Daniel 9:24-27 – Exegese – Versículo 24


            “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade.”

            A frase introdutória dessa profecia indica que seu conteúdo está relacionado especificamente com a comunidade de judeus do período pós-exílio que se estabeleceu e se desenvolveu em Judá e em Jerusalém.  Não pertence à mesma categoria de profecia como os quatro grandes esboços proféticos da história mundial que aparecem nos capítulos 2, 7, 8 e 11, nem tem a mesma conclusão, o reino escatológico de Deus. Daniel 9:27 termina com Jerusalém em ruínas. Assim, a história mundial apresentada nessas outras linhas proféticas deveria se estender muito além dos eventos de 9:27 antes que o reino escatológico viesse.

            A profecia de 9:24-27 naturalmente se divide em duas seções. Essa frase introdutória (“70 semanas estão determinadas”, etc.) e os seis verbos no infinitivo que se seguem constituem um resumo do que deve acontecer quanto as 70 semanas terminarem. Essa constitui a primeira seção da profecia. Os detalhes desse resumo são então esclarecidos na segunda seção (v. 25-27). Com esse breve resumo em mente, nos voltamos para um exame dos seis verbos no infinitivo.

pecado

  1. “Fazer cessar a transgressão.”

            O verbo usado aqui como kãlã’, “restringir”, faz melhor sentido se lido como kãlãh, “terminar, completar”. (É razoável inferir que o conhecimento que Daniel tinha do aramaico pode ter influenciado o seu hebraico. No aramaico, uma letra final aleph(‘) e um hé (h) final pode alternar-se).

            A palavra usada para “transgressão” ou “rebelião” (pesa’) carrega a conotação particular de pecado como rebelião contra Deus. Pode ser traduzida de forma livre, porém mais diretamente como “revolta, rebelião”. O artigo definido (“a”) é empregado com esse termo, mas não é usado com os cinco objetos nominais seguintes desse versículo. Esse uso do artigo enfatiza a transgressão e a rebelião dos judeus.

            Jerusalém foi destruída e estava desolada – nessa época, Daniel orou (9:1-21) – por causa da rebelião do povo de Judá. Essa era uma rebelião tanto contra Nabucodonosor, seu suserano terreno, contra Deus e os profetas que Ele lhes enviou. Portanto, essa frase profética os advertiu a não seguir um curso semelhante de ação no futuro. Assim, a frase de abertura da profecia delimita um período de provação durante o qual o povo de Deus é chamado para manifestar sua lealdade e não sua rebeldia para com Ele. Como em Deuteronômio, dois cursos de ação são colocados diante deles, e eles foram exortados a seguir o curso positivo.

  1. “Para dar fim aos pecados.”

            Uma forma do verbo hãtam (“selar”) aparece nessa declaração central dos primeiros três infinitivos do versículo. Ele é equilibrado pelo mesmo verbo na declaração central do segundo grupo de três infinitivos no mesmo versículo. Nas conjugações derivadas, “dar fim” significa geralmente “para, fechar, completar, trazer ao fim”. Esses significados ampliados fornecem melhor sentido aqui. A palavra hebraica para pecado nesse caso (hattã’t) é o tipo comum de pecado – “falhar”. É usada no plural e sem o artigo, que significa que se refere a pecados em geral e não a ofertas de pecado.

            Essa declaração profética impunha aos residentes de Judá o dever de trazer um fim ao estado pecaminoso de sua sociedade. Assim como essa profecia mais tarde indica que eles reconstruiriam a cidade de Jerusalém, eles também construiriam uma sociedade justa – não rebelde ou pecaminosa – para viver nessa cidade. Essa declaração, e a anterior, apontam as responsabilidades dos judeus, o que eles deveriam cumprir dentro do período de tempo profético designado. Porém, quando o Messias finalmente veio no tempo determinado pela profecia, eles infelizmente não haviam cumprido sua responsabilidade em desenvolver esse tipo de sociedade.

