O Decreto de Reconstrução de Jerusalém – A Data Inicial para a Profecia das Setenta Semanas


                Determinar a data de início para a profecia das 70 semanas de Daniel (Dan. 9:24-27) tem sido um dos desafios aos estudantes da profecia. De acordo com o versículo 25a, o evento que marcou seu início foi a “a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém…” (1)

Setenta semanas Daniel 9

                Infelizmente, não se tem conhecimento de nenhuma proclamação explicita. A pesquisa apresenta ainda mais dificuldade pela escassez de informação disponível  para esse segmento da história. (2) consequentemente, os intérpretes têm sido obrigados a deduzir a partir da evidência bíblica e histórica qual “ordem”, isto é, qual dentre os vários decretos deve ser considerado apropriado.

                A pergunta é significativa. Cristãos evangélicos conservadores ao longo dos séculos têm interpretado a “saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” como o primeiro de uma corrente de eventos que culminaram na vinda do Messias (o Ungido), ou seja, Jesus. Mas a maioria dos eruditos crítico-históricos modernos supõe que a profecia dos 490 anos terminou com os ultrajes dos sírios contra os judeus, em 164 a.C. Além disso, dada a ligação interpretativa entre as profecias de Daniel 8 e 9, é sugerido que o começo dessa profecia de 490 anos é de interesse mais que periférico por calcular o ponto de conclusão das 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14. (3)

Babilônia invade Jerusalém

                Na época em que os eventos registrados em Daniel 9 ocorreram, os 70 anos de dominação de Judá por Babilônia, preditos por Jeremias (Jr 25:8-14;29:10-14), tinham praticamente terminado. Daniel não teve dúvida quanto ao significado do oráculo de Jeremias (9:2), e orou para que Deus atentasse para o santuário assolado e para a cidade de Jerusalém (9:17-18).

                Em resposta à oração do profeta, Gabriel, o anjo mensageiro que ele havia encontrado na visão anterior (8:16), retornou e lhe deu a profecia das 70 semanas. Nesse período de tempo, de acordo com Gabriel, começaria “a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” e abrangeria a chegada do “Messias, um Príncipe” (v.25, tradução minha).

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                Qual é, nesse caso, o ponto de partida para essa profecia (o terminus a quo)? Quando foi dada a ordem para “restaurar e para edificar Jerusalém”? Os intérpretes têm sugerido vários eventos como cumprimentos dessa sentença.

Profecias de Isaías

                Em primeiro lugar, certas profecias de Isaías devem ser observadas. Eruditos conservadores datam essas profecias do fim do oitavo e começo do sétimo século a.C. nesses oráculos, Isaías predisse (mais de um século antes do nascimento do monarca persa) que Ciro diria de Jerusalém: “será edificada”, e do templo: “será fundado” (Is. 44:28; conforme também 45:13).

Isaías

 

Edito de Ciro

                Entretanto, quando partimos da predição em direção aos registros disponíveis e diretos que descrevem as relações entre Ciro e os judeus (esses registros estão limitados principalmente aos documentos bíblicos), encontramos somente um decreto que permite aos judeus retornarem e reconstruírem o templo (Ed. 1:2-4; cf. II Cr 36:22-23). Nesse decreto, emitido ao redor de 538/537 a. C., não está registrada nenhuma ordem que autorize reconstruir a cidade de Jerusalém. Uma vez que a reconstrução da cidade de Jerusalém está especificada em Daniel 9:25, o decreto de Ciro não se qualifica como o ponto inicial para a profecia das 70 semanas.

Darius III of Persia

Edito de Dario I

                Assim, 17 anos após o decreto de Ciro, o templo ainda está em ruínas. A construção do templo de forma decisiva só começou finalmente com determinação por meio do incentivo, repreensão e cooperação ativa dos profetas Ageu e Zacarias. Uma inspeção pessoal pelo governador local em resposta às queixas feitas pelos inimigos dos judeus, requereu uma confirmação do decreto de Ciro por meio de um edito adicional de Daniel I (520 a.C. aproximadamente).

                Embora fossem generosas as provisões do primeiro decreto emitido por Ciro, o segundo menciona, do mesmo modo, somente a restauração do templo.

                Não faz nenhuma referência à cidade devastada ou a planos para sua restauração. Uma vez que a reconstrução de Jerusalém não é mencionada nesse decreto, o edito de Dario I – como um cumprimento da “saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” – é também desconsiderado.

