Daniel 9:24-27 Exegese do Versículo 27


  1. “Ele tornará firme uma aliança com muitos uma semana”. (tradução do autor)

            Visto que o Príncipe da passagem anterior não é um príncipe romano (de acordo com a interpretação desenvolvida aqui), o “Ele” nesse versículo refere-se ao Messias Príncipe, ou Jesus Cristo historicamente. É incomum para a raiz verbal (gãbar, “ser forte, poderoso”), que aparece aqui na forma causativa Hiphil, considerar a palavra “aliança” como seu objeto. A força dessa construção verbal particular é que o Messias “tornaria firme uma aliança”. Ou seja, Ele fortaleceria uma aliança que já existia. A tradução que é às vezes feita – “Ele fará firme aliança” – teria sido expressada de forma mais natural por uma construção adjetiva.

            Que aliança é mencionada aqui em termos de cumprimento histórico? O uso verbal empregado sugere que é a aliança do Sinai. O Messias confirmaria a aliança de Deus com o povo que Ele elegeu dentre as nações para esse período de tempo profético final (conf. Rom. 15:08). Durante essa setuagésima semana, Ele tornou firme uma aliança que já existia. Não parece ser a nova aliança do Novo Testamento que está em vista aqui primordialmente, muito embora também tenha se efetivado nesse período.

            Esse fortalecimento da aliança durou uma semana inteira – a setuagésima. Portanto, não começou quando Cristo morreu na cruz na metade desse semana. Isso leva o fortalecimento da aliança de volta para o início do ministério de Cristo em 27 d.C. o sentido aqui parece envolver mais do que apenas a vinda de Cristo e Seu ministério como um mensageiro da aliança em sentido geral.

            Quando se observam os primeiros dias do ministério de Cristo para o estabelecimento de uma aliança ou seu fortalecimento, a apresentação do Sermão da Montanha se destaca. Jesus selecionou mandamentos do ‘Tanach’ (VT) e os ampliou e fortaleceu; Ele não os revoga (Mt 5:21-48). Então, Ele acrescentou a estes Seus novos mandamentos (Mt 6:19-7:11). Essas seções de seu sermão foram demarcadas por referências à lei e aos profetas (5:17; 7:12). Tudo isso está npo contexto de bem-aventuranças (Mt 5:3-11) e as possibilidades de se receber a benção ou a maldição(Mt 7:13-27).

Sinai    Jesus multidão

            Esse tipo de apresentação tem o aspecto de uma aliança. Vários estudiosos da B’rit Hadashah (NT) têm notado a relação entre a aliança de Moisés no Monte Sinai e a aliança de Jesus no monte das Bem-aventuranças. Essa exposição da aliança por Jesus no início de seu ministério fornece a conexão mais direta entre sua época e as circunstâncias preditas em 9:27.

  1. “E na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares.”

            Ou seja, no início da metade da setuagésima semana. O uso do artigo definido como “semana” (“a semana”) nessa frase enfatiza que significa a mesma semana mencionada na frase anterior. O sujeito (“Ele”) também deve ser entendido como se referindo ao Messias Príncipe.

            A palavra hebraica para sacrifício (zebah) refere-se a sacrifícios de animais em geral. A palavra hebraica para oferta (minhãh) é usada em Êxodo geralmente para se referir às ofertas de cere3ais. Aqui, provavelmente se refira a sacrifícios que não eram feitos com animais como uma classe. Juntas, essas duas palavras englobam todos os sacrifícios, de animais ou não – o sistema sacrifical como um todo.

            Fisicamente, o sistema sacrifical não cessou até a destruição do templo em 70 d.C. Contudo, espiritualmente, não havia mais sentido nesses sacrifícios, pois Cristo, o grande antítipo cumpriu seu significado supremo com sua morte na cruz (Mt 27:50-51; Lc 23:45-46). Visto que é o Messias que fará cessar o serviço de sacrifícios, de acordo com essa profecia, seu fim deve ser visto no sentido de perda de significado. Quando Cristo morreu, o ritual perdeu o significado e se tornou um mero ciclo de cerimônias sem sentido. Isso aconteceu na metade da semana, quando Ele foi crucificado, de acordo com a cronologia da profecia que discutiremos logo mais.

sacrificio 2

  1. “Sobre as asas das abominações virá um desolador” (tradução do autor).

            O verbo “virá” não aparece no texto hebraico, mas deve ser inferido da natureza existencial dessa declaração. Literalmente lemos: “Sobre (as) asas das abominações (haverá) um desolador.” Uma vez que se infere “haverá” a fim de se traduzir com lógica a declaração, “virá” é uma intepretação natural. O “desolador“ é uma forma de particípio da mesma raiz que o substantivo plural “desolações”, que aparece ao final do versículo anterior. Nesse caso, o particípio está funcionando como um substantivo. Esse desolador pode ser identificado como a causa dessas desolações tanto no sentido léxico como no histórico.

