6 – Na Cova dos Leões


Quando Dario, o Medo, subiu ao trono anteriormente ocupado pelos reis babilônicos, tomou para logo medidas no sentido de reorganizar o governo. Ele constituiu “sobre o reino a cento e vinte presidentes… e sobre eles três príncipes, dos quais Daniel era um, aos quais estes presidentes dessem conta, para que o rei não sofresse dano. Então o mesmo Daniel se distinguiu destes príncipes e presidentes, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava constituí-lo sobre todo o reino”.

As honras concedidas a Daniel despertaram o ciúme dos líderes do reino, e eles procuravam ocasião de queixa contra ele. Mas não podiam achar, “porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum vício nem culpa”.
A irrepreensível conduta de Daniel provocou ainda mais a inveja dos seus inimigos. “Nunca acharemos ocasião alguma contra este Daniel”, eles foram constrangidos a reconhecer, “se não a procurarmos contra ele na lei do seu D’us.” Dan. 6:1-5.
Então presidentes e príncipes, em mútuo conselho, traçaram um plano pelo qual esperavam conseguir a destruição do profeta. Eles se determinaram pedir ao rei a assinatura de um decreto que iriam preparar, proibindo que qualquer pessoa no reino fizesse alguma petição a qualquer deus ou a qualquer homem, que não a Dario, o rei, pelo espaço de trinta dias. A violação deste decreto seria punida lançando-o o transgressor na cova dos leões.
De comum acordo os príncipes prepararam o referido decreto, e apresentaram-no a Dario para que este o assinasse. Apelando a sua vaidade, eles o persuadiram de que a execução deste decreto lhe acrescentaria grande honra e autoridade. Ignorando o sutil propósito dos príncipes, o rei não percebeu a animosidade deles no edito, e cedendo a sua lisonja assinou-o.
Os inimigos de Daniel deixaram a presença de Dario, exaltando-se a respeito do laço que seguramente haviam armado para o servo de Jeová. Na conspiração assim formada tinha Satanás desempenhado importante parte. O profeta havia sido exaltado em mando no reino, e os anjos maus temiam que sua influência pudesse enfraquecer-lhes o controle sobre seus governantes. Foram essas instrumentalidades satânicas que impeliram os príncipes a sentir inveja e ciúmes; foram eles que inspiraram o plano da destruição de Daniel; e os príncipes, rendendo-se aos instrumentos do mal, levaram-nos à execução.
Os inimigos do profeta contavam com o firme apego de Daniel ao princípio para o sucesso de seu plano. E eles não estavam errados na estimativa do seu caráter. Ele percebeu logo o maligno propósito que tiveram na elaboração do decreto, mas não mudou a sua conduta num mínimo que fosse. Por que deveria ele deixar de orar agora, quando mais necessário era orar? Antes renunciaria à própria vida a renunciar a sua esperança de auxílio em Deus. Tranquilamente ele desempenhou seus deveres como chefe dos príncipes; e na hora da oração dirigiu-se para o seu aposento, e com as janelas abertas para o lado de Jerusalém, de acordo com o costume, fez as suas petições ao Deus do Céu. Ele não procurou ocultar o seu ato. Embora soubesse muito bem quais as consequências de sua fidelidade a Deus, seu espírito não vacilou. Ante os que estavam tramando a sua ruína, ele não permitira sequer a aparência de que sua ligação com o Céu estava interrompida. Em todos os casos onde o rei tivesse o direito de ordenar, Daniel obedeceria; mas nem o rei nem o seu decreto poderiam fazê-lo desviar-se de sua obediência ao Rei dos reis.
Assim ousada, embora quieta e humildemente, o profeta declarou que nenhum poder terreno tem o direito de interpor-se entre a alma e D’us. Cercado por idólatras, ele era uma fiel testemunha desta verdade. Seu inquebrantável apego ao direito era uma brilhante luz nas trevas morais dessa corte pagã. Daniel está perante o mundo hoje como um digno exemplo do destemor e fidelidade

