1 – Na Corte de Babilônia


Entre os filhos de Israel que foram levados cativos para Babilônia no início dos setenta anos do cativeiro havia patriotas, homens que eram tão fiéis ao princípio como o aço, e que se não deixariam corromper pelo egoísmo, mas honrariam a D’us com prejuízo de tudo para si. Na terra de seu cativeiro esses homens deviam levar avante o propósito de D’us de dar às nações pagãs as bênçãos que vêm pelo conhecimento de Adonai. Deviam eles ser Seus representantes. Jamais deviam comprometer-se com idólatras; sua fé e seu nome como adoradores do D’us vivo deveriam ser levados como alta honra. E isto eles fizeram. Na prosperidade e na adversidade honraram a D’us; e D’us os honrou a eles.

O fato de esses homens, adoradores de Adonai, estarem cativos em Babilônia, e de os vasos da casa de D’us terem sido postos no templo dos deuses de Babilônia, era orgulhosamente citado pelos vencedores como evidência que sua religião e costumes eram superiores à religião e costumes dos hebreus. Embora por intermédio da própria humilhação que Israel chamara sobre si por haver-se afastado de D’us, Ele dera aos babilônios a prova de Sua supremacia, da santidade dos Seus reclamos e dos resultados certos da obediência. E este testemunho Ele deu, como unicamente poderia ser dado, por meio daqueles que Lhe foram leais.
Entre os que se mantiveram obedientes a D’us estavam Daniel e seus três companheiros – nobres exemplos do que os homens podem tornar-se quando unidos com o D’us de sabedoria e poder. Da comparativa simplicidade de seu lar judaico, esses jovens de linhagem real foram levados à mais magnificente das cidades, e introduzidos na corte do maior monarca do mundo. Nabucodonosor “disse a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, e da linhagem real e dos nobres, mancebos em quem não houvesse defeito algum, formosos de parecer, e instruídos em toda a sabedoria, sábios em ciência, e entendidos no conhecimento, e que tivessem habilidade para viverem no palácio. …
“E entre eles se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias.” Dan. 1:3-6. Vendo nesses jovens a promessa de habilidade digna de nota, Nabucodonosor determinou que fossem educados para ocupar importantes posições em seu reino. Para que pudessem ser plenamente capacitados para sua carreira, ele fez arranjos para que aprendessem a língua dos caldeus, e que por três anos lhes fossem asseguradas as vantagens incomuns da educação fornecida aos príncipes do reino.

Os nomes de Daniel e seus companheiros foram mudados para nomes que representavam divindades caldéias. Grande significação era atribuída aos nomes dados pelos pais hebreus a seus filhos. Frequentemente representavam traços de caráter que os pais desejavam ver desenvolvidos no filho. O príncipe a cujo cargo foram os jovens cativos colocados “lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel pôs o de Beltessazar, e a Hananias o de Sadraque, e a Misael o de Mesaque, e Azarias o de Abede-Nego”. Dan. 1:7.
O rei não compeliu os jovens hebreus a renunciarem sua fé em favor da idolatria, mas esperava alcançar isto gradualmente. Dando-lhes nomes significativos de idolatria, levando-os diariamente a íntima associação com costumes idólatras e sob a influência de sedutores ritos do culto pagão, ele esperava induzi-los a renunciar à religião de sua nação e unir-se ao culto dos babilônios.
Logo no princípio de sua carreira veio-lhes uma decisiva prova de caráter. Fora determinado que eles comessem o alimento e bebessem o vinho que se servia na mesa do rei. Nisto o rei pensava dar-lhes uma expressão do seu favor e sua solicitude pelo bem-estar deles. Mas como uma porção do alimento era oferecida aos ídolos, o alimento da mesa do rei era consagrado à idolatria; e quem deles participasse seria considerado como estando a oferecer homenagens aos deuses de Babilônia. A tal homenagem a lealdade de Daniel e seus companheiros a Adonai lhes proibiu de participar. A simples simulação de haver comido o alimento ou bebido o vinho seria uma negação de sua fé. Proceder assim era enfileirar-se ao lado do paganismo e desonrar os princípios da lei de D’us.

