As Festas do Calendário Israelita 2ª Parte – O Contexto das Festas (revisado)


            Jerusalém se tornou o centro do culto da nação, e ali se congregavam as tribos para as festas solenes. O povo estava rodeado de tribos ferozes, aguerridas, que se achavam ávidas por tomarem suas terras; contudo, três vezes ao ano, a todos os homens robustos, a toda a gente em condições de poder fazer viagem, ordenava-se que deixassem seus lares e se dirigissem ao lugar da assembleia, próximo do centro daquela terra. O que impediria seus inimigos de se lançarem sobre essas casas desprotegidas, e devastá-las pelo fogo e pela espada? O que impediria a invasão do país, a qual levaria Israel em cativeiro a algum adversário estrangeiro? – D’us prometera ser o protetor de Seu povo:

“Acampa o anjo do Eterno ao redor dos que O temem e lhes traz salvação.”

Tehilim/Salmo 34:8[ii].

            Enquanto os israelitas subiam para adorar, o poder divino imporia uma restrição aos seus inimigos. A promessa de Deus era:

“Certamente desterrarei nações de diante de ti, e farei aumentar teu limite, e não cobiçará homem a tua terra ao subires para aparecer diante das faces do Eterno, teu Deus, três vezes ao ano..”

Shemot/Êxo. 34:24.

            As primeiras destas solenidades, a Pêssah/Páscoa e a festa dos Ha Matzot/Pães Asmos, ocorriam em Abibe, o primeiro mês do ano judaico, correspondente ao fim de março e princípio de abril. Era passado o frio do inverno, terminara a chuva serôdia, e toda a Natureza se regozijava no frescor e beleza da primavera. A relva era verde nas colinas e vales, e flores silvestres por toda parte adornavam os campos. A Lua, já quase cheia, tornava deleitosas as noites. Era a estação tão belamente descrita pelo cantor sagrado:

“Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou e se foi. As flores se mostram na terra, o tempo de catar chega e a voz da rola se ouve em nossa terra. A figueira brotou os seus figuinhos e as vides em flor dão o seu cheio; levanta-se, Minha amiga, ó Minha formosa, e vem!”

Shir Hashirim/Cântico dos Cânticos 02:11-13

            Havia três festividades anuais – a Pêssah/Páscoa, Shavuot o Pentecostes e a Festa dos Tabernáculos/Sucót – festas em que todos os homens de Israel tinham ordem de comparecer perante o Eterno em Jerusalém. Destas, era a Pêssah /Páscoa a mais concorrida. Havia presentes muitos de todos os países por onde os judeus tinham sido espalhados. De todas as partes da Palestina, vinham os adoradores em grande número. A viagem da Galileia levava diversos dias, e os viajantes reuniam-se em grandes grupos, já pela companhia, já pela proteção.

            Por toda a terra grupos de peregrinos estavam a caminho para Jerusalém. Todos dirigiam os passos para o lugar em que se revelava a presença de Deus: os pastores deixavam seus rebanhos, os guardas do gado as suas montanhas, pescadores o Mar de Galileia, os lavradores os seus campos, e os filhos dos profetas as escolas sagradas. Jornadeavam em pequenas etapas, pois que muitos iam a pé. As caravanas estavam constantemente a receber acréscimos, e frequentemente se tornavam muito grandes antes de chegarem à santa cidade.

            O serviço do cântico tornou-se uma parte regular do culto religioso; e Davi compôs salmos, não somente para o uso dos sacerdotes no serviço do santuário, mas também para ser cantado pelo povo em suas jornadas ao Templo, o local que Ele escolheu conforme Devarim/Deut. 16:16,  nas festas anuais. Estava na mente dos hebreus que por estatuo perpétuo eles eram proibidos de comemorar as três festas de peregrinação; Pêssah/ Há Matzot, Shavuot e Sucót fora de Jerusalém. A influência assim exercida era de grande alcance, e teve como resultado libertar da idolatria a nação.

