Daniel 9:24-27 Exegese do Versículo 25


  1. “Desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém.”

Jerusalém Cidade

            Esse evento é de especial importância porque fixa o tempo para o início das 70 semanas. Todos os cálculos subsequentes de datas para as subdivisões da profecia devem ser medidos a partir desse ponto de início. Visto que a reconstrução de Jerusalém ocorreu como resultado de um decreto emitido por um rei persa, esse decreto pode logicamente ser considerado como a “ordem” mencionada aqui.

            A pergunta então é: que decreto de que rei persa cumpre a profecia? A questão se complica pelo fato de haver quatro “decretos” diferentes, que tratam do retorno dos exilados e da reconstrução do templo e da cidade, nos livros de Esdras e de Neemias. Um desses deve ser selecionado como o ponto inicial, mas qual?

            O problema de se determinar qual decreto persa é indicado aqui é simplificado  pelo fato de que esses decretos e os acontecimentos que os sucederam ocorrem em dois ciclos básicos. O primeiro ciclo tem a ver com o templo. O segundo tem a ver com a cidade. Observe o seguinte esboço:

1º   –   Ciclo um: O Templo.

FASE 1.

  • Do início à suspensão da obra, 538-536 a. C.
  • O primeiro retorno, Esdras 1-2.
  • O templo foi fundado, Esdras 3.
  • Surge a oposição, Esdras 4:1-4.
  • A construção é suspensa, Esdras 4:4-5, 24.

 FASE 2.

  • Da suspensão à conclusão, 521-516 a.C.
  • Atividade retomada, Esdras 5:1-2.
  • Investigação oficial, Esdras 5:3-6:5.
  • Aprovação oficial, Esdras 6:6-13.
  • Conclusão da obra, Esdras 6:14-15.
  • Celebração da conclusão, Esdras 6:16-22.

2º  –  Ciclo dois: A Cidade.

FASE 1.

  • Do início à suspensão da obra, desde 457 a.C.
  • O segundo retorno, Esdras 7-8.
  • Atraso: casamentos estrangeiros, Esdras 9-10.
  • A cidade fundada, Esdras 4:12-13
  • Surge a oposição, Esdras 4:14-15, Ne 1:1-3.
  • A construção é suspensa, Esdras 4:17-23.

FASE 2.

  • Da suspensão à conclusão, 444 a.C.
  • Retorno de Neemias, Ne 1-2.
  • Atividade retomada, Ne 3.
  • Oposição retomada, Ne 4.
  • Atraso: reformas sociais, Ne 5)
  • Oposição contínua, Ne 6:1-14.
  • Muros acabados, Ne 6:15-16.
  • Exilados que voltaram, Ne 7=Esdras 2.
  • Celebração da conclusão, Ne 8-10.

 

            A declaração em 9:25 tem a ver com o decreto que resultou na reconstrução da cidade de Jerusalém, não apenas do templo. Portanto, os dois decretos apresentados na primeira metade deste esboço podem ser omitidos a partir de considerações adicionais, pois tratam apenas da reconstrução do templo.

            Um templo não faz uma cidade. Essa máxima pode ser ilustrada por exemplos arqueológicos tais como o templo no monte Gerizim e o templo encontrado quando o aeroporto de Amã foi expandido. Nenhuma cidade ou vila foi encontrada imediatamente adjacente a esses templos isolados. Assim, os dois decretos de Artaxerxes I são os únicos que podem cumprir as especificações da profecia.

            Esdras e seus colegas foram as pessoas que primeiramente começaram a reconstruir Jerusalém. Isso é revelado pelo conteúdo da carta dos governadores ocidentais a Artaxerxes I. Veja Esdras 4:7-16. “Os judeus que subiram de ti vieram a nós a Jerusalém. Eles estão edificando aquela rebelde e malvada cidade e vão reparando os seus muros e reparando os seus fundamentos” (v. 12). O propósito dessa carta era que o rei autorizasse uma interrupção desse projeto, e foi o que ele fez. Quando os governadores receberam sua resposta, “foram eles apressadamente aos judeus, e, de mão armada, os forçaram a parar com a obra” (v.23).

profeta II

            É evidente que esse episódio ocorreu antes da chegada de Neemias, uma vez que ele teve êxito em reparar os muros da cidade a despeito da oposição. Que  grupo de judeus voltou a Jerusalém durante o reinado de Artaxerxes, mas antes da época de Neemias? Esdras 8 dá a resposta listando os 1.754 homens que voltaram a Jerusalém com Esdras 13 anos antes da missão de Neemias ali.

