Antíoco IV Epifânio – Intérpretes Judeus Posteriores


Diálogo com Trifo. 2 JPG

1 – Trifo.

Podemos examinar algumas das opiniões do apologista judeu Trifo por meio do diálogo que Justino Mártir teve com ele na metade do segundo século d.C. Um ponto em debate entre eles é relevante para a opinião que tem relacionado Antíoco com o chifre pequeno de Daniel 7.

Em Daniel 7:25, o período de domínio do chifre pequeno é dado como três tempos e meio. Justino e Trifo mantinham que o chifre pequeno que deveria dominar nesse período estava ainda no futuro, que (do seu ponto de vista) exclui Antíoco como um cumprimento. Trifo também mantinha que o período de tempo profético representava três séculos e meio, o que tornaria mais difícil ajustar Antíoco a essa especificação.  (1)

Torá lendo a

2 – Interpretações Rabínicas.

Em sua forma escrita final, os pontos de interpretação que lidam com as profecias de Daniel discutidas aqui datam do terceiro e quarto séculos d.C. ou mais tarde. É muito possível, porém, que essas opiniões já fossem mantidas como tradicionais em tais círculos nessa época. Bem podem retornar a um tempo consideravelmente anterior para o seu desenvolvimento.

daniel 7 urso

            Pode-se chegar a duas importantes conclusões. A primeira tem a ver com a identificação do segundo animal de Daniel 7 com a Medo-Pérsia. A segunda tem a ver com a identificação do quarto animal com Roma. A ultima conclusão está diretamente oposta à identificação de Antíoco Epifânio como o chifre pequeno do capítulo 7. A primeira conclusão contrata com uma posição que necessariamente se deve assumir antes no capítulo a fim de se fazer tal identificação.

A mais famosa identificação rabínica do urso do capítulo 7 como a Pérsia vem do Rabi José, que foi perseguido pelos sassânidas no início do quarto século. Ele identificou o urso de 7:5 com os persas “que comem e bebem como ursos, estão cobertos de carne como os ursos, são cabeludos como os ursos e jamais podem ficar quietos como os ursos”. (2)

            Ao ver um persa cavalgando, Rabi Ammi que foi contemporâneo do Rabi José diria: “Lá está um urso errante.” (3) Em nome do Rabi Hanina, que viveu no inicio do terceiro século, r. Huna e R. Hama identificaram a Média com um urso com base em Amós 5:19. (3)

Sobre essa declaração observa J. Braverman: “Essa referencia é claramente ao Império Medo-Persa, sendo que ele é mencionado depois de Babilônia e antes da Grécia e Edom (Roma). (4) Uma interpretação rabínica interessante dos cavalos vermelho, preto, branco e baio de Zacarias 6 é aquela que os identificava com Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. (5) Embora o simbolismo aqui seja diferente, essa série muito claramente é análoga àquela encontrada em Daniel.

daniel 7 animal terrível e espantoso

            Tanto quanto diz respeito ao quarto animal do capítulo 7, as referências rabínicas são praticamente unânimes em identifica-lo com Roma. Os rabis fizeram isso por meio de vários métodos. Um deles foi identifica-lo com o javali da selva de Salmo 80:13. (6) O javali, por sua vez, foi identificado com Roma em outro lugar. (7) aspectos de comportamento suíno são descritos em termos de conduta humana para indicar por que essa figura foi escolhida pra representar Roma. (8)

Outra abordagem foi identificar Roma sob o título de Edom. (9) Os quatro reinos mundiais de Daniel assim se tornaram Babilônia, Pérsia, Grécia e Edom (Roma). As referências rabínicas que usam Edom em lugar de Roma são bem conhecidas. (10)

cronologia bíblica

            Uma terceira grande linha de interpretação para consideração aqui tem a ver com a maneira como os rabis tratavam o capítulo 9. Das fontes rabínicas aqui envolvidas, aquela em que estamos mais interessados é Seder Olam, que é atribuída ao Rabi José bem Halafta, do segundo século d.C. nessa obra provê uma antologia de alguns materiais cronográficos que procedem de várias gerações de eruditos que viveram antes e depois do tempo do Rabi José. Dos capítulos 29 e 30 dessa fonte Wacholder observou:

“Os capítulos 29 e 30 de Seder Olam, que podem ser considerados como uma espécie de midrash sobre Daniel 9:24-27, adaptam a cronologia dos incêndios do primeiro e do segundo templos para coloca-los em conformidade com a opinião do autor dos número sabáticos de Daniel: dez jubileus = 70 ciclos sabáticos = 490 anos transcorridos desde a conquista de Nabucodonosor à conquista de Jerusalém por Tito. Efetivamente, o Seder Olam, como o Livro dos Jubileus, …proporcionou uma crônica do passado, mas sua cronologia determinista claramente aponta para uma lição didática no desígnio divino do tempo.” (11)

