Hebreus Hoje


Devemos conhecer o método correto para se chegar a uma interpretação válida das Escrituras antes de perguntarmos o que, de fato, Hebreus pode dizer para nós hoje.

Significado para os Primeiros Leitores e Aplicações Posteriores

Um princípio básico de interpretação exige que o intérprete trabalhe a partir da base do sentido e da intenção original do escritor. Por exemplo, ele deve perguntar:

1. – Qual o contexto histórico no qual o documento foi escrito?
2. – Quando exatamente foi escrito e qual é o objetivo?
3. – Qual é o significado da mensagem para os primeiros leitores?

profeta II

Somente quando essas informações básicas tiverem sido reunidas (até onde a evidencia permita) é que será possível ao interprete discernir com precisão “o grau de importância e o significado mais oculto” (1) do documento bíblico.
Embora o sentido original da mensagem seja de grande importância, também é verdade que D’us pode ter tido em mente significados mais profundos para as gerações posteriores.

“Embora D’us tenha falado às gerações contemporâneas dos escritores dos livros bíblicos, Ele também cuidou para que o leitor destes livros no futuro conseguisse encontrar neles importância e significado profundos que vão além do lugar e das circunstâncias limitadas nas quais o original foi escrito.” (2)

Qualquer aplicação posterior deve originar do significado do texto para os seus primeiros leitores, e estar em conformidade com ele, Gerhard Hasel diz:

“É importante enfatizar que o significado para a fé dos homens de hoje não pode ser algo totalmente diferente do significado pretendido pelos escritores bíblicos para os de sua época. Qualquer tentativa de se entender os autores da Bíblia que não consiga identificar uma homogeneidade básica entre o significado obtido pelo intérprete “agora” e o significado da mensagem “de então” fracassará em sua tentativa de transmitir as mensagens inspiradas aos homens de hoje.(3)
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Esse princípio tem grande relevância. Qualquer interpretação de textos da Bíblia para os nossos dias não pode jamais destoar do sentido e intenção originais da passagem. Ao contrário, deve achar-se em total conformidade com a intenção do autor. Hasel enfatiza bem este princípio:

“A dimensão do sentido e da importância das Escrituras estão implícitos nas palavras da Bíblia quer o autor esteja ou não consciente disso. Não são uma leitura no sentido restrito do termo e nem um significado de ideias alheias a ela ou à intenção das palavras bíblicas. Antes, o que caracteriza a dimensão do sentido e da importância das Escrituras é a harmonia perfeita com o significado literal e o sentido; isto é, é o resultado do desenvolvimento daquilo que o escritor original inspirado colocou em palavras.” (4)

Este princípio, com as limitações que contém, deve ser aplicado às passagens de Hebreus que possam referir-se aos pontos teológicos ‘atuais’; isto é, ao se chegar a uma interpretação destas passagens, é importante assegurar que a aplicação concorda com a intenção original do autor. A interpretação do século 20 de uma passagem qualquer tem de ser o resultado do desenvolvimento da mensagem original do escritor bíblico.
Para se determinar o sentido de Hebreus aos seus primeiros leitores (ou ouvintes?), e assim estabelecer uma base de onde se possa abordar o contexto externo e interno do texto.

TRADIÇÃO ORAL

O Contexto Externo

O contexto externo ou histórico refere-se às pessoas às quais se destina a mensagem, às circunstâncias que a requereram, ao autor que a escreveu, ao local e à época em que foi escrita. Considerando-se as diferentes interpretações sem questionarmos os argumentos, os dados seguintes podem ser considerados como um breve resumo do contexto histórico de Hebreus: (5)

1. Possivelmente, Hebreus foi preparado primeiramente para ser um sermão (13:22; conf. 11:32).

2. Ou uma série de sermões, para uma comunidade judaico-cristã do primeiro século, talvez antes do ano 70 d.C.

3. Se admitirmos que o autor é Paulo, o escriba de Paulo ou outra pessoa qualquer, enfrentaremos problemas difíceis. Pode ser melhor, como William G. Johnsson fez, recorrermos à designação “o apóstolo” para se referir ao autor. (6)

