Daniel 9:24-27 Exegese do Versículo 26


  1. “Então depois das sessenta e duas semanas, o Messias será cortado”. (tradução do autor)

            A expressão “cortado” refere-se à morte do Messias. O fato de esse verbo ser usado na conjugação passiva (Niphal) indica que alguém causaria sua morte. Ele não morreria de forma natural.

            Do ponto de vista histórico, esse foi certamente o caso da morte de Jesus (Yeshua). O uso da preposição “depois” (‘aharê) nessa declaração sugere que o Messias iria ser morto em algum momento “depois” do final das 7+62 semanas, ou seja, na setuagésima semana. Assim, essa declaração fornece apenas um tempo aproximado para sua morte.

Mashiach

  1. “Mas ninguém será por Ele”. (tradução do autor).

            O que quer que signifique essa declaração, aconteceria quando o Messias fosse cortado, ou morto. A forma hebraica dessa declaração enigmática é extremamente clara – duas palavras. Seu primeiro termo consiste da  partícula negativa, “’ên”. Visto que o termo ocorre numa declaração profética, se aplica ao futuro. Portanto, pode ser traduzido como “não será”.

            O segundo elemento na declaração é a preposição “para” ou “por”, a qual foi adicionado o pronome masculino da terceira pessoa do singular “Ele”, sendo a frase traduzida de forma literal: “não será para ou por Ele”.

            O que não será “para/por Ele”? O verdadeiro sujeito ou sujeitos (o que quer que seja que não pertença ao Messias) deve ser entendido pelo leitor. Basicamente, há duas possibilidades aqui. O sujeito pode se relacionar a coisas, possessões materiais ou envolver pessoas. A primeira possibilidade descreveria a pobreza do Messias, em Sua morte. Embora isso seja verdade com relação ao Jesus quando morreu, Deus está mais preocupado com pessoas do que com coisas.

            A primeira palavra do sujeito da frase seguinte nessa passagem é a palavra povo. Seguindo essa interpretação, essa declaração seria traduzida como “mas ninguém será por Ele”. Isso descreve a rejeição do Messias na sua morte, que foi cumprida tão vividamente na experiência de Jesus Cristo ‘(Yeshua há Mashiach)’ (Jo 1:11; Mt 26:56, 74; Lc 24:21).

sacrificio II

  1. “E o povo do príncipe que está para vir destruirá a cidade e o santuário” (RSV)

            Intérpretes historicistas e futuristas têm comumente identificado o príncipe mencionado aqui como um romano, porque os romanos destruíram Jerusalém em 70 d.C. Contudo, esse príncipe pode ser identificado como romano apenas devido ao termo hebraico para “príncipe” nessa passagem.

            Se olharmos para a estrutura dessa passagem no texto hebraico e observarmos os títulos empregados, fica evidente que há um padrão para o modo como esses títulos são usados. Esse padrão esclarece se um, dois ou três personagens estão sob consideração. Observe o arranjo:

  1. 25 Messias (mãsîah)                   Príncipe (nãgîd)        A + B
  2. 26A Messias (mãsîah)                   ———                        A –
  3. 26B ———-                                   Príncipe (nãgîd)        –      B

            Esse padrão pode ser descrito como a divisão de uma díade ou par de palavras (Messias, Príncipe). A par de palavras original foi dividido, e os termos individuais (Messias/Príncipe) foram reutilizados no versículo 26. Assim, o sentido desse padrão é sugerir que todos os três títulos se referem à mesma pessoa.

            Isso está em contraste com a postura preterista que opta por três indivíduos diferentes nesses títulos (Ciro ou outros, no v. 25; Onias III, no v. 26; Antíoco IV, no v. 26b) ou para aqueles historicistas e futuristas que veem dois (Cristo, v. 25, 26A; príncipe romano, v. 26B).