Como sabemos de antigas fontes detalhadas, a real cronologia histórica envolvida aqui está imprecisamente refletida nesse documento. Provavelmente foi esquematizada para prover pontos similares em extremidades opostas desse período de tempo para esses dois eventos que concordam em natureza. Nesse caso, as 70 semanas de Daniel foram consideradas como se estendendo até à destruição do segundo templo pelos romanos. Trata-se de uma ideia semelhante àquela encontrada nos escritos de Josefo, mas aqui a interpretação está ligada mais diretamente a detalhes cronológicos derivados de Daniel.

josephus

            Josefo provê mais evidência indireta para essa opinião sobre Daniel 9:24-27 nos círculos judaicos de seu tempo com a observação:

“Mas o que os levou à guerra foi principalmente um oráculo ambíguo, igualmente encontrado em suas sagradas escrituras, que dizia que se veria naquele tempo alguém do seu país que se tornaria dominador do mundo. Eles compreenderam que isso significava alguém de sua própria raça, e muitos de seus sábios se enganaram a esse respeito. O oráculo, porém, na realidade significava a soberania de Vespasiano, que foi proclamado imperador em solo judaico (Guerra VI. 312. 3) (12)

Embora a passagem exata ou livro das “Sagradas Escrituras” que proveu essas interpretações divergentes não seja identificado, F. F. Bruce sugeriu que elas provavelmente foram tiradas de Daniel 9:26, que se refere ao “povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário.” (13)

Independentemente de como interpretaram a segunda metade dessa frase, os judeus acerca de quem Josefo escreveu parecem ter interpretado a primeira metade dela em termos messiânicos. O próprio Josefo, por outro lado, vê um príncipe romano presente, e ele identifica esse príncipe como Vespasiano. Mas nenhuma dessas duas opiniões faz qualquer concessão para um cumprimento dessa profecia por Antíoco Epifânio.

Autor: William H. Shea, págs. 217 e 218, – Estudos Sobre Daniel – Origem, Unidade e Relevância Profética – Editor Frank B. Holbrook, UNASPRESS, 2009.

Notas:

1 – Justino Mártir para Trifo: “Mas tu, sendo ignorante de até quando ele terá domínio, manténs outra opinião. Porque tu interpretas o “tempo” como sendo uma centena de anos. Mas se isto é assim, o homem do pecado deve, no mínimo, reinar trezentos e cinquenta anos, a fim de que possamos calcular aquilo que é dito pelo santo Daniel – ‘e tempos’ – ser apenas dois tempos.” (Diálogo com Trifo, cap. 32, em ANF, 1:210.)

2 – Megillah 11ª; Kiddushin 72ª; Abodah Zarah 2b; Yalkut, Isaias, 452; Lekah Tob para Ester 44ª; Yalkut, Provérbios, 962, Yalkut, Daniel 1064. Para estas refer^Çencia e aquelas que se seguem nas notas subsequentes ou agradecido a J. Braverman, Jerome’s Commentary on Daniel, CBQ Séries de Dissertações no. 7 (Washington: Catholic Biblical Association in America, 1978), p. 84-96.

3 – Kiddushin 72ª.

4 – Proem para Esther Rabbah, 5; Midrash Tehillim 18:11; Yalkut, Amós 545, Yalkut, Ester, 1045.

5 – Braverman, p. 86.

6 – Yalkut, Zacarias, 574. Veja também a identificação da Medo-Pérsia como um lobo se encaixando nesta série. Gênesis Rabbah, 99:2, Levítico Rabbah 13:5; Proem para Ester Rabbah, 5; Tanhuma Vayehi, 14, Yalkut, Levítico, 536, Ester Rabbah 10:13.

7 – Levítico Rabbah 13:5; Cântico dos Cânticos Rabbah 3:4, Midrash Salmos 80:6; Abor de Rabi Natan A, 34; Gênesis Rabbah 35:5; Sekel Tob, Toldor, 26:33; Yalkut, Salmos, 830.

8 – Pesahim 118b; Êxodo Rabbah 35:5; Sanhedrin 21b; Shabbat 56b; Cântico dos Cânticos Rabbah 1, 6:4.

9 – Gênesis Rabbah 65:1; Leviticus Rabbah 13:5; Sekel Tob, Todot, 6:33; Yalkut, Salmos, 830; Yalkut Makiri 73:22; Abor de Ravvi Natan A, 34.

10 – Êxodo Rabbah 15:6; 25:8; Tanjuma Tarzi 8; Yalkut 1, Vayelek 9431; Yalkut2, 562, 1064.

11 – Targum Jerushalmi 1, Gên. 15:12; Targuns Jerushalmi 1 e 2; Lev. 26:44; Gênesis Rabbah 44:15 e 83:3. Para referencias sobre este ponto veja também L. Ginzberg, The Legens of the Jews, 5 (Filadélfia, 1925): 272-73, N. 19.

12 – Bem Zion Wacholder, “Chronomessianism: The Time of Messianic Movements ad Calendar of Sabbatical Cycles.

13 – Josefo, The Jewish War, Livros IV-VII, trad. H. St J. Tranceray, vol. 3,Loeb Classical Library (Cambridg, 1927), p. 467.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s