4. O único versículo que fala diretamente sobre a questão da origem e destino é ambíguo (13:24).

O Contexto Interno

Uma observação quanto às circunstâncias que deram origem ao escrito de Hebreus forma uma ponte entre o contexto externo ou histórico e o contexto interno ou literário de qualquer passagem do livro. Os primeiros destinatários de Hebreus estavam enfrentando problemas decorrentes da ruptura entre o judaísmo e a nova igreja, e da tentação de voltar ao judaísmo. A demora da segunda vinda, a perseguição contínua e os problemas econômicos também se somaram ao seu trauma, levando-os a questionar se o cristianismo realmente valia a pena. (7)

sinagoga I

A Mensagem de Hebreus

Para responder a estes problemas, o apóstolo faz uma série de comparações entre o judaísmo e o cristianismo, mostrando e cada caso a superioridade deste último. Ele mostra que o judaísmo se cumpre no cristianismo, sendo este, a suprema revelação de D’us ao homem. O “Mashiach” é o “sacerdote superior” para ministrar dentro da estrutura da “aliança superior”. Seu ministério no santuário celestial é contrastado com o ministério dos sacerdotes levíticos no santuário terrestre.
Dois temas (entre outros) têm uma importância especial para a compreensão dos destinatários: a centralidade e a singularidade do Calvário e o “acesso direto” do crente a D’us por meio do “Mashiach”. (8) O Calvário é importante pelo que ele é em si; mas ele também é importante pelo que ele significa como precursor do ministério celestial do “Mashiach”. (9) O acesso a D’us é enfatizado por repetidos contrastes entre o ministério celestial do “Mashiach” e o sistema levítico. (10)
Essas, então, são as perguntas que devemos ter em mente ao abordarmos as passagens de Hebreus que tenham especial importância para a teologia do “santuário”.

O que o escritor estava dizendo para os primeiros destinatários?

O que isso significa para nós hoje à luz da “dimensão do sentido e da importância”?

Nossa interpretação de Hebreus está em harmonia com a mensagem original da passagem em questão?

O que Hebreus diz direta ou indiretamente que seja importante para a teologia?
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Autor: Alwyn P. Salom, A Luz de Hebreus, Intercessão, Expiação e Juízo no Santuário Celestial, UNASPRESS, editor Frank B. Holbrook, págs. 195-197, adaptado por Herança Judaica.
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Referências:

1 – Gerhard F. Hasel, “Principles of Biblical Interpretation”, A Symposium on biblical Hermeneutics, ed. Gordon M. Hyde (Washington, DC, 1974), p. 185
2 – Ibid., p. 168.
3 – Hasel, p. 183.
4 – Hasel, “Principles”, p. 185.
5 – Para opiniões conservadoras a respeito da evidência para o contexto histórico de Hebreus, ver Donald Guthrie, New Testament Introductio, 3ª ed., ver. (Londres, 1970), P. 685-718; Everett F. Harrison, Intgroduction to the New Testament, ver. Ed. (Grand Rapids, 1971), p. 370-80. William G. Johnsson, In Absolute Confidence: The Book of Hebreus Speaks to Our Day (Nashville, 1979), p. 15-20, 27-30; Francis D. Nichol, ed., The SDA Bible Commentary, 7 vols. (Washington, DC, 1953-1957), 7:387-94.
6 – Johnsson, In Absolute Confidence, p. 29
7 – Ver Guthrie, New Testament Introduction, p. 7045.
8 – Hebreus 7:27; 9:12; 26, 28, 10:10.
9 – Ver Johnsson, In Absolute Confidence, p. 114-18.
10 – Hebreus 04:14, 16; 6:19-20; 09:11,12,24; 10:19-20, conf. 7:23-25; 9:07,08; 10:11,12.

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