O Decreto de Reconstrução de Jerusalém – Artigo 5 – Contexto Histórico do ano 457 a.C. – Esdras, o Sacerdote e Escriba


    Cerca de setenta anos após o retorno do primeiro grupo de exilados sob a liderança de Zorobabel e Josué, Artaxerxes Longímano subiu ao trono da Medo-Pérsia. O nome deste rei está em relação com a História Sagrada por uma série de importantes providências. Foi durante o seu reinado que Esdras e Neemias viveram e trabalharam. Ele foi quem em 457 a.C. baixou o terceiro e final decreto para a restauração de Jerusalém. Seu reinado viu o retorno de um grupo de judeus sob Esdras, a conclusão dos muros de Jerusalém por Neemias e seus companheiros, a reorganização das cerimônias do templo e as grandes reformas religiosas instituídas por Esdras e Neemias. Durante seu longo reinado ele não raro mostrou favor ao povo de Deus; e em seus estimados amigos judeus merecedores de sua confiança, Esdras e Neemias, ele reconhecia homens indicados por Deus, despertados para uma obra especial. 

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    A experiência de Esdras enquanto vivia entre os judeus que permaneceram em Babilônia, foi tão excepcional que atraiu a favorável atenção do rei Artaxerxes, com quem ele falou livremente com respeito ao poder do Deus do Céu, e o propósito divino de fazer voltar os judeus para Jerusalém.  

    Descendente dos filhos de Arão, Esdras havia recebido a educação sacerdotal; e em acréscimo a isto adquiriu familiaridade com os escritos dos magos, astrólogos e sábios do reino medo-persa. Mas não se sentiu satisfeito com sua condição espiritual. Suspirava por estar em plena harmonia com Deus; ansiava sabedoria para fazer a vontade divina. E assim preparou “o seu coração para buscar a lei do Senhor e para a cumprir”. Esd. 7:10. Isto o levou a aplicar-se diligentemente ao estudo da história do povo de Deus, como se encontra relatado nos escritos dos profetas e reis. Ele estudou os livros históricos e poéticos da Bíblia, a fim de compreender por que tinha o Senhor permitido que Jerusalém fosse destruída e seu povo levado cativo a terras pagãs. 

Sacerdote 1

    Esdras deu especial atenção às experiências de Israel desde o tempo em que a promessa foi feita a Abraão. Ele estudou a instrução dada no Monte Sinai, e através do longo período da peregrinação no deserto. Ao aprender mais e mais sobre o trato de Deus com Seus filhos, e compreender a santidade da lei dada no Sinai, o coração de Esdras foi tocado. Ele experimentou uma nova e completa conversão, e se determinou dominar os registros da História Sagrada, para que pudesse usar esse conhecimento de molde a levar bênção e luz ao seu povo. 

    Esdras procurou alcançar preparo de coração para a obra que cria ter diante de si. Ele procurou a Deus ferventemente, para que pudesse ser sábio mestre em Israel. À medida que aprendia a render a mente e a vontade ao divino controle, eram levados ao início de sua vida os princípios da verdadeira santificação que, nos últimos anos, tiveram modeladora influência, não somente sobre os jovens que buscavam sua instrução, mas sobre todos os que se associavam com ele. 

    Deus escolheu Esdras para ser um instrumento do bem para Israel, a fim de que pudesse levar honra ao sacerdócio, cuja glória tinha sido grandemente eclipsada durante o cativeiro. Esdras se desenvolveu num homem de extraordinária erudição, e tornou-se “escriba hábil na lei de Moisés”. Esd. 7:6. Essas qualificações tornaram-no um homem eminente no reino da Medo-Pérsia. 

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    Esdras tornou-se um porta-voz de Deus, educando nos princípios do governo do Céu aqueles que lhe estavam ao redor. Durante os anos restantes de sua vida, estivesse próximo à corte do rei da Medo-Pérsia ou em Jerusalém, sua principal tarefa era a de professor. Enquanto comunicava a outros a verdade que aprendia, sua capacidade para o trabalho aumentava. Ele se tornou um homem de piedade e zelo. Foi testemunha do Senhor ao mundo quanto ao poder da verdade para enobrecer a vida diária. 