Não ousaram eles a se arriscarem ao enervante efeito do luxo e dissipação sobre o desenvolvimento físico, mental e espiritual. Eles estavam familiarizados com a história de Nadabe e Abiú, de cuja intemperança e seus resultados foi conservado o registro nos pergaminhos da Torá; e sabiam que suas próprias faculdades físicas e mentais seriam danosamente afetadas pelo uso do vinho.
Daniel e seus companheiros tinham sido educados por seus pais nos hábitos da estrita temperança. Tinham sido ensinados que Deus lhes pediria contas de suas faculdades, e que jamais deveriam diminuí-las ou enfraquecê-las. Esta educação fora para Daniel e seus companheiros o meio de sua preservação entre as desmoralizantes influências da corte de Babilônia. Fortes eram as tentações que os rodeavam nessa corte corrupta e luxuosa, mas eles permaneceram incontaminados. Nenhuma força, nenhuma influência poderia afastá-los dos princípios que tinham aprendido no limiar da vida mediante estudo da Palavra e obras de D’us.
Tivesse Daniel desejado e teria encontrado em torno de si escusas plausíveis para afastar-se dos estritos hábitos de temperança. Ele poderia ter argumentado que, dependendo como estava do favor do rei e sujeito ao seu poder, não havia outro caminho a seguir senão comer do alimento do rei e beber do seu vinho; pois se se apegasse ao ensinamento divino, ofenderia o rei, e provavelmente perderia sua posição e a vida. Se transgredisse o mandamento de Adonai, ele reteria o favor do rei, e asseguraria para si vantagens intelectuais e lisonjeiras perspectivas mundanas.
Mas Daniel não hesitou. A aprovação de D’us era-lhe mais cara que o favor do mais poderoso potentado da Terra – mais cara mesmo que a própria vida. Ele se determinou permanecer firme em sua integridade, fossem quais fossem os resultados. Ele “assentou no seu coração não se contaminar com a porção do manjar do rei, nem com o vinho que ele bebia”. Dan. 1:8. E nesta resolução foi apoiado por seus três companheiros.
Tomando esta decisão, os jovens hebreus não agiram presunçosamente, mas em firme confiança em Deus. Não escolheram ser singulares, mas sê-lo-iam de preferência a desonrar a D’us. Tivessem eles se comprometido com o erro neste caso rendendo-se à pressão das circunstâncias, e este abandono do princípio ter-lhes-ia enfraquecido o senso do direito e sua capacidade de aborrecer o erro. O primeiro passo errado tê-los-ia levado a outros, de maneira que, cortada sua ligação com o Céu, eles seriam varridos pela tentação.
“Deu D’us a Daniel graça e misericórdia diante do chefe dos eunucos”, e o pedido para que se não contaminassem foi recebido com respeito. Não obstante o princípio hesitou em concedê-lo. “Tenho medo do meu senhor o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida”, explicou ele a Daniel; “por que veria ele os vossos rostos mais tristes do que dos mancebos que são vossos iguais? assim arriscareis a minha cabeça para com o rei.” Dan. 1:10.
Daniel apelou então a Aspenaz, o oficial a cujo cargo especial estavam os jovens hebreus, suplicando-lhe fossem eles escusados de comer o alimento do rei e de beber o seu vinho. Pediu-lhe que fosse feita uma prova de dez dias, durante os quais os jovens hebreus seriam supridos com alimentos simples, enquanto seus companheiros comeriam as delícias do rei.

Aspenaz, embora temeroso de que condescendendo com este pedido pudesse incorrer no desagrado do rei, consentiu não obstante; e Daniel sabia que sua causa estava ganha. Ao fim dos dez dias de prova, o resultado se mostrou o oposto do que o príncipe temia. “Apareceram os seus semblantes melhores; eles estavam mais gordos do que todos os mancebos que comiam porção do manjar do rei.” Na aparência pessoal os jovens hebreus mostraram marcada superioridade sobre seus companheiros. Como resultado, Daniel e seus companheiros tiveram permissão de continuar com a sua dieta simples em todo o período de sua educação.
Durante três anos, os moços hebreus estudaram para adquirir conhecimento “nas letras e na língua dos caldeus”. Dan. 1:15 e 17. Durante este tempo, eles conservaram firme sua submissão a D’us, e constantemente se mostraram dependentes do Seu poder. Aos seus hábitos de abnegação eles uniram o fervor de propósito, a diligência e firmeza. Não foi o orgulho ou ambição que os levou à corte do rei – à companhia dos que não conheciam nem temiam a D’us; eram cativos em terra estranha, aí levados pela Infinita Sabedoria. Separados das influências do lar e de sagradas associações, eles procuraram desempenhar-se de maneira recomendável, para honra de seu povo oprimido, e para glória dAquele de quem eram servos.
Adonai considerou com aprovação a firmeza e abnegação dos jovens hebreus, e sua pureza de motivos; e Sua bênção os assistiu. Ele lhes “deu o conhecimento e inteligência em todas as letras e sabedoria; mas a Daniel deu entendimento em toda a visão e sonhos”. Dan. 1:17. Cumpriu-se a promessa: “Aos que Me honram honrarei.” I Sam. 2:30. Apegando-se Daniel a D’us com inamovível fé, o espírito de poder profético veio sobre ele. Enquanto recebia instruções do homem nos deveres diários da corte, estava sendo ensinado por D’us a ler os mistérios do futuro, e a registrar para as gerações vindouras, mediante figuras e símbolos, eventos que cobrem a história deste mundo até o fim do tempo.

