizesse uma imagem semelhante àquela vista em sonho, e a erguesse em lugar onde todos pudessem contemplar a cabeça de ouro, que tinha sido interpretada como representando o seu reino.

Lisonjeado com a aduladora sugestão, ele se determinou levá-la a efeito, indo mesmo além. Em lugar de reproduzir a imagem como a tinha visto, ele excederia o original. Sua imagem não seria desigual em valor da cabeça aos pés, mas seria inteiramente de ouro, símbolo que representaria Babilônia como um reino eterno, indestrutível, todo-poderoso, que haveria de quebrar em pedaços todos os outros reinos, permanecendo para sempre.
A ideia de estabelecer um império e uma dinastia que perdurassem para sempre, apelou fortemente ao poderoso monarca cujas armas as nações da terra tinham sido incapazes de resistir. Com o entusiasmo nascido da ilimitada ambição e orgulho personalístico, ele tomou conselho com seus sábios quanto à maneira de levar avante o projeto. Esquecendo as assinaladas providências relacionadas com o sonho da grande imagem; esquecendo também que o D’us de Israel, por intermédio de Seu servo Daniel, tinha-lhe esclarecido o significado da imagem, e que em conexão com esta interpretação os grandes homens do reino tinham sido salvos de morte ignominiosa; esquecendo tudo, exceto o seu desejo de estabelecer o seu próprio poder e supremacia, o rei e seus conselheiros de Estado decidiram que todos os meios possíveis seriam utilizados para exaltar Babilônia como suprema, e digna de submissão universal.

A simbólica representação pela qual Deus tinha revelado ao rei e ao povo o Seu propósito para com as nações da Terra, ia agora servir para glorificação do poder humano. A interpretação de Daniel ia ser rejeitada e esquecida; a verdade ia ser mistificada e mal utilizada. O símbolo que o Céu designara servisse para desdobrar perante a mente dos homens importantes eventos do futuro, ia ser utilizado para impedir a divulgação do conhecimento que D’us desejava o mundo recebesse. Assim mediante a imaginação de homens ambiciosos, Satanás estava procurando frustrar o propósito divino em favor da raça humana. O inimigo da humanidade sabia que a verdade isenta de erro é uma força poderosa para salvar; mas que quando usada para exaltar o eu e favorecer os projetos dos homens, torna-se um poder para o mal.
Das ricas reservas do seu tesouro, Nabucodonosor mandou que se fizesse uma grande imagem de ouro, no seu aspecto geral semelhante a que tinha sido vista em visão, salvo no que respeitava ao material de que ia ser composta. Acostumados como estavam a magnificentes representações de suas divindades pagãs, os caldeus nunca dantes haviam produzido coisa mais imponente e majestosa que esta resplendente estátua, de sessenta côvados de altura, e seis de largura. E não é de surpreender que numa terra onde a idolatria era culto prevalecentemente universal, a imagem bela e sem preço erguida no campo de Dura, representando a glória de Babilônia e sua magnificência e poder, fosse consagrada como objeto de adoração. Em plena concordância com isto foi feita provisão, tendo sido expedido um decreto de que no dia da dedicação todos mostrassem sua suprema lealdade ao poder babilônico curvando-se diante da imagem.

O dia marcado chegou, e uma vasta multidão de todos os “povos, nações e línguas”, se reuniu na planície de Dura. Em harmonia com o mandado do rei, quando o som de músicas foi ouvido, todos se prostraram, “e adoraram a estátua de ouro”. Nesse dia memorável, os poderes das trevas pareciam haver ganho um assinalado triunfo; a adoração da imagem de ouro prometia tornar-se permanentemente relacionada com as formas estabelecidas de idolatria reconhecidas como religião do Estado no país. Satanás esperava dessa forma derrotar os propósitos de D’us de tornar a presença do cativo Israel em Babilônia um meio de abençoar a todas as nações do paganismo.
Mas D’us decidiu de outro modo. Nem todos haviam dobrado os joelhos ante o símbolo idólatra do humano poder. Em meio da multidão de adoradores havia três homens que estavam firmemente resolvidos a não desonrar assim ao D’us do Céu. O seu D’us era o Rei dos reis e Senhor dos senhores; a nenhum outro se curvariam.

