Mostra resgata história de judeus que ajudaram a construir o Bom Retiro


Folha de São Paulo

ROBERTO DE OLIVEIRA – DE SÃO PAULO

Aos 72 anos, viúva, “graças a Deus”, Ester Schneider é de uma geração de judeus que nasceu, cresceu e… não se mudou para Higienópolis. Ela nunca arredou os pés de sua origem: o Bom Retiro.

Qualquer frase sua vem seguida de muitas risadas e repleta de expressões em iídiche, língua germânica das comunidades judaicas da Europa central e oriental, baseada no alto-alemão com elementos hebraicos e eslavos.
Assim foram as primeiras palavras que aprendeu em um porão da rua Prates e aperfeiçoou nas andanças pelo bairro, principal reduto de comerciantes judeus e sírio-libaneses do país na metade do século passado.

Os avós maternos e paternos vieram da atual Romênia. O avô paterno tinha uma fábrica de tailleurs e casacos no bairro que chegou a contar com 50 funcionários.

Muita coisa que ali era produzida era vendida para lojas como a Mesbla e o Mappin, que já não existem mais.

Na comunidade de comerciantes do Bom Retiro, na região central de São Paulo, a vida dos Schneider, como a de tantos outros judeus que lá viviam, prosperou. Do porão, a família se mudou para um cortiço, depois para uma casa com “quartos separados”, numa travessa da já agitada José Paulino, uma das ruas de compras mais famosas do Brasil.

A aposentada Ester Schneider, 72, nas Instituição Beneficente Israelita Ten Yad, onde 350 judeus, incluindo ela, almoçam

PÃO COM BANANA

Para não ver a filha deslocada da rica vizinhança que se avolumava, o pai de Ester a matriculou no tradicionalíssimo Colégio Stafford, com seus uniformes impecáveis para cada estação do ano, brasão aplicado no bolso. A instituição era frequentada pela elite paulistana.

Mas, enquanto as coleguinhas levavam na lancheira sanduíches, bolachas e chá importado, a “judia pobre tinha que se contentar com pão com banana”. “Muitas vezes, comia debaixo da carteira. Eu me sentia discriminada”, diz.

Então, trocou de colégio. Mudanças mais radicais estavam por vir: a fábrica do avô faliu, e o pai, “educado nos costumes russos de tomar um dose de vodca nas refeições desde menino”, lembra, “mergulhou no alcoolismo”.
Ester encarou a rotina, dividindo-se entre os estudos e o trabalho de datilógrafa em banco –aposentou-se assim.

Somente aos 38 anos ela encontrou o que acreditava ser o amor: casou-se com um judeu também do Bom Retiro. “Até que tentei me casar antes, mas não tinha o dote.” Naqueles tempos, rememora, “a mulher, ou a família dela, tinha que ter um imóvel, carro e um relógio de ouro”.

O pai sonhava entrar na sinagoga de braços dados com a filha única e acompanhá-la até a “chuppah” (tenda do casamento), conta Ester.

Antes de celebrar a união, numa escola judaica, com direito a “mikvah” (ritual de imersão em água, geralmente utilizado para a purificação da mulher), o rabino perguntou: “Você ama esse homem, minha filha?” “Não.” “Então por que vai se casar?” “Porque ele bebe e é o único noivo que vai aceitar o meu pai alcoólatra como sogro.”

O casamento, porém, não durou nem quatro anos.
RELATOS, RETRATOS

A história de Ester e de outros 23 judeus (três deles mortos) integra a exposição “Bom Retiro – Relatos, Retratos”, de Ofra Grinfeder e Itanira Heineberg. São pinturas de “judeus pobres”, define Ester. “Sim, eles existem.”

Gente como ela é amparada pela Instituição Beneficente Israelita Ten Yad, que se dedica há 21 anos ao combate à fome na região do Bom Retiro. Cerca de 350 judeus, inclusive Ester, almoçam no refeitório da instituição.
A mostra, aberta ao público, começa amanhã e segue até o dia 15 de outubro, no Museu da Energia de São Paulo, nos Campos Elíseos (saiba mais em http://www.energiaesaneamento.org.br).

Foram os judeus que deram ao Bom Retiro a vocação comercial que permanece até hoje. Antigo grupo de chácaras da elite, a região sempre foi um reduto de imigrantes: não só os judeus, como também os italianos, os gregos, os coreanos e os bolivianos ajudaram a transformar a área em um centro comercial de moda que atrai hoje cerca de 80 mil pessoas por dia.

Frô, 10, cadela sem raça definida, rebatizada de Sure Rifke Kneidale, vive ali com Ester. Entre expressões em iídiche, que poucos ainda falam, a senhora Schneider ensaia frases que aprendeu com coreanos e bolivianos, vizinhança que só cresce e reforça o espírito multinacional arraigado no Bom Retiro.

Fonte: rua judaica 16 de setembro de 2013 enviado graciosamente via e-mail.

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