Quando chegou o tempo em que os jovens educandos deviam ser examinados, os hebreus o foram juntamente com outros candidatos, para o serviço do reino. Mas “entre todos eles não foram achados outros tais como Daniel, Hananias, Misael e Azarias”. Sua aguda compreensão, seu conhecimento amplo, sua linguagem escolhida e adequada, davam testemunho da inalterada força e vigor de suas faculdades mentais. “Em toda a matéria de sabedoria e de inteligência, sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos ou astrólogos que havia em todo o seu reino; por isso permaneceram diante do rei”. Dan. 1:19.
Na corte de Babilônia estavam reunidos representantes de todas as terras, homens do mais alto talento e mais ricamente dotados com dons naturais, e possuidores da cultura mais vasta que o mundo poderia oferecer; não obstante entre todos eles os jovens hebreus não tiveram competidor. Em força e beleza física, em vigor mental e dotes literários, não tinham rival. A forma ereta, o passo firme e elástico, a fisionomia agradável, os sentidos lúcidos, o hábito puro – eram todos certificados mais que suficientes de bons hábitos, insígnia da nobreza com que a Natureza honra aos que são obedientes a suas leis.

Na aquisição da sabedoria dos babilônios, Daniel e seus companheiros foram muito melhor sucedidos que seus colegas; mas sua ilustração não veio por acaso. Eles obtiveram o conhecimento mediante o fiel uso de suas faculdades, sob a guia do Ruach Há Kodesh (Espírito Santo). Colocaram-se em conexão com a Fonte de toda sabedoria, tornando o conhecimento de D’us o fundamento de sua educação. Oraram com fé por sabedoria, e viveram as suas orações. Puseram-se onde D’us poderia abençoá-los. Evitaram o que lhes poderia enfraquecer as faculdades, e aproveitaram toda oportunidade de se tornarem versados em todo ramo do saber. Seguiram as regras da vida que não poderiam falhar em dar-lhes força de intelecto. Procuraram adquirir conhecimento para um determinado propósito – para que pudessem honrar a D’us. Compreenderam que para poderem permanecer como representantes da verdadeira religião em meio das religiões falsas do paganismo, deviam possuir clareza de intelecto e aperfeiçoar o caráter. E o próprio D’us era o seu professor. Orando constantemente, estudando conscienciosamente e mantendo-se em contato com o Invisível, andavam com D’us como andou Enoque.
O verdadeiro sucesso em cada setor de trabalho não é o resultado do acaso, ou acidente ou destino. É a operação da providência de D’us, a recompensa da fé e a discrição, da virtude e perseverança. Finas qualidades mentais e alto tono moral não são o resultado de acidente. D’us dá oportunidades; o sucesso depende do uso que delas se fizer.
Enquanto D’us estava operando em Daniel e seus companheiros “tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade”, eles estavam operando a sua própria salvação. Nisto está revelado a operação do divino princípio de cooperação, sem o que nenhum verdadeiro sucesso pode ser alcançado. O esforço humano nada realiza sem o divino poder; e sem o concurso humano o esforço divino é em relação a muitos de nenhum proveito. Para tornar a graça de D’us nossa própria, precisamos desempenhar a nossa parte. Sua graça é dada para operar em nós o querer e o efetuar, mas nunca como substituto de nosso esforço.