            A conclusão lógica dessas correlações é a de que Esdras e os homens que voltaram com ele foram os que condiram os primeiros esforços para reconstruir a cidade de Jerusalém. Suas atividades foram reportadas na carta dos governadores. Uma vez que o retorno de Esdras e os acontecimentos que se seguiram ocorreram como resultado do decreto que Artaxerxes lhe deu (Ed 7), esse decreto deveria ser considerado como o que cumpre as exigências da profecia (9:25).

            A Neemias, na verdade, não foi dado um decreto oficial como o emitido a Esdras. A ele foram dadas cartas de autorização para permitir-lhe passar pelos territórios ocidentais e requerer os materiais de que precisasse para o projeto (Ne 2:7-9). O trabalho de Neemias foi complementar o de Esdras. Ele completou em 52 dias a reconstrução na qual Esdras trabalhou, mas foi forçado a parar (Ne 6:15).

            Portanto, nesse caso, deve-se dar prioridade ao decreto de Esdras, pois esse foi o decreto com o qual todo esse processo ou ciclo começou. O de Esdras foi o decreto mais oficial. Neemias apenas completou o trabalho que Esdras há havia iniciado.

            Varias perguntas surgem nesse ponto.

            A primeira é: por que Esdras começou a reconstruir a cidade quando o decreto dado a ele não menciona isso de forma explicita (Ed 7)? Aqui podemos citar apenas as possibilidades:

  1. Foi-lhe dada permissão oral junto com o decreto para reconstruir a cidade.
  2. Outro decreto escrito suplementar (não registrado na Bíblia) transmitia tal autorização. Para um possível paralelo aqui, compare as diferenças presentes nos decretos de Ciro em Esdras 1:2 e 6:3-5.
  3. Esdras entendeu que a autorização para construir estava dentro dos limites do que foi combinado com ele no decreto.

            A falta de informações bíblicas adicionais sobre esse ponto nos impede de limitar essas possibilidades ainda mais. Podemos apenas observar o que ocorreu na história: Esdras realmente começou a construir a cidade de acordo com a evidência de Esdras 4.

            A segunda pergunta é: por que o decreto aparece em Esdras 7 quando a reconstrução é mencionada em Esdras 4? O livro de Esdras não está organizado de forma estritamente cronológica. Isso é especialmente verdade no que tange ao conteúdo do capítulo 4. Seu propósito era registrar os esforços contínuos dos inimigos dos judeus em se opor à reconstrução do templo e da cidade.

            O conteúdo do capítulo 4 não está em estrita ordem cronológica. Ele foi reunido aqui porque se ajusta tematicamente. Porém, sua relação cronológica ainda está clara, porque os nomes dos diferentes reis persas estão presentes com eles.

Artaxerxes_I_of_Persia

            A pergunta final é: se Artaxerxes deu permissão para a reconstrução de Jerusalém com o decreto para Esdras, não parece um tanto caprichoso e arbitrário ter voltado atrás com a carta para o governador (Ed 4)?

            A resposta para essa pergunta é sim. Ele parece ser caprichoso nesse caso, mas esse não é o único caso em que Artaxerxes I agiu de modo arbitrário.

            A falta de consistência em seu caráter é ilustrada pelo modo como lidou com o caso de Irineu, o rebelde do Egito. Ele foi capturado e levado à capital persa. Ele tinha recebido a palavra do general persa de que lhe seria permitido viver e Artaxerxes honrou essa palavra por um momento. Mas quando a rainha-mãe Amestris o convenceu, ele fraquejou e executou Irineu. O capricho de Artaxerxes, refletido no livro de Esdras, é uma atitude um tanto condizente com seu caráter.

            Dessa discussão conclui-se que o decreto ou ordem que foi emitido para a restauração e reconstrução  de Jerusalém,  conforme especificado em Daniel 9:25, encontra seu cumprimento no decreto emitido por Artaxerxes I para Esdras no sétimo ano de seu reinado. Esse decreto nos fornece o ponto inicial para as 70 semanas. A data de 457 a.C. para esse ano é discutida abaixo na seção cronológica.

Mashiach

  1. “até o Messias (o) Príncipe” (tradução do autor).

            O final do período mencionado a seguir é assinalado pelo surgimento dessa Pessoa que é descrita por dois títulos que estão lado a lado e são traduzidos literalmente como, “um ungido (Messias), um príncipe (Mashiach nãgîd)”. A ausência do artigo definido (“o”) com ambos os termos no versículo 25 e com a palavra “Messias” no versículo 26 tem sido enfatizada por alguns como um fator que minimiza o significado messiânico dessa passagem. Essa ausência não parece tão importante quando comparada com casos semelhantes em Daniel onde um artigo esperado não aparece no texto. A forma da passagem é poética e o artigo era usado com menos frequência em poesia. O hebraico de Daniel pode também ser sido influenciado pelo artigo pospositivo de seu aramaico.