            Muitos dos povos circunvizinhos, vendo a prosperidade de Israel, eram levados a pensar favoravelmente acerca do D’us de Israel, que havia feito tão grandes coisas por Seu povo.

            O povo de Israel louvava a D’us com cânticos sacros. Os mandamentos e promessas de D’us eram postos em música, e durante toda a viagem cantavam-nos os viajantes peregrinos. E em Canaã, quando se congregassem nas festas sagradas, as maravilhosas obras de D’us deviam ser relembradas e oferecidas ações de graças ao Seu nome. D’us desejava que toda a vida de Seu povo fosse uma vida de louvor. Assim Seu caminho deveria tornar-se conhecido na Terra e “entre todas as nações”, Sua “salvação”. Tehilim/Sal. 67:3.

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            A alegria da Natureza despertava nos corações de Israel júbilo e gratidão para com o Doador de todos os bens. Cantavam-se os grandiosos salmos hebreus, exaltando a glória e majestade do Eterno. Ao som da trombeta que dava os sinais, juntamente com a música dos címbalos, erguia-se o coro de ações de graças, avolumado por centenas de vozes:

“Regozijei-me quando me disseram: “Vamos à Casa do Eterno. Chegaram nossos pés às tuas portas, ó Jerusalém. És uma cidade edificada e coesa para unir todas as tribos do Eterno que a ti se dirigiam como um testemunho de todo Israel, para erguer graças ao Nome do Eterno. Ali foi estabelecido o tribunal de justiça, o trono da Casa de David. Rogai ao Eterno pela paz pela paz de Jerusalém!”

Tehilim/Salmo 122:1-6.

            E ao verem em redor de si as colinas onde os gentios costumavam acender os fogos de seus altares, cantavam os filhos de Israel:

“Ergo meus olhos para o alto de onde virá meu auxílio.  

Meu socorro vem do Eterno, o Criador dos céus e da terra.”

Tehilim/Salmo 121:1 e 2.

            Transpondo as colinas que ficavam à vista da santa cidade, olhavam com temor reverente para as multidões de adoradores que caminhavam para o Templo. Viam o fumo do incenso a ascender, e, ao ouvirem as trombetas dos levitas anunciando o serviço sagrado, tomavam-se da inspiração do momento, e cantavam:

“Grandioso é o Eterno, e todos os louvores Lhe são dirigidos em Sua Cidade, e em Seu santo monte.”

Tehilim/Salmo 48:1 e 2.

            “A palavra traduzida por “festa”… provém de uma ou outra de duas palavras hebraicas: (1) mo’ed, um encontro marcado (usada em Lev. 23:02, 4, 37; Núm. 29:39); e (2) hag, um festival (usada em Lev. 23:06, 34, 39, 41; Núm. 28:17;29:12). As duas palavras são, algumas vezes, usadas alternadamente, embora mo’ed enfatize o tempo da festa, “festas fixas” (Núm. 29:39), e hag, o tipo de festa. Hag é derivada de um verbo que tem como um de seus possíveis significados “fazer uma peregrinação”, “empreender uma jordana com objetivo de adoração… na lista das “festas fixas” anuais, hag, significativamente, é usada em apenas três delas: na Festa dos Pães Asmos, na Festa das Primícias e na Festa dos Tabernáculos.. “Três vezes no ano Me celebrareis festa (hag)” (Êx. 23:14). Para celebrar essas três festas, “todo varão entre ti aparecerá perante o Senhor, teu Deus, no lugar que escolher” (Deut. 16:16). O povo devia “fazer uma peregrinação”.[iv]

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             “Embora a Páscoa possa ser apropriadamente caracterizada como “uma festa fixa”, uma mo’ed, pode também ser considerada como parte da Festa dos Pães Asmos. O cordeiro pascal era sacrificado no dia 14 do primeiro mês e comido naquela mesma noite, no começo do dia 15, o primeiro dia da Festa dos Pães Asmos.”[iii]

            Se quisermos ser coerentes na aplicação do “estatuto” e cumprirmos o que realmente esta escrito, as Festas Israelitas são somente de aplicação local, isto é, dentro de um contexto específico adequado as condições da Palestina, deste modo, por exemplo, a Festa das Primícias, quando traziam o molho ou feixe da colheita para apresentar ao Eterno ocorria no fim da Primavera ou a Festa dos Tabernáculos no outono, todas no hemisfério norte e não aplicáveis no sul.