Santuário desenhado II

  1. “Para expiar a iniquidade.”

            A palavra usada para “expiar” nessa frase é “kipper”, o termo comumente usado na ‘Bíblia Hebraica’, (Velho Testamento), para essa atividade. “Iniquidade” pode ser definida de forma ampla incluindo toda “pecaminosidade”. O serviço do tabernáculo, o primeiro e o segundo templo exigiam um contínuo ciclo de sacrifícios expiatórios, mas a atividade ritualística não parece satisfazer as exigências dessa declaração profética.

            O que é predito na profecia se ajusta melhor a um sacrifício expiatório final e definitivo que muito transcende o que poderia ser realizado pelo repetitivo ciclo de sacrifícios do templo. A ‘B’rit Hadashah, (Novo Testamento),  nos informa que esse sacrifício expiatório definitivo foi feito por Jesus Cristo quando Ele morreu na cruz. Ele pode também ser identificado como o Messias que havia de vir e morrer no tempo determinado por essa profecia. Sua vida foi dada então “para expiar a iniquidade” como foi predito.

  1. “Para trazer a justiça eterna.”

            “Trazer” ou “apresentar” é uma forma hebraica causativa do ver bô’ (“vir”). O sentido é que a “justiça” é apresentada. Sedeq ou “justiça” é um substantivo singular que se relaciona com a forma plural de ‘ôlãm, “era eterna”. Essa frase é traduzida literalmente como “trazer justiça de eras”. A ausência do artigo não tem importância. As eras envolvidas obviamente são as eras porvir.

            Essa frase sobre a justiça eterna vem logo depois da frase sobre a expiação que seria feita. Dada a relação, parece razoável ver a justiça eterna como um resultado que vem da expiação. É a expiação de Cristo na cruz que trouxe essa justiça por eras e eras porvir.

            Até aqui, no versículo 24, vimos que suas duas primeiras frases se referem às responsabilidades que foram incumbidas ao povo de Deus. As duas frases seguintes se referem às atividades que o próprio Deus iria desempenhar. As duas últimas frases desse versículo se referem às consequências que resultariam dessas ações de Deus e de Seu povo.

selo judaico mostrando um homem lutando com um leão, possivelmente Sansão.

  1. “Para selar a visão e a profecia.”                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          O verbo “selar” (hãtãm) é o mesmo que ocorre três frases antes nesse versículo. Três significados  parecem possíveis para ele aqui: (1) validar ou autenticar; (2) fechar (até uma abertura posterior), ou (3) trazer a um fim.

            Se o segundo objeto do infinitivo (“selar”)  fosse “profecia”, qualquer um dos dois primeiros significados seria preferível. No entanto, seus objetos são “visão” (hãzôn) e “profeta” (nãbî), não “profecia”. Uma vez que a segunda palavra ocorre sem o artigo, ela provavelmente se refere a “profeta” num sentido coletivo.

            O terceiro desses significados (“fazer cessar”) faz melhor sentido nessa frase se for aplicado a profetas como pessoas, em vez de as suas palavras. Esse sentido é apoiado pelo fato de que é o mesmo que seu paralelo, usado antes no versículo (selar/dar fim aos pecados). Portanto, no que diz respeito ao povo de Daniel e sua santa cidade, “visão” e “profeta” devem findar no tempo em que esse período profético terminar.

            Quando isso aconteceu e o que isso significa? Visto que os eventos finais dessa profecia parecem se estender metade de uma semana profética ou três anos e meio além da morte do Messias, devemos olhar na B’rit Hadashah (NT) para uma resposta. Consequentemente, os intérpretes (…) têm geralmente examinado os primeiros capítulos no livro de Atos para encontrar um evento que seja importante o suficiente par marcar o final das 70 semanas. O acontecimento comumente escolhido é o apedrejamento de Estevão (At 6:12-7:60).