            “Sobre as asas da” parece ser uma expressão que indica consequências imediatas, ou seja, algo que iria acontecer logo em seguida. Assim, em contraste com as atividades do poder em oposição a Deus em 8:12-13; 11:31 e 12:11, esse desolador e suas desolações seguem após ou aparecem na cena de ação de pois das abominações. As abominações deveriam vir primeiro e o desolador em seguida, ao menos em termos de tempo.

            Historicamente, essa desolação foi conduzida pelos romanos. Os judeus possuíam a cidade até aquela época. Uma vez que as abominações precederiam a desolação, os judeus – não os romanos – seriam os responsáveis por essas abominações. Isso pode ter se cumprido (em um sentido) por meio da oferta de sacrifícios após a morte de Cristo. Esses sacrifícios não haviam apenas perdido seu sentido, mas sua continuidade também negou a realidade antitípica que os havia cumprido. Eles serviam para negar a verdade que foram designados a transmitir.

            Esse é um possível cumprimento dessas abominações. Outra possível aplicação tem a ver com o destino final do templo. No cerco romano de Jerusalém, o templo se tornou uma fortaleza, um bastião final de resistência contra os romanos ao cercarem a cidade. Isso poluiu e perverteu definitivamente o propósito para o qual o templo foi construído como um lugar para adoração e serviço a Deus.

Jerusalém destruída

  1. “E, ao final, o que está decretado com respeito à desolação será derramado” (tradução do autor).

            Essa é uma declaração muito difícil de  traduzir e interpretar. Em vários aspectos, a sentença se equipara às duas últimas orações do versículo 26 como vemos no quadro abaixo:

versículos 26 e 27

            No versículo 27, a preposição inicial (‘ad, “ao, até”) provavelmente deve ser desconsiderada no sentido de “em” ou “quando” como na frase paralela no v. 26 (“ao final”). O substantivo kãlãh (“fim”) que carrega a nuance de “ conclusão completa destruição” é sinônimo de qs (“fim”) que aparece duas vezes no versículo 26.

            O particípio (hrs), traduzido como “serão decretadas” e “está decretado” é o mesmo em ambos os versos, assim como o particípio smm, vertido como “desolação”. A única diferença é que, neste último caso, é singular e precedido por uma preposição (‘al, “sobre”, “concernentemente”). O verbo “derramar” (nkt) está tematicamente ligado à palavra “inundação” (stp), no versículo 26.

            Embora esses diversos paralelos pareçam indicar que essa última oração do versículo 27 esteja repetindo o conteúdo das últimas duas orações do versículo 26, permanece a pergunta de como o particípio “desolação” (smm) deve ser traduzido. Deveria significar “desolador” (como na oração anterior, onde é escrito com um preformativo (mem) no versículo 27) ou simplesmente “desolações” como no versículo 26?

            Há dois modos principais de se entender nossa oração no versículo 27 . o primeiro é considera-la como uma declaração que descreve o destino final do desolador (romano). Essa interpretação traduz o particípio (smm) como “desolador” em vez de “desolação”. Ao fazer isso, o tradutor quebra as conexões evidentes ente essa declaração e o versículo 26 e introduz algo diferente do que é determinado aqui.

Arco de Tito

            Entretanto, existe uma segunda maneira de se entender essa oração. Observamos que as principais palavras ou ideias no final do versículo 27 aparecem também no final do versículo 26, e a principal diferença entre eles é que o versículo 27 não tem a palavra “guerra”. Dadas essas relações diretas, parece preferível considerar que a declaração final do versículo 27 se aplica novamente ao destino da cidade. Não parece dar lugar a uma nova ideia com respeito ao destino do desolador.

            A interpretação do final do versículo 27 selecionada aqui leva essa declaração ao indicar que no final da guerra tudo o que estava determinado com respeito à desolação da cidade seria derramado sobre ela. Essa declaração se iguala à oração do final do versículo 26 tanto em termos de seu conteúdo como de sua posição na estrutura literária dessa profecia.

Setenta Shabu'im Daniel 9 24 a 27

            Essa predita destruição da cidade suscita a pergunta: por que ela não ocorreu no final das 70 semanas em 34 d.C.? A partir da análise anterior, é possível ver que o período das 70 semanas foi probatório. Os resultados negativos de se fracassar nessa prova deveriam ser esperados no mesmo dia em que essa provação acabar.

            Não há nada nessa profecia que indique o tempo preciso em que a destruição aconteceria. Assim, a demora de 40 anos (70 d.C.) para essa destruição não contradiz nenhuma de suas declarações explicitas. O que deveria acontecer ao final das 70 semanas era a determinação com respeito à destruição da cidade mencionada nos versículos 26 e 27. Os resultados dessa determinação estavam para acontecer algum tempo depois do final das 70 semanas e, historicamente, não foram vistos até 40 anos depois.

Autor: William H. Shea, Setenta Semanas – Levítico e a Natureza da Profecia – págs. 64-67, editor Frank B. Holbrook, UNASPRESS, 2010.

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