            O Eterno foi bem específico:

“Não poderás sacrificar o cordeiro de Pêssah em qualquer uma de tuas cidades, que o Eterno, teu Deus, te dá: porque somente no lugar em que escolher o Eterno, teu Deus, para fazer habitar Seu Nome, ali  sacrificará o cordeiro de Pêssah à tarde, ao pôr do sol o comerás, no tempo determinado em que saíste do Egito.”

Devarim/Deuteronômio 16:05 e 06

            Os judeus estão atentos a esse “mandamento”, embora na prática não o obedeçam, pois, ao fim de Pêssah nos lares judaicos ao redor do mundo é feito um “brinde” quando se diz: “no ano que vem em Jerusalém”. A conexão entre as festas, seus sacrifícios e o Templo são irrevogáveis. A ideia não era espalhar as Festas, mas, centralizar sua comemoração em Jerusalém de forma centrípeta, trazendo o Templo e seus serviços ao centro das atenções mundiais, e dentro deste contexto o erro é pensar que Jerusalém e Israel eram o centro, o ponto central era a presença do Eterno no Shekinah do segundo compartimento, D’us é o centro.

            Todas as casas em Jerusalém eram amplamente abertas aos peregrinos, e forneciam-se aposentos gratuitamente; mas isto não era suficiente para a vasta assembleia, e armavam-se tendas em todo o espaço disponível na cidade e nas colinas adjacentes. Admitiam os pobres, os estrangeiros e os levitas, os quais eram ao mesmo tempo ajudantes do sacerdote no santuário e mestres de religião. Todos esses eram considerados hóspedes do povo, recebendo hospitalidade durante as festas sociais e religiosas, e sendo atendidos carinhosamente em suas enfermidades e necessidades.

            No lar e no santuário, mediante as coisas da Natureza e da Arte, no trabalho e nas festas, na construção sagrada e pedras comemorativas, por meio de métodos, ritos e símbolos inumeráveis, deu D’us a Israel lições que ilustravam Seus princípios e preservavam a memória de Suas maravilhosas obras. Então, quando surgiam perguntas, a instrução que era dada impressionava o espírito e o coração.

            A verdadeira educação não consiste em forçar a instrução a um espírito não preparado e indócil. As faculdades mentais deverão ser despertadas e o interesse suscitado. E isto o método divino de ensinar havia tomado em consideração. Aquele que criou a mente e estabeleceu suas leis, providenciou para o seu desenvolvimento de acordo com aquelas leis. No lar e no santuário, mediante as coisas da Natureza e da arte, no trabalho e nas festas, na construção sagrada e pedras comemorativas, por meio de métodos, ritos e símbolos inumeráveis, deu D’us a Israel lições que ilustravam Seus princípios e preservavam a memória de suas maravilhosas obras. Então, quando surgiam perguntas, a instrução que era dada impressionava o espírito e o coração. Como meio de educação desempenhavam lugar importante as festas de Israel. Na vida usual, a família era tanto a escola como a congregação, sendo os pais os instrutores nos assuntos seculares e religiosos.

 

Fonte: Adaptação, pesquisa e edição de Herança Judaica, pesquisador Wladimir.

[ii] Salvo outra indicação a versão que utilizamos é a Bíblia Hebraica Sêfer.

[iii] Comentário Bíblico Adventista, pág. 868

[iv] Idem.

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