Durante todo um dia os príncipes observaram Daniel. Três vezes viram-no dirigir-se ao seu aposento, e três vezes ouviram sua voz erguer-se em fervente intercessão a D’us. Na manhã seguinte fizeram sua denúncia perante o rei. Daniel, seu mais honrado e fiel estadista, tinha votado ao desprezo o decreto real. “Porventura não assinaste o edito”, lembraram-lhe, “pelo qual todo o homem que fizesse uma petição a qualquer deus, ou qualquer homem, por espaço de trinta dias, e não a ti, ó rei, seria lançado na cova dos leões?”
“Esta palavra é certa”, respondeu o rei, “conforme a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar”.
Exultantemente informaram eles agora a Dario da conduta do seu mais acatado conselheiro. “Daniel, que é dos transportados de Judá”, exclamaram, “não tem feito caso de ti, ó rei, nem do edito que assinaste, antes três vezes ao dia faz a sua oração.” Dan. 6:12 e 13.
Quando o rei ouviu essas palavras, viu de imediato o laço que havia sido armado para o seu fiel servo. Compreendeu que não fora o zelo pela honra e glória real, mas a inveja de Daniel, o que os levara a propor o decreto real. “Penalizado” pela parte que havia desempenhado no mal que se praticara, o rei “até o pôr-do-sol trabalhou” para salvar seu amigo. Os príncipes, prevendo este esforço da parte do rei, vieram a ele com as palavras: “Sabe, ó rei, que é uma lei dos medos e dos persas que nenhum edito ou ordenança, que o rei determine, se pode mudar.” O decreto, embora feito de afogadilho, era inalterável, e devia produzir os seus efeitos.
“Então o rei ordenou que trouxessem a Daniel, e o lançassem na cova dos leões. E, falando o rei, disse a Daniel: “O teu D’us, a quem tu continuamente serves, Ele te livrará.” Uma pedra foi posta na boca da cova, e o próprio rei “a selou com o seu anel e com o anel dos seus grandes, para que se não mudasse a sentença acerca de Daniel. Então o rei dirigiu-se para o seu palácio, e passou a noite em jejum, e não deixou trazer a sua presença instrumentos de música, e fugiu dele o sono”. Dan. 6:14-18.

D’us não impediu os inimigos de Daniel de lançarem-no na cova dos leões; Ele permitiu que anjos maus e homens ímpios chegassem a realizar o seu propósito; mas isto foi para que pudesse tornar o livramento do Seu servo mais marcante e mais completa a derrota dos inimigos da verdade e da justiça. “A cólera do homem redundará em Teu louvor” (Sal. 76:10), o salmista testificou. Graças à coragem deste único homem que escolheu seguir o direito antes que a astúcia, Satanás devia ser derrotado e o nome de D’us exaltado e honrado.
Logo na manhã seguinte, o rei Dario dirigiu-se depressa para a cova, e “chamou por Daniel com voz triste”: “Daniel, servo do D’us vivo dar-se-ia o caso que o teu D’us a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?”
A voz do profeta respondeu: “Ó rei, vive para sempre O meu D’us enviou o Seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dEle; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum.”
“Então o rei muito se alegrou em si mesmo, e mandou tirar a Daniel da cova, e nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus.

