“A Terceira Busca”: A Busca Judaica


Em poucas palavras, a terceira busca tentou levar a sério o desafio colocado, entre outros, por estudiosos judeus: Jesus deve ser compreendido no contexto do judaísmo da sua época. Jesus tinha características judaicas.

Jesus em Nazaré, na sinagoga e vai para Jerusalém onde expulsa os cambistas 008

O que significa, afinal de contas, dizer que Jesus tinha características judaicas: que ele deveria ser situado dentro, e não fora do judaísmo? Aqui as diferentes imagens do judaísmo do século primeiro fazem toda a diferença. Se para nós o judaísmo farisaico for o judaísmo tradicional, normativo, que mais tarde despontaria como o judaísmo por excelência, tenderíamos igualmente a incluir Jesus nesse judaísmo e fazer dele um fariseu – embora, no seu caso específico, estivéssemos diante de um fariseu extremamente original e, de certa forma, contestador. Esse enfoque tem sido a tônica dominante de grande parte dos mais recentes estudos judaicos sobre Jesus. Flusser, por exemplo, considera a maior parte das discussões de Jesus com os fariseus como algo restrito ao âmbito farisaico. É possível demonstrar que a posição de Jesus nesses debates coaduna-se com a posição conhecida dos fariseus no tocante a essas mesmas questões.

Jesus em Nazaré, na sinagoga e vai para Jerusalém onde expulsa os cambistas 008

Nesse caso, o que dizer da originalidade de Jesus? (o termo não é muito apropriado, uma vez que é extremamente moderno.) Para os estudiosos judeus, essa questão sempre foi da máxima importância. Se Jesus fosse apenas mais um rabino, como explicar as controvérsias que o acompanharam? Como explicar as palavras e os atos de seus discípulos mais próximos depois de sua morte? Como explicar o fato de que jesus suscitou algo que ultrapassou efetivamente os limites do judaísmo?
Nesse passo, é imprescindível que reproduzamos o veredito de dois renomados especialistas judeus sobre a originalidade de Jesus. Em 1930, Claude Joseph Goldsmith Montefiore publicou um estudo importante “Rabbinic literature and Gospel teachings” (Literatura rabínica e ensinamentos dos evangelhos), em que confirma parcialmente o ponto de vista de estudiosos judeus do passado de que Jesus nada disse que pudesse ser comparado a qualquer escrito de autoria rabínica, mas não deixa de fazer algumas correções. É verdade, argumenta Montefiore, que a maior parte dos ditos de Jesus, quando tomados isoladamente, encontram paralelo no imenso corpo de textos dos talmudes e da Mixná.
No geral, porém, a síntese do ensinamento de Jesus não encontra paralelo satisfatório em nenhuma outra parte. Existe uma intensidade, um envolvimento total da pessoa, um que de radical e de paradoxal à mensagem que só encontramos em Jesus. Sua atitude em relação aos grupos marginais da sociedade também é única: ele tratava as crianças, mulheres e pecadores de modo diferente dos colegas que tinha entre os fariseus daquela época.

Jesus em Nazaré, na sinagoga e vai para Jerusalém onde expulsa os cambistas 007

David Flusser compartilha de opinião semelhante no que se refere à originalidade de Jesus. Ele observa sucintamente:
“Com base em antigos escritos judeus podemos construir facilmente um evangelho inteiro sem usar uma única palavra sequer cuja origem remonte a Jesus. Isto só é possível porque temos, de fato, os evangelhos”.
Em outras palavras, o mais original em Jesus é a nova totalidade que ele introduziu em dizeres e pensamentos tradicionais. À luz dessa nova totalidade, alguns dos ditos jesuânicos tomados isoladamente adquirem de igual modo um novo radicalismo ou profundidade que colocam Jesus em uma categoria à parte.

Jesus e a samaritana

“Os que ouviram a pregação sobre o poder do amor feita por Jesus devem ter se sentido tocados por ela. Muitos, naqueles dias, pensavam de forma semelhante. Não obstante, na pureza cristalina de seu amor elas devem ter sentido algo muito especial. Jesus não aceitava tudo o que o judaísmo daquela época pregava e ensinava. Embora não fosse fariseu, era bem próximo dos fariseus da escolha de Hillel, que pregavam o amor, tendo Jesus aperfeiçoado esse caminho, culminando com o amor incondicional – até mesmo pelos inimigos e pecadores.” Flusser, Jesus (1998), p. 90.

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A maior parte dos estudiosos cristãos partidários da “terceira busca” afastaram-se da equação que coloca em pé de igualdade o judaísmo farisaico com o judaísmo normativo anterior ao ano 70. Com isso, ampliam sobremaneira a questão do caráter judaico de Jesus. Se tomarmos como ponto de partida a premissa de que antes do ano 70 nenhuma das elites religiosas rivais podia reivindicar de fato o monopólio de definição do judaísmo, segue disso que o judeu do primeiro século tinha diante de si um amplo espectro de posições e de opiniões, e nenhuma delas o excluía do judaísmo. Havia também um maior número de modelos masculinos de conduta que se pareciam com Jesus do que com os escribas e fariseus, sem falar dos saduceus e dos essênios de Qumran. João Batista lembra-nos da existência do modelo profético de conduta; e não há dúvida de que há diversos aspectos de continuidade, bem como de diferenças, entre o Batista e Jesus.

Geza Vermes

Geza Vermes trouxe à luz informações sobre personagens carismáticas de caráter semelhante ao dos profetas de tradição rabínica (esp. Honi, o Desenhista de Círculos, e Hanina ben Dosa) e procurou compreender “Jesus, o judeu” nesse contexto. O resultado é um Jesus que parece menos fariseu do que o de Flusser, mas nem por isso menos judeu.
Talvez seja cedo demais para traçar um quadro definitivo da posição exata de Jesus com respeito às elites dominantes de então, dado que a imagem desta continua ainda muito fluida. É provável que ele estivesse bem mais próximo dos fariseus do que dos adeptos de Qumran; o caráter sacerdotal da comunidade de Qumran e suas preocupações quase que obsessivas com questões de pureza ritual, de calendário e assim por diante, não encontram eco de tipo algum na pregação e no ensinamento de Jesus. Tampouco era Jesus zelote, embora alguns tenham visto em uns poucos ditos isolados de sua autoria leves toques desse movimento. Mais difícil é a tarefa de descrever de modo preciso seu relacionamento com os fariseus. Não houve mais ninguém com quem ele discutisse mais ardorosamente; isso, por si só, pode ser uma indicação de proximidade: debatemos com mais veemência com quem julgamos estar mais perto de nós. Seu único debate com os saduceus que ficou registrado deixa a impressão de que ele não os considerou dignos de uma discussão mais séria: “Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22:29). É correto dizer que Jesus não pertencia a nenhuma das principais escolas e que representava um tipo distinto de judaísmo galilaico? Mas, quanto sabemos de fato sobre o judaísmo da Galileia?

(este artigo precisa ser lido a luz dos dois anteriores, “A Velha Busca” e a “A Nova Busca” de autoria do mesmo autor.)

Fonte: Oskar Skarsaune, “À Sombra do Templo – As Influências do Judaísmo no Cristianismo Primitivo”, págs. 137 a 139. Vida.

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