            Não há verbo nessa frase preposicional. Sendo assim, é razoável considerar a unção real do Príncipe como o evento até o que qual esse período de tempo deve se estender, em vez de algum outro acontecimento de sua vida. Profetas, sacerdotes e reis foram ungidos no momento de sua ascensão ao cargo na época do Tanach (VT) (I Reis 19:16; Êx 30:30; I Sam. 9:16). Algo diferente é previsto aqui porque seu título é o de um príncipe e porque sua obra, como descrita nas declarações seguintes dessa profecia, transcende a obra de profetas, sacerdotes e reis comuns.

            Na história, essa frase foi cumprida com a identificação de Yeshua (Jesus) como o Messias na época de seu batismo no Jordão e sua unção pelo Espírito em 27 d.C. essa data é discutida na seção cronológica abaixo. A palavra hebraica usada para “príncipe” (nãgîd) é importante devido às suas relações com 9:26b e 11:22, as únicas outras passagens em Daniel onde esse título específico aparece.

Semana de anos II

  1. “Haverá sete semanas e sessenta e duas semanas” (tradução do autor)

            Um problema de tradução introduzido com esses períodos de tempo. Devem as sete semanas estar conectadas com a reconstrução de Jerusalém e as 62 semanas com a vinda do Messias, ou vice-versa? Seguindo a pontuação dos massoretas algumas traduções e comentários modernos têm relacionado a vinda do Messias com as sete semanas e a reconstrução de Jerusalém com as 62 semanas. A LXX, por outro lado, traduziu essas frases em ordem contrária. Tratei problema na primavera de 1980 (vol. 18, nº1), edição da Andrews University Seminary Studies, páginas 59-63. (1)

            Minha opinião é a de que esse problema pode ser solucionado de modo mais direto ao se observar que essa passagem foi escrita em forma de poesia e analisar sua estrutura. Nas linhas abaixo, apresento uma parte de tal análise, primeiramente das consoantes hebraicas e então em português.

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            O que temos aqui, de acordo com essa análise, produz um arranjo A:B: :A:B: :A:B:  no qual os mesmos itens descritos tratam do mesmo assunto. Isso pode ser observado acima e no seguinte resumo:

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            Essa análise poética exclui a pontuação massorética e as versões modernas (RSV, NEB, AB) que a seguem. Essas versões constroem a frase de modo a significar que o Messias deveria vir ao final do período de sete semanas (“até a vinda de um ungido, um príncipe, haver sete semanas”, (RSV). Por outro lado, a análise confirma as versões antigas (Septuaginta, Teodócio, Vulgata, Siríaca) e traduções que as seguem (KJV, ASV, NASB, NIV, MLB,JB). Essas entendem que a fraseologia indica que o Messias deveria vir ao final da segunda divisão ou 62 semanas da profecia (a profecia das 70 semanas tem três divisões: 7 + 62 + 1 = 70).

            Para mais detalhes sobre esse assunto veja J. Doukhan, “The Seventy Weeks of Daniel 9: An Exegetical Study” (As Setenta Semanas de Daniel 9: Um Estudo Exegético. (2)

ruinas 2

  1. “Será reconstruída novamente, praça e vala, mas em tempos tumultuosos” (tradução do autor).

            Ao aplicar o principio dia-ano às sete semanas dessa primeira divisão, estendemos 49 anos (7 semanas x 7 dias = 49 dias/anos) desde 457 a.C. a 408 a.C. Não há disponível nenhuma fonte bíblica ou histórica extra bíblica contemporânea para nos dizer se a reconstrução da cidade foi ou não concluída nessa época.  Isso não significa (de um ponto de vista puramente histórico) que essa especificação da profecia não tenha sido cumprida. Nós simplesmente não temos informação. Porém, sabemos de Esdras e de Neemias que a cidade foi realmente reconstruída em tempos angustiosos ( Ed 4; Ne 4,6).

Setenta Shabu'im Daniel 9 24 a 27

Autor: William H. Shea – Setenta Semanas – Levítico e a Natureza da Profecia – págs. 55-61, Editor Frank B. Holbrook, UNASPRESS, 2010.

NOTAS:

1 – Reimpresso em The Sanctuary and the atonement, eds. Arnold V. Wallenkampf e W. Richard Lesher (Washington, D.C., 1981), p. 251-276.

2 – AUSS 17 (1979): 1-22: reimpresso em: The Sanctuary and the atonement, p. 251-276.

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