    Os esforços de Esdras para reavivar o interesse no estudo das Escrituras receberam forma permanente, graças ao seu laborioso e constante esforço no sentido de preservar e multiplicar os Sagrados Escritos. Ele reuniu todos os exemplares da lei que pôde encontrar, mandando-os transcrever e distribuir. A Palavra pura, assim multiplicada e posta nas mãos de muitos, proveu o conhecimento que era de inestimável valor. 

    A fé que Esdras possuía de que Deus haveria de fazer uma poderosa obra por Seu povo, levou-o a falar a Artaxerxes do seu desejo de retornar a Jerusalém, a fim de reavivar o interesse no estudo da Palavra de Deus, e assistir seus irmãos na restauração da cidade santa. Como Esdras declarasse sua perfeita confiança no Deus de Israel como abundantemente capaz de proteger e cuidar de Seu povo, o rei ficou profundamente impressionado. Ele bem compreendeu que os israelitas estavam retornando a Jerusalém para que pudessem servir a Jeová; contudo, era tão grande a confiança do rei na integridade de Esdras, que lhe mostrou marcado favor, aceitando o seu pedido, e outorgando-lhe ricos dons para o serviço do templo. Ele o tornou um especial representante do reino medo-persa, e conferiu-lhe extensivos poderes para que pusesse em prática os propósitos que tinha em seu coração.  

Setenta Shabu'im Daniel 9 24 a 27

    O decreto de Artaxerxes Longímano para a restauração e reedificação de Jerusalém, o terceiro desde a terminação dos setenta anos do cativeiro, é notável por suas expressões referentes ao Deus do Céu, por seu reconhecimento das realizações de Esdras e a liberalidade das concessões feitas ao remanescente povo de Deus. Artaxerxes se refere a Esdras como “o sacerdote Esdras, o escriba das palavras dos mandamentos do Senhor, e dos Seus estatutos sobre Israel”; “escriba da lei do Deus dos Céus”. O rei uniu-se com seus conselheiros em oferecer livremente “ao Deus de Israel, cuja habitação está em Jerusalém”; e em acréscimo, tomou providência no sentido de se enfrentar as muitas despesas pesadas ordenando que fossem pagas “da casa dos tesouros do rei”. Esd. 7:11, 12, 15 e 20. 

    “Da parte do rei e dos seus sete conselheiros és mandado”, declarou Artaxerxes a Esdras, “para fazeres inquirição em Judá e em Jerusalém, conforme a lei do teu Deus, que está na tua mão.” E mais tarde decretou: “Tudo quanto se ordenar, segundo o mandado do Deus do Céu, prontamente se faça para a casa do Deus do Céu; porque, para que haveria grande ira sobre o reino do rei e de seus filhos?” Esd. 7:14 e 23. 

    Ao dar permissão para os israelitas voltarem, Artaxerxes providenciou a restauração dos membros do sacerdócio a seus antigos ritos e privilégios. “Também vos fazemos saber acerca de todos os sacerdotes e levitas, cantores, porteiros, netinins, e ministros desta casa de Deus”, ele declarou, “que se lhes não possa impor, nem direito, nem antigo tributo, nem renda.” E tomou providências também para que fossem indicados funcionários civis para governar o povo legitimamente, de acordo com o código judaico de leis. “Tu, Esdras, conforme a sabedoria do teu Deus, que está na tua mão”, ele ordenou, “põe regedores e juízes, que julguem a todo o povo que está dalém do rio, a todos os que sabem as leis do teu Deus, e ao que as não sabe as fareis saber. E todo aquele que não observar a lei do teu Deus e a lei do rei, logo se faça justiça dele: quer seja morte, quer degredo, quer multa sobre os seus bens, quer prisão.” Esd. 7:24-26. 

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    Assim, “segundo a boa mão do seu Deus sobre ele”, Esdras persuadiu o rei a fazer abundante provisão para o retorno de todo o povo de Israel, e dos sacerdotes e levitas, no domínio medo-persa que, espontaneamente “quiser ir contigo a Jerusalém, vá”. Esd. 7:9 e 13. Assim outra vez foi dada oportunidade aos filhos da dispersão para voltarem à terra cuja posse estava vinculada às promessas à casa de Israel. Este decreto levou grande alegria aos que estiveram unidos com Esdras no estudo dos propósitos de Deus concernentes a Seu povo. “Bendito seja o Senhor Deus de nossos pais”, Esdras exclamou, “que tal inspirou ao coração do rei, para ornarmos a casa do Senhor, que está em Jerusalém; e que estendeu para mim a Sua beneficência perante o rei e os seus conselheiros e todos os príncipes poderosos do rei.” Esd. 7:27 e 28. 

