O Decreto de Reconstrução de Jerusalém – Artigo 4 – REQUIEM PARA UM MESSIAS


I.O Messias dos 70 Anos 

            A última palavra do capítulo 8 (do livro de Daniel) ainda ressoa em nossos ouvidos, quando Daniel se acha abandonado em total escuridão, “além do entendimento” (Dan. 8:27). Ele teve de esperar 13 anos para receber luz sobre o assunto.

            Estamos agora no primeiro ano do reinado de Dario (538 AEC), um ano cunhado com o selo da esperança. É o mesmo ano em que Daniel enfrentou os leões, e do seu resgate pelo anjo (Dan. 6). Além disso, ele testemunha o cumprimento das primeiras profecias (capítulos 2 e 7): Babilônia cercada pelos Medos e Persas. Finalmente, é o ano do reino de Ciro, cujo co-regente na Babilônia é Dario. O profeta Isaias tinha avaliado Ciro como um messias e salvador de Israel:

           “Ele é meu pastor, e cumprirá tudo o quem apraz; de modo que ele também diga de Jerusalém: Ela será edificada, e o fundamento do templo será lançado. Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita… eu irei adiante de ti, e tornarei planos os lugares escabrosos… Dar-te-ei os tesouros… para que saibas que eu sou o Senhor, o Deus de Israel, que te chamo pelo teu nome. Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu escolhido, eu te chamo pelo teu nome; ponho-te o teu sobrenome, ainda que não me conheças”

(Isa. 44:28-45:4). 

ruinas Reconstruindo-os-Muros

            Assim que Daniel observa o cumprimento, ele começa a entender e quer saber mais. O último “entender” negativo do capítulo anterior (Dan. 8:27), agora tem um “entendi” positivo em Daniel 9:2:

“eu, Daniel, entendi pelos livros, que o número de anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, que haviam de durar as desolações de Jerusalém, era de setenta anos. ”  

            A visão precedente deixou um gosto de desapontamento. Por um instante Daniel pode ter chegado á conclusão de que a devastação de Jerusalém duraria 2300 anos. Mas depois de consultar o livro de Jeremias, ele se encontra confiante. O exílio não excederia 70 anos.

“Porque assim diz o Senhor: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, eu vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar… Então me invocareis, e ireis e orareis a mim, e eu vos ouvirei” (Jer. 29:10-12; cf. 25:11, 12). 

             Na conclusão da Bíblia Hebraica, o livro de Crônicas reformula a profecia de Jeremias, tornando este tempo uma referência direta a Ciro. Assim para o período de 70 anos em si, a passagem vê isso como uma referência ao ano Sabático (7 x 10):  

Nabucodonosor. I jpg

              “o rei dos caldeus (Nabucodonosor)… todos os vasos da casa de Deus… tudo levou para Babilônia… e aos que escaparam da espada, a esses levou para Babilônia, e se tornaram servos dele e de seus filhos, até o tempo do rei da Pérsia, para se cumprir a palavra do Senhor proferida pela boca de Jeremias, até haver a terra gozado dos seus sábados; pois por todos os dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram. Ora no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor proferida pela boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, de modo que ele fez proclamar por todo o seu reino, de vida voz e também por escrito, este decreto: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus do céu… me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que é em Judá. Quem há entre voz de todo o seu povo suba, e o Senhor seu Deus seja com ele.” II Cron. 36:18-23). Portanto, dos 70 anos, começando em 605 AEC com a destruição de Jerusalém (Dan. 1), 68 anos haviam se passado e até então nada aconteceu. O povo ainda está no exílio e Jerusalém em ruínas. Fortificado, por sua própria experiência com profecia, Daniel se apega a esta última promessa. Ele desenvolve um interesse renovado em profecias, através de eventos do ano passado. Tendo testemunhado seu cumprimento parcial, ele anseia por mais. Sentindo as 70 semanas se escoando lentamente, sem nenhum sinal de mudança, Daniel se lançou ele mesmo aos pés de Deus em oração. 