“E ordenou o rei, e foram trazidos aqueles homens que tinham acusado Daniel e foram lançados na cova dos leões, eles, seus filhos e suas mulheres; e ainda não tinham chegado ao fundo da cova quando os leões se apoderaram deles, e lhes esmigalharam todos os ossos.” Dan. 6:20-24.
Uma vez mais foi baixada uma proclamação da parte de um governador gentio, exaltando o D’us de Daniel como verdadeiro D’us. “O rei Dario escreveu a todos os povos, nações e gentes de diferentes línguas, que moram em toda a Terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o D’us de Daniel; porque Ele é o D’us vivo e para sempre permanente, e o Seu reino não se pode destruir; o Seu domínio é até o fim. Ele livra e salva, e opera sinais e maravilhas no céu e na Terra; Ele livrou Daniel do poder dos leões.”
A ímpia oposição ao servo de Deus estava agora completamente quebrada. “Este Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa.” E mediante a associação com ele, esses monarcas pagãos foram constrangidos a reconhecer o seu D’us como “o D’us vivo e para sempre permanente, e o Seu reino não se pode destruir”. Dan. 6:25-28.
Da história do livramento de Daniel podemos aprender que em tempos de provação e tristeza, os filhos de D’us devem ser precisamente o que eram quando suas perspectivas brilhavam de esperança e estavam cercados de tudo o que poderiam desejar. Daniel na cova dos leões foi o mesmo Daniel que esteve perante o rei como o principal entre os ministros de Estado e como profeta do Altíssimo. Um homem cujo coração se firme em Deus será na hora de sua maior prova o mesmo que era em sua prosperidade, quando a luz e o favor de D’us e do homem incidiam sobre ele. A fé alcança o invisível, e se apega a realidades eternas.
O Céu está mais próximo daqueles que sofrem por amor da justiça. Adonai identifica os Seus interesses com os interesses do Seu fiel povo; Ele sofre na pessoa dos Seus santos; e seja o que for que toque em Seus escolhidos toda nEle. O poder que está perto para libertar do dano físico e da angústia está perto também para salvar do mal maior, tornando possível ao servo de D’us manter sua integridade sob todas as circunstâncias, e triunfar através da graça divina.
A experiência de Daniel como estadista no reino de Babilônia e da Medo-Pérsia revela a verdade de que um homem de negócios não tem que ser necessariamente um homem ardiloso e astuto, mas pode ser um homem instruído por Deus em cada passo. Daniel, primeiro-ministro dos maiores reinos da Terra, foi ao mesmo tempo profeta de D’us, recebendo luz de celestial inspiração. Um homem sujeito às mesmas paixões que nós, é descrito pela pena da Inspiração como isento de falta. Suas transações de negócios, quando submetidas às mais apurada fiscalização dos seus inimigos, foram consideradas sem falha. Ele foi um exemplo do que cada homem de negócios pode tornar-se quando o seu coração é convertido e consagrado, e quando os seus motivos são retos à vista de D’us.
Estrita conformação com os reclamos do Céu traz bênçãos tanto temporais como espirituais. Inamovível em sua fidelidade a D’us, indomável no domínio de si mesmo, Daniel, por sua nobre dignidade e indeclinável integridade, conquanto fosse jovem, alcançou “graça e misericórdia” (Dan. 1:9) diante do oficial pagão a cujo cargo tinha sido posto. As mesmas características marcaram sua vida posterior. Ele ascendeu rapidamente à posição de primeiro-ministro do reino de Babilônia. Através do reinado de sucessivos dirigentes, da queda da nação e o estabelecimento de outro império mundial, foram de tal natureza sua sabedoria e capacidade de estadista, tão perfeitos seu tato, cortesia, genuína bondade de coração e sua fidelidade ao princípio, que mesmo seus inimigos foram forçados a confessar que não podiam achar “ocasião ou culpa alguma; porque ele era fiel”.
A experiência de Daniel como estadista no reino de Babilônia e da Medo-Pérsia revela a verdade de que um homem de negócios não tem que ser necessariamente um homem ardiloso e astuto, mas pode ser um homem instruído por D’us em cada passo. Daniel, primeiro-ministro dos maiores reinos da Terra, foi ao mesmo tempo profeta de D’us, recebendo luz de celestial inspiração. Um homem sujeito às mesmas paixões que nós, é descrito pela pena da Inspiração como isento de falta. Suas transações de negócios, quando submetidas às mais apurada fiscalização dos seus inimigos, foram consideradas sem falha. Ele foi um exemplo do que cada homem de negócios pode tornar-se quando o seu coração é convertido e consagrado, e quando os seus motivos são retos à vista de D’us.
Estrita conformação com os reclamos do Céu traz bênçãos tanto temporais como espirituais. Inamovível em sua fidelidade a D’us, indomável no domínio de si mesmo, Daniel, por sua nobre dignidade e indeclinável integridade, conquanto fosse jovem, alcançou “graça e misericórdia” (Dan. 1:9) diante do oficial pagão a cujo cargo tinha sido posto. As mesmas características marcaram sua vida posterior. Ele ascendeu rapidamente à posição de primeiro-ministro do reino de Babilônia. Através do reinado de sucessivos monarcas, da queda da nação e o estabelecimento de outro império mundial, foram de tal natureza sua sabedoria e capacidade de estadista, tão perfeitos seu tato, cortesia, genuína bondade de coração e sua fidelidade ao princípio, que mesmo seus inimigos foram forçados a confessar que não podiam achar “ocasião ou culpa alguma; porque ele era fiel”. Dan. 6:4.
Honrado pelos homens com as responsabilidades de Estado e os segredos de reinos que tinham alcance universal, Daniel foi honrado por D’us como Seu embaixador, sendo-lhe dadas muitas revelações dos mistérios dos séculos por vir. Suas maravilhosas profecias, tais como registradas por ele nos capítulos sete a doze do livro que traz o seu nome, não foram inteiramente compreendidas mesmo pelo próprio profeta; mas antes que findassem os labores de sua vida, foi-lhe dada a abençoada certeza de que “no fim dos dias”, isto é, na conclusão do período da história deste mundo, ser-lhe-ia permitido outra vez estar na sua posição e lugar. Não lhe fora dado compreender tudo o que Deus tinha revelado do divino propósito. “Fecha estas palavras e sela este livro”, foi-lhe ordenado quanto aos escritos proféticos; estes deviam ser selados “até ao fim do tempo.” “Vai, Daniel”, o anjo ordenou uma vez mais ao fiel mensageiro de Jeová, “porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo do fim. … Tu, porém, vai até ao fim; porque repousarás, e estarás na tua sorte, no fim dos dias.” Dan. 12:4, 9 e 13.

