4 – A Verdadeira Grandeza


Exaltado ao pináculo da honra mundana, e reconhecido mesmo pela Inspiração como “rei dos reis” (Ezeq. 26:7), Nabucodonosor não obstante algumas vezes tinha atribuído ao favor de ‘Adonai’ a glória do seu reino e o esplendor do seu reinado. Este foi o caso quando do seu sonho da grande imagem. Seu espírito havia sido profundamente influenciado por esta visão, e pelo pensamento de que o império babilônico, embora universal, devia finalmente cair, e outros reinos haveriam de dominar, até que afinal todos os poderes da Terra fossem substituídos pelo reino a ser estabelecido pelo D’us do Céu, sendo que esse reino não seria jamais destruído.

A nobre concepção que Nabucodonosor tinha dos propósitos de D’us no tocante às nações fora perdido de vista posteriormente em sua experiência; e quando o seu orgulhoso espírito foi humilhado aos olhos da multidão no campo de Dura, ele uma vez mais reconheceu que o reino de D’us é “um reino eterno, e o Seu domínio de geração em geração”. Idólatra por nascimento e educação, e cabeça de um povo idólatra, tinha ele contudo um inato senso da justiça e do direito, e D’us podia usá-lo como instrumento na punição dos rebeldes e para o cumprimento do propósito divino. Como um dos “mais formidáveis dentre as nações” (Ezeq. 28:7), foi dado a Nabucodonosor, após anos de paciência e infatigável labor, conquistar Tiro; o Egito também caiu presa de seus exércitos vitoriosos; e ao acrescentar ele nação após nação ao domínio babilônico, mais e mais cresceu a sua fama como o maior governante do século.
Não surpreende que o bem-sucedido monarca, tão ambicioso e de espírito tão exaltado, fosse tentado a desviar-se do caminho da humildade, o único que leva à verdadeira grandeza. Nos intervalos de suas guerras de conquista, dedicou-se muito a embelezar e fortificar sua capital, até que afinal a cidade de Babilônia se tornou a principal glória do seu reino, “a cidade dourada”, “o louvor de toda a Terra”. Sua paixão como construtor, e seu assinalado sucesso em tornar Babilônia uma das maravilhas do mundo, trabalharam o seu orgulho, até que ele esteve no grave perigo de despojar o seu registro do fato de ser um sábio rei a quem D’us poderia usar como instrumento para executar o propósito divino.

Em misericórdia D’us deu ao rei outro sonho, para adverti-lo do perigo em que estava, e do engano a que tinha sido levado para sua ruína. Numa visão da noite, foi mostrado a Nabucodonosor uma grande árvore que crescia no meio da Terra, cujo topo alcançava o céu, e seus ramos se estendiam até as extremidades da Terra. Animais dos campos e montanhas se abrigavam sob sua sombra, e as aves do céu construíam ninhos em seus ramos. “A sua folhagem era formosa, e o seu fruto abundante, e havia nela sustento para todos… e toda a carne se mantinha dela.”
Estando o rei a contemplar a árvore altaneira, viu ele que “um vigia, um santo”, se aproximou da árvore, e em alta voz clamou:
“Derrubai a árvore, e cortai-lhe os ramos, sacudi as suas folhas, espalhai os seus frutos; afugentem-se os animais de debaixo dela, e as aves dos seus ramos. Mas o tronco com as suas raízes deixai na terra, e com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais na grama da terra. Seja mudado o seu coração, para que não seja mais coração de homem, e seja-lhe dado coração de animal; e passem sobre ele sete tempos. Esta sentença é por decreto dos vigiadores, e esta ordem por mandado dos santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e os dá a quem quer, e até aos mais baixos dos homens constitui sobre eles.” Dan. 4:12-17.