            Jesus Cristo ‘(hebr. Yeshua há Mashiach)’ cumpriu as especificações dessa profecia com o Messias Príncipe que viria no final das 69 semanas (v.25). Jesus era o Messias que foi cortado (v. 26A). Deduz-se, então, que Ele deveria ser também o Príncipe do povo que destruiria a cidade e seu templo (v. 26B). Sua identificação como “um Príncipe que há de vir” (v. 26B) se ajusta bem com a referência o tempo quando Ele estava para vir no verso anterior (v.25). Os romanos estão presentes nessa profecia, mas apenas como o “assolador” que é mencionado após esse.

            Embora o exército romano fosse o poder militar que conduziu a destruição da cidade e de seu templo, os romanos não foram a causa fundamental dessa destruição. A razão por que os romanos atacaram Jerusalém foi a rebelião dos judeus contra eles. Se os judeus tivessem permanecido leais e vassalos subservientes, os romanos nunca teriam atacado Jerusalém.

            Portanto, foram os próprios judeus que precipitaram a cadeia de eventos que finalmente levou à destruição de Jerusalém pelos romanos. Eles rejeitaram seu verdadeiro príncipe messiânico e também se revoltaram contra seus suseranos romanos.  A situação foi um tanto semelhante á que aconteceu com Nabucodonosor, que, estimulado pela rebelião de Zedequias, sitiou Jerusalém no sexto século a.C. (cf. Jr 38:17-23). Os líderes judeus do primeiro século d.C. não aprenderam com o erra de seus líderes no sexto século a.C. e a história se repetiu.

            Até aqui a seguinte sequencia de eventos parece estar prevista pelas declarações sucessivas desse versículo:

  1. O Messias deveria ser morto.
  2. O povo do Messias O rejeitaria quando Ele fosse morto.
  3. O povo que rejeitou o Messias quando Ele morreu também traria sobre si a destruição de sua cidade e templo.

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  1. “E o seu fim será um dilúvio.”

            Não está claro qual é o antecedente para a expressão “o seu fim”. O antecedente poderia ser a cidade ou o santuário ou ambos. Não parece referir-se a uma pessoa. A linguagem figurativa mostra a figura de um inimigo invadindo uma cidade sitiada. Quando finalmente se abre uma brecha no muro, as tropas inimigas fluem dessa abertura como um dilúvio.

            Isso se ajusta bem à maneira com os romanos penetraram as defesas de Jerusalém no verão de 70 d.C. A comparação de forças militares com um dilúvio ocorre em outros lugares na Bíblia (Is 8:7-8; Jr 46:6,7; 47:2). Na passagem paralela, Daniel 11:22, a mesma palavra para “dilúvio” (“forças inundantes”, ARA) é ampliada descrevendo-a como um exército (z’rõ’ot), que transmite ainda mais do caráter militar desse dilúvio.

Jerusalém destruída

  1. “Ao final da guerra, desolações serão decretadas” (tradução do autor).

            Uma vez que a ideia de um fim é bem definida, a preposição ‘ad (“a”, “até”) seria traduzida melhor como “no” ou “ao” (“ao final”). “Final” parece estar relacionado com “guerra”. Assim, essa frase refere-se tanto a “fim da guerra” (com o artigo definido subentendido, mas não escrito) ou “no final da guerra”. O particípio “decretadas” (em inglês decreed – singular) e seu sujeito plural, “desolações” (em inglês desolations”, não concordam em número. Isso pode ser solucionado recolocando o particípio como um plural ou considerando essa declaração como existencial: “estão decretado (que haverá) desolações.”

            As desolações preditas aqui foram conduzidas pelos romanos quando, após conquistarem Jerusalém, queimaram as cidades alta e baixa e puseram abaixo seus muros. Exceto por três torres do palácio de Herodes, tudo foi destruído em Jerusalém. Epifânio relatou como Jerusalém estava quando Adriano a visitou em 130 d.C.: “Ele encontrou o templo de Deus pisado e toda a cidade devastada…” (Weights and Measures (Pesos e Medidas), 14-54c).”

autor: William H. Shea, Setenta Semanas – Levítico e a Natureza da Profecia,  Editor Frank B. Holbrook, págs 61-64, UNASPRESS, 2010.

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