  1. Uma Oração Impaciente

            O profeta expressa sua oração em grande angústia e por trás de uma máscara de morte. O texto menciona três símbolos de morte: Jejum, roupa de saco e cinzas (Dan. 9:3). Tal ritual de arrependimento muitas vezes acompanhou a oração nos tempos bíblicos. Como um morto, alguém não come, veste só a mais rudimentar roupa – uma veste grosseira de lã de carneiro ou pelo de camelo. Também, como na morte, a pessoa volta às cinzas. O israelita entende aparência de morte quando orando, por que, perante Deus alguém é como nu, e vulnerável como na morte. Como pó a pessoa chama por seu Criador, a origem de sua vida. Em sua oração Daniel concentra todo seu ser.

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            Começando a oração, ele sente que nada mais importa além do que ele está implorando. A maior e mais importante oração no livro de Daniel, é a sétima e última oração. Pela primeira vez a oração é verdadeiramente universal, pois ela envolve todo o povo de Israel. É a estrutura “chiastica” (A B C B1 A1) já lembra esta universalidade, tendo seu clímax em C, seu centro geométrico:

A verso 4  invocação do Senhor

            B versos 5, 6 nós temos sido maus

                        C versos 7, 8 “Israel inteiro”

            B1 versos 10, 11 nós temos desobedecido

A1 versos 15-19 invocação do Senhor

            O pecado de Israel transborda para as terras vizinhas: “Por causa de nossos pecados, e por causa das iniquidades de nossos pais, tronou-se Jerusalém e o teu povo, um opróbrio para todos os que estão em redor de nós” (verso 16). Do mesmo modo, a catástrofe que sucedeu ao povo e à cidade de Jerusalém tem proporções cósmicas: “debaixo de todo o céu nunca se fez como se tem feito a Jerusalém” (verso 12). Pela primeira vez Daniel ora na primeira pessoa do plural “pecamos e cometemos iniqüidades” (verso 5); “Não demos ouvido aos teus servos, os profetas” (verso 6); “por causa de nossos pecados, e por causa das iniquidades dos nossos pais” (verso 16). Mas o “nós” do povo mescla-se com o “tua” de Deus.

            A primeira parte da oração contrasta o “nós” sujeito da rebelião (versos 5, 6:B) com o “tua” sujeito da fidelidade (verso 4:A). Do mesmo modo, na segunda parte, o “nós” sujeito da rebelião do povo (versos 10-14:B1) está justaposto com o “tua” sujeito da graça de Deus (versos 15-19:A1). As duas partes respondem uma à outra seguindo a estrutura chiastica A B // B1 A1. Mas é no coração da oração (versos 7-9) que encontramos dois elementos ligados mais fortemente, também em uma estrutura chiastica a b c b1 a1. a a ti (verso 7) b a nós a confusão de rosto (verso 7) c todo o Israel b1 a nós pertence a confusão de rosto (verso 8) a1 ao Senhor (verso 9) Tal estrutura alternada sugere a dinâmica do canto responsivo na liturgia israelita. O estilo da oração de Daniel lembra ao leitor dos salmos (Sal. 46; 47; 75; 106; 115; 137, etc.) e das orações de Esdras (Esd. 9:6-15) e Neemias (Nee. 1:5-11; 9:538) do qual Daniel faz eco em muitos temas. A estrutura religiosa poderia facilmente cantar a oração de Daniel em um contexto de adoração. Não é uma oração confinada ao quarto superior de Daniel (capítulo 6), mas algo que envolve o destino de todo Israel. Não é apenas um exercício pessoal. Religião tem também uma dimensão cósmica e social que transcende o individual. E, por conseguinte, o exercício litúrgico. Os santos que retrocedem, para criticar melhor seus vizinhos, terminam criando uma religião idólatra em sua própria imagem. Mas Daniel foge desta tentação e se inclui ele mesmo com o povo de Israel. Ele não triunfa do pedestal distante sobre a imundícia do povo. Como intercessor para Israel perante Deus, Daniel se incorpora em seus pecados. Sua intercessão por eles é apaixonada, pois ele próprio se envolveu no destino de seu povo. E Daniel sofre o exílio também como resultado do pecado de seus pais (Dan. 9:12, 13).