Ao nos aproximarmos do fim da história deste mundo, “acharit há-iamim” as profecias registradas por Daniel demandam nossa especial atenção, visto relacionarem-se com o próprio tempo em que estamos vivendo… a promessa é clara de que bênção especial acompanhará o estudo dessas profecias. “Os sábios entenderão” (Dan. 12:10), foi dito com respeito às visões de Daniel que deviam ser abertas nos últimos dias…
Do surgimento e queda das nações conforme expostos nos livros de Daniel … precisamos aprender quão sem valor é a glória meramente terrena e externa. Babilônia, com todo o seu poder e magnificência, como nosso mundo jamais contemplou igual – poder e magnificência que ao povo daquele tempo pareciam estáveis e permanentes – quão completamente passou “Como a flor da erva”, pereceu. Assim pereceu o reino da Medo-Pérsia, e os reinos da Grécia e de Roma. E assim perece tudo o que não tem a Deus por fundamento. Apenas o que está vinculado ao Seu propósito, e expressa Seu caráter, pode perdurar. Seus princípios são a única coisa firme que o nosso mundo conhece.
Um cuidadoso estudo da operação do propósito de D’us na história das nações e na revelação das coisas por acontecer, nos ajudará a estimar no seu verdadeiro valor as coisas visíveis e as invisíveis, e a aprender o que é o verdadeiro alvo da vida. Assim, considerando os acontecimentos do tempo à luz da eternidade, podemos, como Daniel e seus companheiros, viver pelo que é verdadeiro, nobre e perdurável. E aprendendo nesta vida os princípios do reino de Hashem, esse abençoado reino que deve durar para todo o sempre, podemos estar preparados em Sua vinda para com Ele entrar em sua posse.

Fonte: Ellen Gould White, Profetas e Reis págs. 539 a 550

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