            O que há de tão importante no apedrejamento de Estevão?  Por que esse martírio é mais importante do que os sofridos por outros naquela época?  Porque é um martírio e não outro tipo de acontecimento tão importante a ponto de demarcar o final desse período profético? Quando esse evento é avaliado em termos de experiências dos profetas do Tanach (AT), vários aspectos podem ser vistos como grandemente significativos nessa relação.

 Jesus Glorificado

            1 – O primeiro aspecto importante tem a ver com a visão de Estevão da corte celestial. Quando Estevão terminou seu discurso perante os membros os membros enraivecidos do Sinédrio, ele, “cheio do Espírito Santo, (Ruach HaKodesh) fitou os olhos no céu e viu a glória, (Shekinah) de Deus e Jesus, que estava à sua direita” (At 7:55). Ele anunciou isso aos ouvintes, que, por sua vez, o lançaram fora da cidade e o apedrejaram até a morte.

            Quando o Espírito Santo veio sobre Estevão, foi-lhe dada uma visão do Céu. Por definição, Estevão tornou-se um profeta nesse momento, pois é a profetas que Deus dá visões de Si como essas. Para citar um paralelo, pode-se observar a experiência Micaías, filho de Inlá (IRs 22). Perante Acabe, Micaías olhou para as cortes celestiais e viu o Senhor assentado no seu trono e todo o Seu exército celeste junto a Ele. Desta corte celestial é pronunciada a sentença sobre Acabe. O profeta serve como mensageiro da corte celestial que traz a sentença ao rei. Em virtude de sua conexão coma mesma corte celestial, Estevão fica numa posição similar nesse episódio em Atos.

            2 – O segundo aspecto importante tem a ver coma natureza do discurso de Estevão, que deve ser entendido em conexão com a aliança do Tanach (VT). Estudos nos últimos anos têm identificado cinco seções principais do padrão de uma aliança:

  1. O preâmbulo que identifica o suserano que fez a aliança.
  2. O prólogo que recitava relações históricas passadas entre o suserano e os vassalos.
  3. As estipulações da aliança.
  4. A testemunha da aliança.
  5. As bênçãos e maldições para obediência ou violação da aliança.

            Quando os profetas vieram como reformadores chamar Israel de volta para a aliança do Sinai, eles o fizeram aplicando o padrão da aliança a situações comuns de sua época. Para um bom exemplo disso, veja Miqueias 6.

            Ao fazer esse chamado ao povo, os profetas traziam-lhe o que em hebraico é conhecido como um rîb ou “causa (controvérsia) da aliança” (a palavra aparece três vezes em Miqueias 6:1-2). Como uma introdução à sua indicação, o profeta cita os atos poderosos de Deus em favor de Seu povo no passado (cf. Mq 6:3-5). Essa parte do rîb ou “causa da aliança” se compara à seção do prólogo da aliança original (a descrição do relacionamento histórico passado entre governante e governados).

            O discurso de Estevão (At 7) que começou com Abraão e terminou com Salomão se assemelha com a “causa da aliança”. Ao olhar para essa experiência com os olhos dos profetas, podemos ver esse episódio como outro exemplo em que o profeta cheio do Espírito traz a causa da aliança de Deus ou rib contra os representantes de sua comunidade da aliança.

apedrejamento

            Se considerarmos Estevão um profeta mensageiro da corte celestial que traz a causa da aliança de Deus ao seu povo (em continuidade aos profetas), sua morte carrega muito mais significado teológico. Ele não é um mártir comum. Podemos agora olhar para esse evento de grande importância em termos da previsão de 9:24 sobre selar a visão e o profeta.

Setenta Shabu'im Daniel 9 24 a 27

            Estevão é o último profeta a falar ao povo judeu da Judéia com o povo eleito de Deus, mas sua voz é silenciada na morte pelo apedrejamento. Ao silenciá-lo, também silenciam a voz profética dirigida a eles com um propósito. As palavras e obras dos demais profetas são mencionados na B’rit Hadashah (NT) (At 41:28;21:19; ICo 14; Ap 1:1), mas a diferença é que esses profetas podem ser identificados como profetas que falam ‘a nova comunidade que se forma’.