                De fato, na visão que Zacarias recebeu provavelme3nte em algum momento durante os 12 meses seguintes, está indicado que as cidades de Judá e de Jerusalém necessitaram ainda ser reconstruídas (Zc 1:7-17). Em resposta a um clamor que relembra uma oração similar feita por Daniel (veja o cap. 9), o Senhor assegurou a Zacarias que “com grande empenho estou zelando por Jerusalém e por Sião…Voltei-me para Jerusalém com misericórdia; a minha casa nela será edificada,… e o cordel será estendido sobre Jerusalém…as minhas cidades ainda transbordarão de bens; o Senhor ainda consolará a Sião e ainda escolherá a Jerusalém” (Zc 1:14-17). Embora Jerusalém ainda permanecesse desolada, Deus assegurou ao profeta que “o cordel” iria mais uma vez esboçar o projeto para a reconstrução da cidade.

Dario Rei

                A estrutura do templo foi finalmente concluída em 515 a.C. “no sexto ano do reinado do rei Dario” (Ed 6:15). Contudo, a informação dada no versículo 15 parece se opor à dada no versículo precedente. De acordo com o versículo 14, o edifício do templo foi construído segundo o decreto de “Ciro, de Dario e de Artaxerxes”. Porém, Artaxerxes I não assumiu o trono antes de meio século após a data proposta em Esdras 6:15.

                Possivelmente, a melhor maneira de harmonizar esses dois versículos é reconhecer que embora o templo fosse concluído em 515/520 a.C., os presentes que Artaxerxes conferiu ao templo em 457 a.C. foram considerados importantes o suficiente para incluir esse rei persa posterior como um benfeitor na lista com seus predecessores (cf. Ed 7:11-27). Parece aqui (como em outra parte no livro de Esdras), que o escritor resumiu os acontecimentos por temáticas e, consequentemente, não os relatou sempre na ordem cronológica.

                Uma característica de estilo similar do livro de Esdras deve ser observada na relação entre os capítulos 7 e 4. Primeiramente, faremos uma breve pesquisa em Esdras 7, e então observaremos sua relação com o registo do capítulo 4.

Edito de Artaxerxes I

                Esdras 7 menciona um terceiro decreto, dessa vez emitido pelo rei persa, Artaxerxes I. De acordo com o relato, Esdras e um grupo de judeus, em resposta às ordens desse governante, foram de Babilônia a Jerusalém no sétimo ano de seu reinado (Ed 7:6-7; 11-17). Supondo que esse rei seja Artaxerxes I, notamos que Esdras e um considerável número de pessoas – sacerdotes, levitas, cantores, guardiões, e servos do templo – deixaram a Mesopotâmia em 457 a.C. e, após uma viagem que durou vários meses, chegaram a Jerusalém.

Artaxerxes I

                Visto que o templo tinha sido concluído mais demeio século antes, é compreensível por que o decreto de Artaxerxes não diz nada sobre a construção do templo. Em vez disso, o edito específica que:

  1. Os judeus que querem retornar a Judá podem fazê-lo.
  2. Esdras deve investigar a condição espiritual do povo em Judá e transportar determinados tesouros do templo para os oficiais de lá.
  3. Esses presentes, junto com quantidades de prata e de ouro que podem ser dadas a ele em Babilônia, devem ser usados para comprar ofertas para os sacrifícios e cuidar de outras necessidades relativas à adoração do templo.
  4. Os servos do templo devem ser isentados de impostos.
  5. Esdras foi autorizado a reorganizar o sistema judicial e civil de Judá que deveria gozar autonomia significativa sob o domínio maior da Pérsia (v.12-26).

                Em atitude de gratidão, Esdras adiciona ao relato seu louvor ao Senhor por motivar Artaxerxes a ajudar a pequena comunidade de judeus e por “ornar a casa do Senhor, a qual está em Jerusalém” (v.27).

                O decreto (que pode ser datado com exatidão de 457 a.C.) não menciona nada sobre reconstruir Jerusalém. Entretanto, fornece uma medida de autonomia civil desconhecida desde a desolação de Jerusalém e Judá causada por Babilônia (v.25-26). Isso em si sugeriria que as condições na Judéia tinham mudado notavelmente e que a autonomia era mais uma vez não só possível, mas estava agora sendo concedida. 

