Chanucá – 8 – 15 de dezembro (ao anoitecer) – 25 de Kislêv – 2 de Tevêt


“E (nós Te agradecemos) pelos milagres e pela redenção e pelos feitos poderosos e pelas salvações e pelos feitos extraordinários que Tu realizaste por nossos antepassados naqueles dias, naquele tempo”. (introdução do trecho de Al Hanisim)

Nos oito dias de Chanucá, recitamos o trecho Al Hanissim na Amidá e no Bircat HaMazon, a bênção após as refeições. Esta passagem descreve a guerra dos hasmoneus, liderada por Yehudá ha-Macabi: as perseguições religiosas que provocaram sua deflagração, a vitória sobre os greco-sírios e a purificação do Santuário e sua consagração.

É interessante o fato de o trecho Al Hanissim recontar apenas um dos dois milagres que celebramos em Chanucá: a vitória militar, mas não o suprimento de óleo que durou oito dias. Isso é curioso, pois durante os oito dias da festividade, o principal mandamento é o acendimento das velas de Chanucá; mas, ainda assim, a passagem mencionada, que teve a autoria de nossos Sábios, apenas se refere ao triunfo militar dos hasmoneus. Isso indica que a vitória militar dos macabeus é o motivo pela celebração da festa de Chanucá.

O milagre do óleo, por si só, não teve significado muito importante. Muitos fenômenos sobrenaturais ocorreram na História Judaica: nenhum deles justificou a celebração de uma festividade. O significado de o suprimento para um dia ter durado oito reside no fato de ter servido para derrubar a crença de que a vitória dos hasmoneus não foi um milagre Divino, e sim, outro episódio na história da humanidade em que as forças guerrilheiras, lutando em seu próprio território, conseguem expulsar um poder ocupante mais forte. De fato, não fosse pelo milagre do óleo, como poderia o Povo Judeu ter certeza, então e agora, de que sua vitória fora, mesmo, milagrosa? Afinal, há apenas uma geração, testemunhamos duas superpotências serem vencidas pelas guerrilhas: os americanos, no Vietnã, e os soviéticos, no Afeganistão. Teria sido a revolta dos hasmoneus a versão antiga da Guerra do Vietnã, lutada na Terra de Israel? Teriam sido os macabeus semelhantes aos afegãos, que, levados por zelo religioso, conseguiram expulsar os infiéis de sua Pátria?

Para melhor apreciarmos o significado de Chanucá e a milagrosa vitória dos macabeus, é preciso mergulhar no significado da guerra que deflagraram. Por que lutaram? Pelo que lutavam? E o que significou a vitória deles?

Uma vitória milagrosa

Apesar das aparentes semelhanças, a revolta dos macabeus foi muito diferente da guerra dos vietcongues contra os americanos e dos guerreiros Mujahadin contra os soviéticos. Diferentemente desses dois grupos, os macabeus empreenderam uma guerra invencível e, não fora pela intervenção Divina, certamente teriam sido derrotados.

Para melhor apreciar o milagre de Chanucá, é necessário debater o mito histórico, que se tornou popular após a Guerra do Vietnã e a retirada soviética do Afeganistão, de que as guerrilhas que lutam pela liberdade em seu próprio território conseguem, mais cedo ou mais tarde, expulsar os ocupantes, a despeito de sua força.

Ao contrário do que se pensa, os vietnamitas não venceram a Guerra do Vietnã; os americanos a perderam. É verdade que quase 60.000 americanos foram mortos pelos vietnamitas durante o conflito. Mas, estima-se que cerca de 2 milhões de vietnamitas tenham morrido durante a guerra. Mas o mais significativo é que os americanos não perderam uma única batalha. Por que, então, perderam a guerra? Por terem perdido o apoio do povo americano. Mas, se o governo americano não tivesse que enfrentar a oposição doméstica e tivesse ido até o final, lutando como na 2ª Guerra Mundial, seu país teria saído vencedor. A Guerra do Vietnã não foi perdida no Vietnã, mas nos Estados Unidos; foi perdida não nos campos de batalha, mas na mídia e nas universidades.

Quanto à guerra no Afeganistão, não se tratou da heroica vitória que os Mujahadin alegam. É verdade que quase 15.000 soldados soviéticos morreram, mas a baixa entre os afegãos foi de 1 milhão de pessoas. A única razão para a retirada soviética foi o alto custo financeiro e em vidas, sem qualquer benefício prático. E a razão para ter-se tornado um conflito tão oneroso e sangrento não foi a superioridade em combate dos Mujahadin, mas o fato de terem sido equipados com armamento sofisticado e mísseis antiaéreos fornecidos por países, especialmente os Estados Unidos, que queriam fazer sangrar o império soviético. A onda da guerra no Afeganistão somente mudou de curso quando eles começaram a receber armas e apoio dos Estados Unidos. Sem isso, certamente teriam sido derrotados.

Em total contraste com os soldados Mujahadin, os macabeus não tiveram o auxílio de nenhuma superpotência que desejasse a queda do império grego. Eles não tinham armamento sofisticado para enfrentar um inimigo muito superior; tudo o que possuíam era uma grande coragem e fé em D’us. Sua revolta foi muito diferente da Guerra do Vietnã, pois não havia imprensa denunciando o esforço grego de guerra, nem qualquer pressão pública contra as forças gregas para que interrompessem o conflito.

Os macabeus, diferentemente dos vietnamitas, venceram no campo de batalha: tiveram uma clara vitória militar, expulsando um inimigo poderoso de sua terra. E o que é ainda mais impressionante é que essa vitória não contou com o apoio físico nem moral da maioria dos judeus. No início da revolta dos hasmoneus, os macabeus não tinham o apoio da maioria dos judeus na Terra de Israel. Os rebeldes representavam cerca de 10% da população judia. Então, tratava-se de um grupo relativamente pequeno de guerreiros que enfrentaram e venceram um exército poderoso. Foi um milagre que o país não fosse destruído e a população, massacrada. Não há, mesmo, lógica nem racionalidade que explique como os macabeus conseguiram derrotar os gregos, a não ser a realização de que Ness Gadol Hayá Sham – “um grande milagre lá ocorreu”.
Hanuka
Mas, apesar desse grande milagre, como muitas pessoas estão sempre em busca de explicações para os eventos mais improváveis, o milagre do óleo era necessário. Diferentemente da vitória militar, foi um milagre sobrenatural – desafiou as leis do mundo natural. Por ser sobrenatural, serviu para corroborar que o triunfo dos macabeus – que exigiu a participação humana – foi um milagre não menos significativo do que aqueles que D’us opera quando age sozinho e quebra as leis da natureza.

O milagre do óleo serviu outro propósito: revelou por que os macabeus lutaram e o que sua vitória representou, não apenas para sua geração, mas para todas as gerações judias por vir.

Revista Morasha – Edição 78 – dezembro de 2012

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