Assim como o Eterno cooperou com Daniel e seus companheiros, Ele cooperará com todos os que se atêm a Sua vontade. E pela concessão do Seu Espírito Ele fortalecerá cada propósito veraz, cada nobre resolução. Os que andam nos caminhos da obediência encontrarão muitos embaraços. Influências fortes e sutis podem ligá-los ao mundo; mas Adonai é capaz de tornar sem efeito cada instrumentalidade que opere para derrotar os Seus escolhidos; em Sua força eles podem vencer cada tentação, triunfar sobre cada dificuldade.
D’us pôs Daniel e seus companheiros em relação com os grandes homens de Babilônia, para que em meio de uma nação de idólatras pudessem representar o Seu caráter. Como se tornaram eles capacitados para uma posição de tão grande confiança e honra? Foi a fidelidade nas pequenas coisas que lhes deu capacidade para a vida toda. Eles honraram a D’us nos mínimos deveres, bem como nas maiores responsabilidades.
Assim como D’us chamou Daniel para testemunhar por Ele em Babilônia, Ele nos chama para sermos testemunhas Suas no mundo hoje. Tanto nos menores como nos maiores negócios da vida, Ele deseja que revelemos aos homens os princípios do Seu reino. Muitos estão esperando que uma grande obra lhes seja levada, ao mesmo tempo que perdem diariamente oportunidades para revelar fidelidade a D’us.
Diariamente deixam de se desincumbir com inteireza de coração dos pequenos deveres da vida. Enquanto esperam por alguma grande obra em que possam exercitar talentos supostamente grandes, satisfazendo assim a ambiciosos anseios, seus dias passam.

Na vida do talmidim nada há que não seja essencial; à vista da Onipotência todo dever é importante. Adonai mede com exatidão cada possibilidade para serviço. As faculdades não usadas são postas na conta da mesma forma que as utilizadas. Seremos julgados por aquilo que devíamos ter feito e não fizemos porque não usamos nossas faculdades para glória de D’us.
Um caráter nobre não é resultado de acidente; não é devido a favores especiais ou dotações da Providência. É o resultado da autodisciplina, da sujeição da natureza mais baixa à mais alta, da entrega do eu ao serviço de D’us e do homem.
Através da fidelidade aos princípios de temperança mostrados pelos jovens hebreus, D’us está falando à juventude de hoje. Há necessidade de homens que, como Daniel, procedam com ousadia pela causa do direito. Coração puro, mãos fortes, coragem firme, são necessários; pois a luta entre o vício e a virtude reclama incessante vigilância. A cada alma Satã vem com tentação de formas variadas e sedutoras no ponto da condescendência para com o apetite.
É o corpo um meio muito importante pelo qual a mente e a alma se desenvolvem para a edificação do caráter. Essa é a razão por que o adversário das almas dirige suas tentações no sentido do enfraquecimento e degradação das faculdades físicas. Seu sucesso neste ponto significa muitas vezes a entrega de todo ser ao mal. As tendências da natureza física, a menos que postas sob o domínio de um poder mais alto, seguramente obrarão ruína e morte. O corpo deve ser posto em sujeição às faculdades mais altas do ser. As paixões devem ser controladas pela vontade que, por sua vez, deve ela mesma estar sob o controle de Deus. O régio poder da razão, santificada pela graça divina, deve controlar a vida. Poder intelectual, vigor físico e longevidade dependem de leis imutáveis. Mediante a obediência a essas leis, pode o homem ser um conquistador de si mesmo, conquistador de suas próprias inclinações…

Os valorosos hebreus eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós; mas não obstante as sedutoras influências da corte de Babilônia, eles permaneceram firmes, porque confiaram num poder infinito. Neles contemplou uma nação pagã a ilustração da bondade e beneficência de Adonai… E na sua experiência temos um exemplo do triunfo do princípio sobre a tentação, da pureza sobre a depravação, da devoção e lealdade sobre o ateísmo e a idolatria.
Os jovens de hoje podem ter o espírito de que estava possuído Daniel; eles podem beber na mesma fonte de força, possuir o mesmo poder de domínio próprio, e revelar a mesma graça em sua vida, mesmo sob circunstâncias igualmente desfavoráveis. Embora assediados por tentações a serem condescendentes consigo mesmo, especialmente em nossas grandes cidades, onde toda forma de satisfação sensual se mostra fácil e convidativa, os seus propósitos de honrar a D’us permanecem não obstante firmes pela graça divina. Mediante forte resolução e atenta vigilância podem resistir a cada tentação que assalta a alma. Mas a vitória será ganha unicamente por aquele que se determina fazer o que é direito só porque é direito.
Que carreira foi a desses nobres hebreus Ao dizerem adeus ao lar de sua meninice pouco sonhavam eles com o alto destino que lhes estava reservado. Fiéis e firmes, renderam-se à divina guia, de maneira que por meio deles D’us pôde cumprir Seu propósito.
As mesmas poderosas verdades que foram reveladas através desses homens, D’us deseja revelar por meio de Seus jovens e de Seus filhos hoje. A vida de Daniel e seus companheiros é uma demonstração do que Adonai fará pelos que a Ele se rendem, e buscam de todo o coração realizar o Seu propósito.

Fonte: Ellen Gold White, Profetas e Reis, págs. 479 a 490, CPB.

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