 

            O “nós” litúrgico envolve tanto as gerações passadas como as futuras. O Deus de Daniel é também o Deus de Êxodo que tirou Israel do Egito (verso 15). O nome YHWH, o nome do Deus da história, o Deus da aliança, nunca antes mencionado no livro de Daniel, agora aparece sete vezes (versos 4, 9, 10, 13, 14, 20). YHWH é também o Deus do futuro no qual Ele salva Israel do exílio. As bases da oração de Daniel o “nós” não só nas iniquidades das gerações passadas, mas também em suas experiências de salvação. E isso é o que nutre a esperança do profeta. A experiência litúrgica é linda e emocionante. A oração é profunda e encontra um eco com nossas almas. Elevados pelas vozes que nos cercam, experimentamos uma sensação de fazer parte, de harmonia. Mas tal experiência é verdadeira apenas quando inserida no fluxo da história. A experiência litúrgica na Bíblia sempre envolve uma lembrança dos eventos passados e uma esperança dos eventos futuros. A liturgia sempre aprofunda suas raízes na existência real Daniel está orando por seu povo e pela cidade de Jerusalém em ruínas (verso 19). Como no capítulo 6, ele ora na direção de Jerusalém e seu Templo destruído: “lançando minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus” (verso 20).

Santuário 7

            O momento que sua prece ocorre é também significante: “à hora da oblação da tarde” (verso 21). É o tempo não só para Daniel quebrar seu jejum (Esd. 9:5), mas ele também orou para os eventos serem realizados (Sal. 141:2; I Reis 18:36). Até em um contexto litúrgico, a oração deve ter repercussão histórica. Sem referências da história, a oração é apenas um ritual vazio, uma emoção passageira. A transição do clamor humano ocorre na conclusão da oração com a frase técnica “agora, pois” (Dan. 9:4, 17). Nós estamos de volta à primeira pessoa, como na introdução do capítulo (versos 3, 4). Mas a transição do clamor humano para a resposta divina não resulta do ritual, mas através da graça de Deus, já sugerida pelo movimento “nós-tu” da oração; especialmente na conclusão. A acumulação do pronome divino é particularmente sugestiva: “segundo todas as tuas justiças” (verso 16), “em tuas muitas misericórdias” (verso 18), “por amor do Senhor, Ó Deus meu” (versos 17, 19). De fato, Daniel nem precisa acabar sua oração para deus lhe responder. O anjo o visita quando ele ainda está orando (versos 20, 21). A oração por si mesma não tem valor. Não importa quanto as palavras são verdadeiras e belas, elas não tem um poder mágico de forçar Deus à ação. Deus decide sozinho, e Ele age sozinho. Tudo depende dEle.

            É por isso que a oração de Daniel é tão intensa, tão urgente: “Ó Senhor… põe mãos à obra sem tardar” (verso 19). Mais que um relacionamento espiritual imediato, ele quer mudança histórica, concreta. Sua oração focaliza inteiramente o futuro. 

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 III.O Messias das 70 Semanas

            A resposta de Deus à oração de Daniel e às suas questões referentes as 2300 tardes e manhãs é o anuncio de Gabriel do Messias: “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o ungido, o príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas” (Dan. 9:25). A tradição bíblica lembra o Messias como uma pessoa separada, com uma missão divina para salvar o povo de Deus. A palavra hebraica mashiah (messias) é uma forma passiva do verbo mashah (ungir). Mashiah (Messias) designa um “ungido” individual. A pessoa designada como um messias usualmente foi através de uma cerimônia que iniciou sua função. Alguém ungiu a pessoa com óleo, simbolizando a transmissão de força e sabedoria assim como a fé daquele que unge no sucesso do recém nomeado messias. Sacerdotes, profetas e até reis foram ungidos para se tornarem messias. A história de Israel registra muitos messias. A Escritura chama Aarão, um messias (Êxo. 28:41; Lev. 16:32). Do mesmo modo o profeta Isaias (Isa. 61:1), Saul (II Sam. 1:14), David (I Sam. 16:6, 13), e até um príncipe estrangeiro, Ciro (Isa. 45:1). A esperança de Israel assim se mantinha de messias em messias. A profecia das 70 semanas vem como uma resposta à profecia dos 70 anos, como solução definitiva. Não é somente com um messias que estamos lidando neste contexto, mas o Messias.