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Reconstruindo Jerusalém – Esdras 4

                O retorno de Esdras e seu grupo de companheiros judeus descrito em Esdras 7 parece estar relacionado aos eventos registrados em Esdras 4:7-23. Os versículos de 7 e 11-12 fornecem essa ligação:

“E nos dias de Artaxerxes, rei da Pérsia, Bislão, Mitredate e Tabeel e os outros seus companheiros lhe escreveram; a carta estava escrita em caracteres aramaicos e língua siríaca. Eis o teor da carta endereçada ao rei Artaxerxes: Teus servos, os homens daquém do Eufrates e em tal tempo. Seja do conhecimento do rei que os judeus que subiram de ti vieram a nós em Jerusalém. Eles estão reedificando aquela rebelde e malvada cidade e vão restaurando seus muros e reparando os seus fundamentos.”

                Essa passagem (v.7-23) faz parte de uma narrativa maior que revela o tema da perseguição e frustração que os judeus encontraram na restauração do templo e da cidade desde a época de Ciro (cerca de 537/536-530 a.C.) até o reinado de Artaxerxes I (465-423 a.C.).

ruinas Reconstruindo-os-Muros

                Os incidentes registrados em Esdras 4 geralmente não estão todos na ordem cronológica. Isso não significa problema algum quando nos lembramos de que Esdras escreveu cerca de 100 anos após o retorno ter sido permitido por Ciro. Ele, nesse caso, estava numa posição de avaliar os acontecimentos desde uma perspectiva posterior.

                Após descrever os primeiros eventos do período pós-exílio, Esdras parte das perturbações causadas principalmente pelos samaritanos na época de Ciro e Dario (v. 1-5) para as frustrações geradas durante os dias de Assuero, supostamente Xerxes I, que governou entre 486-465 a.C. (v. 7-23). Do versículo 6 em diante, Esdras desconsidera o desenvolvimento cronológico do livro a fim de revelar o fato de que as perturbações continuariam por mais meio século. Com o versículo 24, Esdras chama a atenção de seus leitores ao ponto em que ele interrompeu a ordem cronológica, a saber, acontecimentos da época de Dario I (cf. Ed. 3; 4:1-4;24;5).

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                De acordo com Esdras 4:7-23 vários oficiais na província da Pérsia, conhecida como “daquém do Eufrates”,  da qual Judá fazia parte, escreveu uma carta contra os judeus a Artaxerxes. Nessa carta, esses oficiais reclamaram que “os judeus que subiram de ti vieram a nós a Jerusalém. Eles estão reedificando aquela rebelde e malvada cidade e vaão restaurando seus muros e reparando os seus fundamentos” (v. 12).

                Essa comunicação parece implicar:

  1. Uma migração de judeus da Babilônia a Jerusalém.
  2. Um consentimento real para reconstruir os fundamentos, a cidade e os muros de Jerusalém. A frase “que subiram de ti vieram a nós” sugere uma migração de judeus autorizada pelo próprio Artaxerxes. Esse contexto escrito encontra seu melhor correspondente histórico na migração de Esdras e seus companheiros judeus conforme registrado em Esdras 7 no ano de 457 a. C. A jornada de Neemias a Jerusalém 13 anos depois era uma viagem solitária e de forma nenhuma se compara às migrações de judeus sob Zorobabel e Esdras.

                Esdras 4:12 é a primeira clara referência à real reconstrução de Jerusalém desde sua destruição em 586 a.C. Segundo as reclamações dos samaritanos, os judeus estavam reconstruindo os fundamentos, muros, a cidade de Jerusalém. É possível que todas essas atividades tenham sido resultado de uma iniciativa própria dos judeus. Se esse fosse o caso, Esdras 4:21 significa que nenhuma permissão real tinha sido dada pelo rei até então. Porém, várias considerações questionam essa interpretação.

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                “Primeiramente, é improvável que uma atividade de construção de grande porte ocorresse sem autorização. Artaxerxes já havia concedido aos judeus autonomia civil e judicial sob o domínio persa. Portanto, seria natural que os judeus prosseguissem com a construção em Jerusalém, o centro administrativo nacional (cf. Ed 7:25-26). Em segundo lugar não há nenhum sinal – tanto na acusação como na resposta real – de que a cidade e seus muros estivessem sendo reedificados de forma ilegal ou sem consentimento real.