            No que diz respeito ao povo de Daniel, “visão” e “profeta” foram selados ou trazidos a um fim com a rejeição desse último profeta enviado a eles de acordo com Atos 7. Como indicado no debate cronológico abaixo, a morte de Estevão também foi importante porque aconteceu no ano em que a profecia das 70 semanas chegou ao fim: 34 d.C. Pouco depois, Paulo foi chamado  (por uma visão na estrada de Damasco) para ser um ‘emissário aos goin’s, (At 9), e Pedro foi instruído (também em visão) quanto à aceitação dos gentios na irmandade (At 10).

  1. “Para ungir o Santo dos Santos.”

            A frase hebraica traduzida como “Santo dos Santos” é qõdes qodãsim. Uma interpretação dessa declaração (defendida desde os dias dos primeiros pais da Igreja) a tem aplicado à unção de Jesus Cristo como o Messias. Porém, essa interpretação é contrário à maneira como qõdes qodãsim (“Santo dos Santos, santíssimo”) é empregada na ‘Bíblia Hebraica’. Fora do livro de Daniel, essa frase ocorre mais de 40 vezes no Tanach. Em todos os casos, refere-se ao santuário ou a algo ligado a ele. (A única possível exceção é I Crônicas 23:13, mas é discutível. Parece-me que mesmo nessa passagem a expressão também se refere ao santuário).

            Se o “Santo dos Santos” mencionado no versículo 24 deve estar ligado ao santuário, surge a pergunta: que santuário? Não poderia ser o tabernáculo ou templo de Salomão. Quando essa profecia foi dada ambos já eram história passada.  Não poderia ser o segundo templo construído em Jerusalém. Esse templo foi dedicado para o uso no término de sua construção em 515 a.C. (Ed 6:15-18), muito antes da vinda do Messias predito nessa profecia. Por eliminação, as possíveis aplicações desse objeto “Santo dos Santos” foram reduzidas a uma: o santuário celestial, mencionado principalmente nos livros de Hebreus e Apocalipse.

            Templos foram ungidos para inaugurar seus serviços (cf. Êx 40:9ss). A unção predita nesse versículo (9:24) mais naturalmente aponta para a inauguração do ministério sacerdotal  do ‘Mashiach’ no templo celestial em seguida à sua ascensão (Hb 9:21-24). A interpretação dessa frase como sendo o santuário é importante porque ela liga a profecia ao campo celestial.

Resumo

            O versículo 24 funciona como uma recapitulação introdutória da profecia. Suas seis declarações infinitivas descrevem o que estava para ser cumprido pelo e para o povo de Deus na Palestina por volta do final das 70 semanas proféticas ou 490 anos. As primeiras duas declarações descrevem o que o povo de Deus deveria cumprir: desenvolver uma sociedade justa. As duas segundas declarações descrevem dois aspectos de uma tarefa que Deus assumiu: providenciar uma expiação final que traria justiça eterna.

            As duas últimas sentenças descrevem dois efeitos proeminentes que resultariam dessas ações. No primeiro caso, a falha do povo de Deus em desenvolver uma sociedade justa que Ele desejava, resultaria no selamento ou silenciamento da voz profética para eles. No segundo caso, a expiação provida resultaria num novo ministério sumo sacerdotal do ‘Mashiach’ no santuário celestial. A partir desse resumo mais específicos esboçados nos seguintes versículos (v. 24-27). O versículo 25 naturalmente se divide em quatro partes.

ESTA EXEGESE CONTINUA NO VERSO 25…

Autor: William H. Shea – Setenta Semanas – Levítico e a Natureza da Profecia – págs. 50-55 – Editor Frank B. Holbrook – UNASPRESS – 2010.

Obs. Certos termos foram adaptados para o contexto da Herança Judaica.

 

 

 

           

           

 

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