A Nabucodonosor, inflado com o triunfo, foi levada a informação de que havia entre os seus súditos alguns que ousaram desobedecer ao seu mandado. Alguns dentre os sábios, enciumados pelas honras que tinham sido concedidas aos fiéis companheiros de Daniel, levavam agora ao rei o relato da sua flagrante violação aos desejos do rei. “Ó rei, vive eternamente” exclamaram. “Há uns homens judeus, que tu constituíste sobre os negócios da província de Babilônia: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; estes homens, ó rei, não fizeram caso de ti; a teus deuses não servem, nem a estátua de ouro, que levantaste, adoraram.”
O rei ordenou que os homens fossem levados perante ele. “É de propósito”, ele perguntou, “que vós não servis a meus deuses nem adorais a estátua de ouro que levantei?” Ele procurou mediante ameaças induzi-los a se unirem com a multidão. Apontando para a fornalha ardente, lembrou-lhes a punição que os esperava se persistissem em sua recusa de obedecer a sua vontade. Mas firmemente os hebreus testificaram de sua fidelidade ao Deus do Céu, e de sua fé em Seu poder para livrar. O ato de se curvar ante a imagem fora compreendido por todos como um ato de adoração. Tal homenagem eles só poderiam render a D’us.
Ao estarem os três hebreus em presença do rei, este compreendeu que eles possuíam alguma coisa que faltava aos outros sábios do seu reino. Eles haviam sido fiéis no cumprimento de cada obrigação. Ele desejava dar-lhes outra oportunidade. Se tão-somente demonstrassem sua boa vontade em unir-se com a multidão em adoração à imagem, tudo iria bem com eles; “mas, se a não adorardes”, ele aduziu, “sereis lançados, na mesma hora, dentro do forno de fogo ardente”. Então com a mão estendida em desafio, exclamou: “E quem é o D’us que vos poderá livrar das minhas mãos?” Dan. 3:9 e 12-15.
Foram inúteis as ameaças do rei. Ele não logrou desviar os homens de sua obediência ao Governador do Universo. A história de seus pais lhes ensinara que a desobediência a D’us resulta em desonra, desastre e morte; e que o temor a Adonai é o princípio da sabedoria, o fundamento de toda verdadeira prosperidade. Enfrentando calmamente a fornalha eles responderam:

“Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso D’us, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; Ele nos livrará do forno de fogo ardente, e da tua mão, ó rei”. Sua fé foi fortalecida ao declararem que D’us Se glorificaria em libertá-los, e com a triunfante segurança nascida da implícita confiança em Deus, acrescentaram: “E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste.”
A ira do rei não conheceu limites. “Nabucodonosor se encheu de furor, e se mudou o aspecto do seu semblante contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”, representantes de uma raça cativa e desprezada. Ordenando que a fornalha fosse aquecida sete vezes mais que de costume, mandou que fortes homens de seu exército atassem os adoradores do D’us de Israel, como preparativo para a execução sumária.

“Então aqueles homens foram atados com as suas capas, seus calções, e seus chapéus, e seus vestidos, e foram lançados dentro do forno de fogo ardente. E, porque a palavra do rei apertava, e o forno estava sobremaneira quente, a chama do fogo matou aqueles homens que levantaram a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.” Dan. 3:16-22.
Mas Adonai não esqueceu os Seus. Sendo Suas testemunhas lançadas na fornalha, o Salvador Se lhes revelou em pessoa, e junto com eles andava no meio do fogo. Na presença ‘criador’ do calor e do frio, as chamas perderam o seu poder de consumir.
Do seu real trono o rei olhava, esperando ver inteiramente consumidos os homens que o haviam desafiado. Mas seus sentimentos de triunfo subitamente mudaram. Os nobres que lhe estavam próximo viram sua face tornar-se pálida, enquanto ele descia do trono e olhava atentamente para dentro das chamas ardentes. Alarmado, o rei, voltando-se para os seus cortesãos, perguntou: “Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo? … Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nada há de lesão neles; e o aspecto do quarto é semelhante ao filho dos deuses.”

Como sabia o rei pagão a que era semelhante o Filho de D’us? Os cativos hebreus que ocupavam posição de confiança em Babilônia tinham representado a verdade diante dele na vida e no caráter. Quando perguntados pela razão de sua fé, tinham-na dado sem hesitação. Clara e singelamente tinham apresentado os princípios da justiça, ensinando assim aos que lhes estavam ao redor a respeito do D’us a quem adoravam… E agora, esquecida sua própria grandeza e dignidade, Nabucodonosor desceu de seu trono, e encaminhando-se para a boca da fornalha, exclamou: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do D’us altíssimo, saí e vinde” Dan. 3:24-26.
Então Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saíram perante a vasta multidão, mostrando-se ilesos. A presença de seu Salvador tinha-os guardado de sofrerem dano, e unicamente suas amarras tinham-se queimado. “E ajuntaram-se os sátrapas, os prefeitos, e os presidentes, e os capitães do rei, contemplando estes homens, e viram que o fogo não tinha tido poder algum sobre os seus corpos; nem um só cabelo de sua cabeça se tinha queimado, nem as suas capas se mudaram, nem cheiro de fogo tinha passado sobre eles.”