                Caso parecesse que a reconstrução estava desautorizada ou houvesse um sinal de rebelião, a comunicação dos samaritanos ou a carta de Artaxerxes teria mencionado, senão enfatizado, a ilegitimidade do projeto e a deslealdade dos construtores daquelas terras. Entretanto, o tema da queixa não é a reconstrução de Jerusalém e de seus muros como sendo contrária à lei, mas o suposto dano que seria causado ao imperador e ao império se a cidade e seus muros fossem restaurados completamente. A comunidade de judeus é descrita como potencialmente rebelde. O rei é advertido de que uma cidade reconstruída se rebelaria e reteria tributos, taxas e impostos.

                A consequência da carta dos samaritanos a Artaxerxes é confusa. Por que deveria o monarca, que tinha favorecido tão grandemente os judeus concedendo-lhes consideráveis privilégios religiosos e civis (sob o comando de Esdras), de repente inverter sua decisão? E por que deveria mudar a ideia outra vez mais tarde e abençoar a viagem de Neemias a Jerusalém para reedificar a cidade?

                Diversos pontos merecem consideração. Artaxerxes I, como seu pai Xerxes, era uma pessoa instável e temperamental que poderia mudar de ideia a qualquer momento. Fontes históricas indicam que uma rebelião tinha ocorrido no Egito (cerca de 462-454) a. C.). Essa revolta egípcia pode ter fornecido a motivação política para o rei dar a Esdras diversas concessões importantes a fim de assegurar a boa vontade dos judeus que viviam tão próximo ao Egito.

Egito I

                É possível que mais tarde, quando o governador e o território ao qual a Judeia pertencia se rebelou, Artaxerxes tenha favorecido os samaritanos que fingiam interesse no bem-estar da coroa. Essa sugestão esclareceria os procedimentos políticos incomuns refletidos em Esdras 4:17. De acordo com o relato, parece que o imperador negligenciou o protocolo normal ao ignorar o governador ( o cabeça da  província) e tratar diretamente com os suboficiais de Samaria. Tais circunstâncias também explicaram a ordem direta de Artaxerxes aos samaritanos para fazerem com que as atividades de construção cessassem em Jerusalém até que ele as autorizasse (v.21).

samaritanos

                Os samaritanos estavam felizes em obedecer. “… Foram eles apressadamente a Jerusalém, aos judeus, e, de mão armada, os forçaram a parar com a obra” (v.23). embora nenhuma ordem explícita fosse dada para destruir o que já havia sido construído, eles aparentemente puseram abaixo alguns dos muros recentemente erigidos e destruíram as portas da cidade. Essas hostilidades são mencionadas provavelmente num relato que Neemias recebeu pouco depois em Susã (Ne 1:3).

Permissão de Artaxerxes para Restaurar Jerusalém

                No ano de 445/444 a.C. Neemias, copeiro de Artaxerxes I, recebeu um relatório de um grupo de judeus que tinham chegado de Jerusalém à capital persa. Neemias perguntou sobre Jerusalém e foi informado por seu parente Hanani: “Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas, queimadas” (Ne 1:3; cf. 2:3).

ruinas de Jerusalém

                Neemias relata seu choque profundo com as notícias de seus irmãos (1:4-11). O choque que Neemias recebeu e o curto período gasto para reparar os danos – 52 dias (Ne 6:15) – elimina a sugestão de que a destruição relatada a ele refere-se à devastação da cidade por Nabucodonosor mais de um século e meio antes. Obviamente, a destruição a qual se refere Hanani foi somente parcial. Além disso, a devastação de 586 a.C. dificilmente seria uma noticia chocante para Neemias. O relatório que afligiu o judeu patriota refere-se muito provavelmente à violência dos samaritanos relatada em Esdras 4:23.

                Após ouvir o relato, Neemias faz uma oração que relembra a petição de Daniel (9:3-19) e pede permissão a Artaxerxes para retornar a Jerusalém e reconstruir a cidade e especialmente seus muros (Ne 2:5). Neemias reconheceu, como Esdras alguns anos antes, que foi a providência divina que moveu o coração do instável rei para conceder seu pedido, a proteção especial e cartas reais de autoridade. A viagem de Neemias não era parte de uma migração como a de Esdras. Tampouco era parte de um decreto a permissão para ir a Jerusalém, concedida por Artaxerxes no vigésimo ano de seu reinado.