Grandemente perturbado pelo sonho, que era evidentemente uma predição de adversidade, o rei repetiu-o “aos magos, aos astrólogos, aos caldeus e adivinhadores” (Dan. 4:7), mas embora o sonho fosse muito explícito, nenhum dos sábios pôde interpretá-lo.
Uma vez mais nesta nação idólatra devia ser dado testemunho do fato de que unicamente aqueles que amam e temem a D’us podem compreender os mistérios do reino do Céu. O rei em sua perplexidade mandou em busca de seu servo Daniel, homem estimado por sua integridade e constância e por sua inigualada sabedoria.
Quando Daniel, em resposta à convocação real, apresentou-se ante o rei, Nabucodonosor disse: “Beltessazar, príncipe dos magos, eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum segredo te é difícil; dize-me as visões do meu sonho que tive, e a sua interpretação.” Após relatar o sonho, Nabucodonosor disse: “Tu, pois, Beltessazar, dize a interpretação; todos os sábios do meu reino não puderam fazer-me saber a interpretação, mas tu podes; pois há em ti o espírito dos deuses santos.”
Para Daniel o significado do sonho foi claro, e este significado o alarmou. Ele “esteve atônito quase uma hora, e os seus pensamentos o turbavam”. Percebendo a hesitação e angústia de Daniel, o rei manifestou simpatia por seu servo. “Beltessazar”, disse ele, “não te espante o sonho, nem a sua interpretação.” Dan. 4:9.
“Senhor meu”, respondeu Daniel, “o sonho seja contra os que te têm ódio, e a sua interpretação para os teus inimigos.” Dan. 4:19. O profeta compreendeu que sobre ele tinha D’us colocado o solene dever de revelar a Nabucodonosor o juízo que estava para lhe sobrevir em virtude de seu orgulho e arrogância. Daniel precisava interpretar o sonho em linguagem que o rei pudesse compreender; e embora o seu terrível conteúdo o tivesse feito hesitar em muda estupefação, ele tinha que dizer a verdade, fossem quais fossem as consequências para si.

Então Daniel deu a conhecer o mandado do Todo-poderoso. “A árvore que viste”, disse ele, “que cresceu, e se fez forte, cuja altura chegava até ao céu, e que foi vista por toda a Terra, cujas folhas eram formosas e o seu fruto abundante, e em que para todos havia mantimento; debaixo da qual moravam os animais do campo, e em cujos ramos habitavam as aves do céu; és tu, ó rei, que cresceste, e te fizeste forte; a tua grandeza cresceu, e chegou até o céu, e o teu domínio até a extremidade da Terra.
“E quanto ao que viu o rei, um vigia, um santo, que descia do céu, e que dizia: Cortai a árvore, e destruí-a mas o tronco com as suas raízes deixai na terra, e com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais do campo, até que passem sobre ele sete tempos; esta é a interpretação, ó rei; e este é o decreto do Altíssimo, que virá sobre o rei, meu senhor. Serás tirado de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e te farão comer erva como os bois, e serás molhado do orvalho do céu, e passar-se-ão sete tempos por cima de ti; até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer. E quanto ao que foi dito, que deixassem o tronco com a raiz da árvore, o teu reino voltará a ti, depois que tiveres conhecido que o Céu reina.” Dan. 4:20-26.
Havendo interpretado fielmente o sonho, Daniel apelou ao orgulhoso monarca para que se arrependesse e voltasse para D’us, para que pelo reto proceder ele pudesse desviar a calamitosa ameaça. “Ó rei”, suplicou o profeta, “aceita o meu conselho, e desfaze os teus pecados pela justiça, e as tuas iniquidades usando de misericórdia com os pobres, se se prolongar a tua tranquilidade.”