    Na promulgação deste decreto por Artaxerxes, foi manifestas a providência de Deus. Alguns discerniram isto, e alegremente tiraram vantagem do privilégio de voltar sob circunstâncias tão favoráveis. Foi designado um lugar geral para reunião; e no tempo apontado, os que estavam desejosos de ir à Jerusalém se reuniram para a longa viagem. “E ajuntei-os perto do rio que vai a Aava”, diz Esdras, “e ficamos ali acampados três dias.” Esd. 8:15. 

Jerusalém - decreto de reconstrução

    Esdras havia esperado que um grande número retornasse a Jerusalém, mas o número dos que responderam ao chamado era desapontadoramente pequeno. Muitos que haviam adquirido casas e terras não tinham desejo de sacrificar essas posses. Eles amavam a tranquilidade e o conforto, e sentiam-se satisfeitos por permanecer. Seu exemplo provou-se um embaraço a outros que de outra forma teriam escolhido lançar a sorte com os que estavam avançando pela fé. 

    Esdras, ao olhar o grupo reunido, ficou surpreso por não ver entre eles nenhum dos filhos de Levi. Onde estavam os membros da tribo que tinha sido posta de lado para o sagrado serviço do templo? Ao chamado: Quem está do lado do Senhor, os levitas deviam ter sido os primeiros a responder. Durante o cativeiro, como também depois, tinham-se-lhes concedido muitos privilégios. Eles haviam desfrutado a mais plena liberdade para ministrar às necessidades espirituais de seus irmãos no exílio. Sinagogas tinham sido construídas, nas quais os sacerdotes dirigiam o culto de Deus, e instruíam o povo. A observância do sábado, e a prática dos sagrados ritos peculiares à fé judaica, tinham sido permitidos livremente. 

    Mas com o passar dos anos depois do cativeiro, as condições mudaram, e muitas responsabilidades novas repousaram sobre os líderes de Israel. O templo de Jerusalém tinha sido reconstruído e dedicado, e mais sacerdotes eram necessários para a realização de suas cerimônias. Havia urgente necessidade de homens de Deus para atuar como ensinadores do povo. Demais disto, os judeus que permanecessem em Babilônia corriam o perigo de ter restringida sua liberdade religiosa. Por intermédio do profeta Zacarias, bem como pela recente experiência nos momentosos dias de Ester e Mardoqueu, os judeus na Medo-Pérsia tinham sido claramente advertidos a voltar para a sua própria terra. Chegara o tempo em que seria perigoso para eles a permanência por mais tempo no meio de influências pagãs. Em vista dessas condições modificadas, os sacerdotes em Babilônia deviam ter sido ligeiros em discernir na promulgação do decreto um chamado especial a eles para que retornassem para Jerusalém.  

Levita e Sacerdote

    O rei e os príncipes tinham feito mais que sua parte em abrir o caminho para o retorno. Tinham provido abundantes meios; mas onde estavam os homens? Os filhos de Levi falharam no momento em que a influência de uma decisão de acompanhar seus irmãos teria levado outros a seguir-lhes o exemplo. Sua estranha indiferença é uma triste revelação da atitude dos israelitas em Babilônia em relação aos propósitos de Deus por Seu povo. 

    Uma vez mais Esdras apelou aos levitas, enviando-lhes um urgente convite para se unirem com o seu grupo. Para dar ênfase à importância de rápida ação, ele enviou com o seu apelo escrito vários dos seus “chefes” (Esd. 7:28) e “sábios”. Esd. 8:16. 

    Enquanto os viajantes ficaram com Esdras, esses acreditados mensageiros retornaram depressa com o apelo para que “trouxessem ministros para a casa de Deus”. Esd. 8:17. O apelo foi ouvido; alguns que estavam vacilantes, fizeram afinal a decisão de retornar. Ao todo, cerca de quarenta sacerdotes e duzentos e vinte netinins – homens em quem Esdras podia confiar como sábios ministros e bons mestres e ajudadores – foram levados ao acampamento. 

