Um Judeu Praticante em Diálogo com Jesus – “Meu amigo segue o teu caminho e eu seguirei o meu…”


Imagine-se caminhando por uma empoeirada estrada na Galileia, num certo verão, até se deparar com um grupo de pessoas liderado por um homem jovem. A presença desse jovem chama a sua atenção: ele fala, os outros ouvem, reagem, discutem, obedecem – gostam do que ele diz, e o seguem. Você não sabe quem é ele, mas percebe que é alguém importante para aqueles que o acompanham, e para quase todos que o encontram. Algumas pessoas reagem com raiva, outras com admiração, e umas poucas com fé genuína. Mas ninguém vai embora indiferente a ele, ao que ele diz e ao que ele faz.

Jesus ensina

Agora, se puder saltar mil e novecentos anos, tente imaginar que nunca ouviu falar em cristianismo. Tudo que você sabe são umas poucas frases ditas por aquele homem, algumas histórias que contam sobre ele, alguns de seus atos. Você poderia voltar à Galileia para um encontro com Jesus antes de ele partir para Jerusalém? Você poderia ouvir palavras repetidas inúmeras vezes como se estivesse sendo ditas pela primeira vez? Então, e só então, você poderá encontrar esse homem, com seus discípulos, e levantar a questão no mundo simples e sem intermediários em que você vive: se estivesse lá, o que você teria feito? Se não soubesse quem ele viria a se tornar (falando agora da perspectiva de um cristão devoto), você o teria adotado como mestre e passaria a segui-lo?…

Jesus em Nazaré, na sinagoga e vai para Jerusalém onde expulsa os cambistas 002

Quanto mais você escutar as palavras de Jesus, as quais nunca escutou antes, mais você vai perceber que ele fez asserções muito especiais por sua própria conta, asserções que não podem ser aceitas com tanta naturalidade, nem evitadas com tanta delicadeza, como têm feito cristãos e judeus, respectivamente, ao longo dos séculos…
Assim, afirmo com muita naturalidade: posso me imaginar encontrando esse homem e, com cortesia, discutindo com ele. É este o meu modo de respeito, o único cumprimento que espero dos outros, a única homenagem que presto às pessoas que levo a sério – e, portanto, respeito e até amo.
Posso me imaginar não apenas encontrando Jesus e discutindo com ele, apontando certas coisas que ele diz e o desafiando no âmbito da Torá que compartilhamos – as Escrituras que os cristãos mais tarde viriam a adotar como o seu “Antigo Testamento” – mas também posso imaginar-me dizendo:
“Meu amigo, segue o teu caminho. Eu seguirei o meu. Desejo-te sorte, sem mim. A tua não é a Torá de Moisés, e tudo o que tenho de Deus, e tudo o que preciso dele, é aquela Torá de Moisés.”

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Teríamos nos encontrado, discutiríamos e nos despediríamos como amigos – mas separados. Ele teria tomado o seu caminho, rumo a Jerusalém e ao lugar que ele acreditava ter sido preparado para ele por Deus; eu teria tomado o meu caminho, para casa, para minha mulher e meus filhos, meu cão e meu jardim. Ele teria tomado o seu caminho para a glória, e eu para as minhas obrigações e responsabilidades…
Levando os ponteiros do relógio de volta a um ponto especifico da vida de Jesus – quando ele era um mestre na Galileia, antes de sua terrível crucifixão e (de um ponto de vista cristão) do milagre redentor de sua ressurreição – outra posição se torna possível, além de acreditar ou negar que Jesus seja Cristo. É a posição que acredito ter tomado a maior parte de Israel – familiarizado com Jesus no tempo em que ele viveu e pregou – e é a que eu tomo neste livro: nem acatar nem atacar, mas simplesmente dizer um educado não, e seguir adiante com meus afazeres.

Essa posição é plausível se nos imaginarmos na Galileia, diante de um mestre que ensina a sua tora, muito antes de ele entrar para a história da eternidade….
Assim, as pessoas querem saber por que não podemos ser judeus e cristãos ao mesmo tempo – e o judaísmo tradicional sustenta que não podemos. Por que não? O que está errado com Jesus?… da perspectiva da minha própria religião, nós, judeus, consideramos extremamente implausíveis as convicções fundamentais da outra parte…”

Jacob Neusner, “Um Rabino conversa com Jesus”, págs. 3 a 9

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