Por algum tempo a impressão da advertência e o conselho do profeta exerceu forte influência sobre Nabucodonosor; mas o coração não transformado pela graça de D’us logo perde as impressões do Ruach há Kodesh (Espírito Santo). A condescendência própria e ambição não haviam ainda sido erradicadas do coração do rei, e esses traços mais tarde reapareceram. Não obstante a instrução tão graciosamente dada, e as advertências da passada experiência, Nabucodonosor permitiu-se ser controlado pelo espírito de ciúmes em relação aos reinos que se deviam seguir. Seu governo, que até então havia sido em grande medida justo e misericordioso, tornou-se opressor. Endurecendo o seu coração, ele usou os talentos que D’us lhe dera para a glorificação de si mesmo, exaltando-se acima do D’us que lhe dera vida e poder.
Por meses, o juízo de D’us foi retardado. Mas em vez de ser levado ao arrependimento por esta tolerância, o rei acariciou o seu orgulho até que perdeu a confiança na interpretação do sonho, e riu de seus antigos temores.
Um ano depois que havia recebido a advertência, andando Nabucodonosor a passear em seu palácio, e pensando com orgulho sobre o seu poder como governante e sobre o seu sucesso como edificador, exclamou: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha magnificência?” Dan. 4:27 e 30.
Enquanto a jactanciosa declaração estava ainda nos lábios do rei, uma voz do céu anunciou que o tempo indicado por D’us para o juízo havia chegado. Em seus ouvidos caiu o mandado de ‘Adonai’: “A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Passou de ti o reino. E serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; far-te-ão comer erva como os bois, e passar-se-ão sete tempos sobre ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre os reinos dos homens, e os dá a quem quer.”

Num momento a razão que D’us lhe havia dado foi tirada; o discernimento que o rei julgada perfeito, a sabedoria de que ele se orgulhava, foram removidos, e o até então poderoso governante tornou-se de momento um maníaco. Sua mão não pôde mais suster o cetro. As mensagens de advertência haviam sido desatendidas; agora, destituído do poder que o seu Criador lhe havia dado, e expulso dentre os homens, Nabucodonosor “comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pêlo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves”. Dan. 4:31-33.
Durante sete anos Nabucodonosor foi um espanto para todos os seus súditos; por sete anos foi humilhado perante todo o mundo. Então sua razão foi restaurada, e levantando os olhos em humildade ao D’us do Céu, ele reconheceu a mão divina no seu castigo. Numa proclamação pública ele admitiu a sua culpa, e a grande misericórdia de D’us em sua restauração. “Ao fim daqueles dias”, ele disse, “eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e tornou a vir o meu entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da Terra são reputados em nada; e segundo a Sua vontade Ele opera com o exército do Céu e os moradores da Terra; não há quem possa estorvar a Sua mão, e Lhe diga: Que fazes?
“No mesmo tempo me tornou a vir o meu entendimento, e para a dignidade do meu reino tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; e me buscaram os meus capitães e os meus grandes; e fui restabelecido no meu reino, e a minha glória foi aumentada.”
O outrora orgulhoso rei tinha-se tornado um humilde filho de D’us; o governante tirânico e opressor tornara-se um rei sábio e compassivo. Aquele que tinha desafiado o D’us do Céu e dEle blasfemado, reconhecia agora o poder do Altíssimo, e fervorosamente procurou promover o temor de ‘Adonai’ e a felicidade dos seus súditos. Sob a repreensão dAquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, Nabucodonosor tinha afinal aprendido a lição que todos os reis precisam aprender – de que a verdadeira grandeza consiste na verdadeira bondade. Ele reconheceu a ‘Adonai’ como o D’us vivo, dizendo: “Eu, Nabucodonosor, louvo, e exalço, e glorifico ao Rei do Céu; porque todas as Suas obras são verdade, e os Seus caminhos juízo, e pode humilhar aos que andam na soberba.” Dan. 4:33-37.

O propósito de D’us de que o maior reino do mundo mostrasse o Seu louvor, estava agora cumprido. Esta proclamação pública, em que Nabucodonosor reconhecia a misericórdia, bondade e autoridade de D’us, foi o último ato de sua vida registado na história sacra.

Fonte: Ellen Gold White, Profetas e Reis, págs. 514 a 522, CPB.

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