Esquecida estava a grande imagem de ouro, erguida com tamanha pompa. Na presença do D’us vivo os homens temiam e tremiam. “Bendito seja o D’us de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”, o humilhado rei foi constrangido a reconhecer, “que enviou o Seu anjo, e livrou os Seus servos, que confiaram nEle, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar os seus corpos, para que não servissem nem adorassem a algum outro deus, senão o seu D’us.”

As experiências desse dia levaram Nabucodonosor a baixar um decreto, “pelo qual todo o povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o D’us de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, seja despedaçado, e suas casas sejam feitas um monturo”. “Não há outro D’us”, ele apresentou como razão para o decreto, “que possa livrar como Este.” Dan. 3:27-29.
Com essas palavras e outras semelhantes o rei de Babilônia procurou espalhar entre todos os povos da Terra sua convicção de que o poder e autoridade do D’us dos hebreus eram dignos de suprema adoração. E D’us Se sentiu honrado com os esforços do rei para Lhe mostrar reverência e tornar a confissão real de obediência difundida por todo o domínio babilônico.

Era correto fazer o rei confissão pública, e procurar exaltar o D’us do Céu sobre todos os outros deuses; mas procurar forçar seus súditos a igual confissão de fé e mostrar semelhante reverência era exceder os seus direitos como soberano temporal. Não tinha ele maior direito, civil ou moral, de ameaçar os homens com a morte pela não adoração de D’us, do que tinha para fazer o decreto votando às chamas todos os que recusassem cultuar a imagem de ouro. D’us jamais compele o homem à obediência. A todos deixa livres para que escolham a quem desejam servir.
Pela libertação de Seus fiéis servos, ‘Adonai’ declarou que toma posição ao lado do oprimido, e repele todo poder terreno que se rebela contra a autoridade do Céu. Os três hebreus declararam a toda a nação babilônica sua fé nAquele a quem adoravam. Eles descansaram em D’us. Na hora de sua provação, lembraram-se da promessa: “Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.” Isa. 43:2. E de maneira maravilhosa sua fé no D’us vivo tinha sido honrada à vista de todos. A notícia de seu maravilhoso livramento fora levada a muitos países pelos representantes das diferentes nações que tinham sido convidadas por Nabucodonosor para a dedicação. Mediante a fidelidade de Seus filhos, D’us fora glorificado em toda a Terra.
Importantes são as lições a serem aprendidas da experiência dos jovens hebreus na planície de Dura. Nos dias atuais, muitos dos servos de D’us, embora inocentes de qualquer obra má, serão levados ao sofrimento, humilhação e abuso às mãos daqueles que, inspirados por Satanás, estão cheios de inveja e fanatismo religioso. A ira do homem será especialmente despertada contra os que santificam o sábado do quarto mandamento; e por fim um decreto universal denunciará a estes como dignos de morte.
Os tempos de provação que estão diante do povo de D’us reclamam uma fé que não vacile. Seus filhos devem tornar manifesto que Ele é o único objeto do seu culto, e que nenhuma consideração, nem mesmo o risco da própria vida, pode induzi-los a fazer a mínima concessão a um culto falso. Para o coração leal, as leis de homens pecaminosos e finitos se tornam insignificantes ao lado da Palavra do eterno D’us. A verdade será obedecida, embora o resultado seja prisão, exílio ou morte.
Como nos dias de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, no período final da história da Terra ‘Adonai’ operará poderosamente em favor dos que ficarem firmes pelo direito. Aquele que andou com os hebreus valorosos na fornalha ardente, estará com os Seus seguidores em qualquer lugar. Sua constante presença confortará e sustentará. Em meio do tempo de angústia – angústia como nunca houve desde que houve nação – Seus escolhidos ficarão inamovíveis. Satanás com todas as forças do mal não pode destruir o mais fraco dos santos de D’us. Anjos magníficos em poder os protegerão, e em favor deles Adonai Se revelará como “D’us dos deuses”, capaz de salvar perfeitamente os que nEle puseram a sua confiança.
Fonte: Ellen Gold White, Profetas e Reis págs. 503 a 513, CPB.

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