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                De fato, a finalidade da viagem de Neemias foi secreta no início. Apenas aos poucos foram tornados públicos seus planos de reconstruir a cidade (Ne 2:11-18). É importante o fato de as memórias de Neemias enfatizarem que o trabalho se concentrou primeiramente nos muros e nas portas de Jerusalém, em vez de na cidade propriamente dita (Ne 2:17; 3:1-4, 20; 6:1-15). Embora lutando constantemente com oposição, um determinado grupo de judeus e seu governador Neemias, terminaram os reparos dos muros e das portas em somente 52 dias, um período menor do que dois meses.

                Em comparação com a migração dos judeus após os decretos de Ciro (538/537 de a.C.) e de Artaxerxes (457 a.C.) a viagem de Neemias foi completamente diferente. Não era uma imigração. A decisão do rei não foi uma proclamação pública. A finalidade da visita de Neemias foi mantida em segredo, e seu trabalho consistiu primeiramente em reparar os muros e as portas danificadas havia apenas alguns anos. Dados esses fatos, é evidente que a vigem de Neemias em 445/444 a.C. não está em harmonia com as especificações de Daniel 9:25.

 

Conclusão

                Nosso estudo dos dados históricos disponíveis indica que nem o decreto de Ciro (538/537 a.C.) nem o de Dario (cerca de 520 a.C.) menciona a reconstrução de Jerusalém. Enquanto moradias individuais foram erigidas aqui e ali dentro e ao redor da capital arruinada, não existe nenhuma evidência de que a cidade em si tivesse sido reconstruída como resultado desses decretos. A evidência é de que em 519 a.C. Deus ainda prometeu a Zacarias em visão que planos seriam feitos para a reconstrução da cidade.  O trabalho de Neemias em 445/444 a.C. foi limitado primeiramente a reparar os muros e as portas danificadas pelos ultrajes dos samaritanos. Sua tarefa foi cumprida em 52 dias.

                Por tanto, parece que embora nenhuma proclamação explicita detalhando a restauração e reconstrução de Jerusalém estivesse disponível, a situação descrita em Esdras 4 – complementada pelos eventos registrados em Esdras 7 – se ajusta melhor ao contexto histórico visualizado em Daniel 9:25.

SETENTA SEMANAS

                Assim, em 457 a. C. Artaxerxes I concedeu aos judeus, por meio de um decreto, privilégios espirituais, civis e judiciais, redundando em autonomia sob o domínio maior do império persa. Tais privilégios eram desconhecidos aos judeus desse sua subserviência ao império neobabilônico. Parece, portanto, que a reconstrução da cidade de Jerusalém (Ed 4:12), que ocorreu em consequência desses favores, sugere que estava implicado nesse decreto o consentimento real para permitir a Judá ter um centro visível a partir do qual os novos privilégios civis e judiciais do estado recentemente concedidos pudessem ser administrados. Consequentemente, a “ordem” ou decreto de Artaxerxes de 457 a.C. fornece a melhor data para o início da profecia das 70 semanas de Daniel e do período de tempo mais longo de 2.300 dias/anos (Dn 8-9).

AUTOR: Arthur J. Ferch – Setenta Semanas – Levítico e a Natureza da Profecia – págs. 40-47 – Editor Frank B. Holbrook, UNASPRESS, 2010.

 

Notas:

1 – As citações bíblicas diretas desse capítulo são retiradas da NVI.

2 – Neste capítulo não nos demoraremos em questões concernentes à precedência de Esdras e Neemias (para mais informações sobe esse assunto, ver E. M. Yamauchi, “The Reverse Order of Ezra/Nehemiah Reconsidered”, Themelios 5 (Maio, 1980): 7-13) nem as questões cronológicas relacionadas à data de 458 a.C. (sobre isso veja S. H. Horn, “Elephantine Papyri and Daniel 8:14”, Ministry, agosto, 1981, p. 24-27.

3 – Para uma discussão mais aprofundada veja W. H. Shea, “The Relationships Betwee the Prophecies of Daniel 8 and Daniel 9”, The sanctuary ande the atonoment, eds. A. V. Wallenkampf e W. R. Lesher (Washington, DC, 1981) P. 228-250.                

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