    Todos estavam agora prontos para partir. Diante deles estava uma jornada que levaria vários meses. Os homens tinham consigo suas esposas, filhos e posses, além de grande tesouro para o templo e seus serviços. Esdras fora advertido de que inimigos estavam de espreita pelo caminho, prontos para pilhar e destruir a ele e seu grupo; contudo não pedira ao rei nenhuma força armada para proteção. “Porque me envergonhei”, ele explicou, “de pedir ao rei exército e cavaleiros para nos defender do inimigo no caminho, porquanto tínhamos falado ao rei, dizendo: A mão de nosso Deus é sobre todos os que O buscam para o bem, mas a Sua força e a Sua ira sobre todos os que O deixam.” Esd. 8:22. 

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    Nisto Esdras e seus companheiros viram uma oportunidade de magnificar o nome de Deus entre os pagãos. A fé no poder do Deus vivo seria fortalecida se os próprios israelitas revelassem agora implícita confiança no seu divino Guia. Determinaram-se, pois, depositar sua segurança inteiramente nEle. Não pediram nenhuma guarda de soldados. Não dariam aos pagãos qualquer ocasião de atribuir ao poder do homem a glória que somente a Deus pertence. Não permitiriam que surgisse na mente dos seus amigos pagãos qualquer dúvida quanto à sinceridade de sua dependência de Deus como Seu povo. A força seria obtida, não através de riquezas ou do poder e influência de idólatras, mas mediante o favor de Deus. Eles seriam protegidos exclusivamente pelo conservar diante de si a lei do Senhor, esforçando-se por obedecê-la. 

    Este conhecimento das condições sob as quais eles poderiam continuar contando com a propícia mão de Deus, infundiu uma solenidade mais que comum ao culto de consagração dirigido por Esdras e seu fiel grupo pouco antes da partida. “Apregoei ali um jejum junto ao rio Aava”, Esdras declara desta experiência, “para nos humilharmos diante da face do nosso Deus, para Lhe pedirmos caminho direito para nós, e para nossos filhos, e para toda a nossa fazenda.” “Nós, pois, jejuamos, e pedimos isto ao nosso Deus, e moveu-Se pelas nossas orações.” Esd. 8:21 e 23. 

    A bênção de Deus, entretanto, não tornava medidas de prudência e precaução desnecessárias. Como providência especial para salvaguardar o tesouro, Esdras separou “doze dos maiorais dos sacerdotes” – homens cuja fidelidade e lealdade tinham sido provadas – e pesou-lhes “a prata, e o ouro, e os vasos, que era a oferta para a casa do nosso Deus, a qual ofereceram o rei e os seus conselheiros, e os seus príncipes”. Esses homens receberam o solene encargo de agir como vigilantes mordomos do tesouro confiado aos seus cuidados. “Consagrados sois do Senhor”, Esdras declarou, “e sagrados são estes vasos, como também esta prata e este ouro, oferta voluntária, oferecida ao Senhor Deus de vossos pais. Vigiai, pois, e guardai-os, até que os peseis na presença dos maiorais dos sacerdotes e dos levitas, e dos príncipes dos pais de Israel, em Jerusalém, nas câmaras da casa de Deus”. Esd. 8:24, 25, 28 e 29. 

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    O cuidado exercido por Esdras nas providências para o transporte e segurança do tesouro do Senhor, ensina uma lição digna de meditado estudo. Unicamente aqueles cuja lealdade tinha sido provada, foram escolhidos; e foram claramente instruídos com respeito à responsabilidade que sobre eles repousava. Na indicação de fiéis oficiais para funcionar como tesoureiros dos bens do Senhor, Esdras reconheceu a necessidade e o valor de ordem e organização em relação com a obra de Deus. 

    Durante os poucos dias que os israelitas se detiveram junto ao rio, completou-se toda a provisão para a longa jornada. “E partimos do rio de Aava”, diz Esdras, “no dia doze do primeiro mês, para irmos para Jerusalém; e a mão do nosso Deus estava sobre nós, e livrou-nos da mão dos inimigos, e dos que nos armavam ciladas no caminho”. Esd. 8:31. Cerca de quatro meses foram gastos na viagem, dado que a multidão que acompanhava Esdras, vários milhares ao todo, incluindo-se mulheres e crianças, precisava andar devagar. Mas tudo foi preservado com segurança. Seus inimigos foram impedidos de fazer-lhes mal. Foi próspera a sua viagem; e no primeiro dia do quinto mês, no sétimo ano de Artaxerxes, alcançaram Jerusalém. 

Ellen Gould White, Profetas e Reis, págs. 607-617.

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