 Setenta semanas Daniel 9

            Consultando a profecia dos 70 anos, Daniel esperava um messias particular, Ciro. Mas a profecia das 70 semanas é uma versão universal da profecia dos 70 anos, como nós já entendemos na linguagem da passagem. Os 70 anos (7 x 10) levam ao messias do ano sabático, enquanto que as 70 semanas, ou “setenta setes” (7 x 7 x 10), leva-nos ao messias do jubileu. Além do mais, palavras que no contexto da oração de Daniel, expressaram uma situação particular e relativa, agora aparecem em um sentido indefinido e universal. Por exemplo, a palavra “transgressão” (ht’) em Daniel 9:24-27 tem um sentido indefinido (verso 24) enquanto que os versos 1-23 empregam a mesma palavra em um sentido definido e particular: “temos pecado” (versos 5, 8, 11, 15), “nossos pecados” (verso 16), “meu pecado” (verso 20),  “o pecado do meu povo” (verso 20). Do mesmo modo para a palavra “transgressão, ” “justiça,” “visão,” “profecia,” etc. Assim, não é de surpreender, neste contexto, que a palavra “messias” também tem um sentido indefinido e universal. E esta é a única vez na Bíblia Hebraica. O messias nesta passagem é o Messias, circundando todos os outros messias – o Messias dos messias, o Messias universal. O restante da passagem desenvolve a missão do Messias como uma missão universal envolvendo “muitos” (verso 27).

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            Na tradição bíblica a palavra rabbim (muitos) carrega uma forte conotação universal (ver Esd. 3:12; Dan. 12:2). Os profetas usamna muitas vezes para designar as pessoas e nações implicadas na adoração universal a Deus (Miq. 4:2). O messias desta passagem é o Messias de todos os povos, o Messias que vai salvar o mundo. É por isso que, este último Messias conduz ao jubileu, o festival levítico simbolizando a re-criação do mundo. É o Sábado dos sábados, ocorrendo a cada 7 x 7 anos, um tempo de graça e liberdade (Isa. 61:1, 2), quando a humanidade e a natureza nascerão novamente (Lev. 25:8-17). Mas a profecia das 70 semanas também se refere as 2300 tardes e manhas. Foi por que Daniel se sentiu perturbado pela visão das 2300 tardes e manhãs, porque “não havia quem a entendesse” (Dan. 8:27), que ele consultou a profecia dos 70 anos para “entender” (Dan. 9:2). Depois esta profecia conduziu-o para a visão das 70 semanas para fazê-lo “sábio e entendido” (verso 22).

            A palavra chave “entender” é o fio de ouro, tecido pela passagem. A profecia das 70 semanas providencia a informação perdida, necessária para entender a profecia das 2300 tardes e manhãs. Além disso, o mesmo anjo, Gabriel que explicou a profecia das 2300 tardes e manhãs, agora re-aparece no capítulo 9 para ajudar Daniel: “considera a palavra e entende a visão” (verso 23). Esta mesma frase, com a mesma palavra técnica “visão” (mareh,) aparece no contexto da profecia das 2300 tardes e manhãs (Dan. 8:16). Deus enviou a profecia das setenta semanas, proclamando a vinda do Messias, para ajudar a entender a profecia das 2300 tardes e manhãs. Mas a vinda do Messias não é um mito, alguma coisa suspensa sobre a história. Ao contrário, é um evento situado no tempo. Um conjunto de números, dados na profecia, habilita-nos a deduzir uma data precisa. O enigma numérico da profecia é, devemos prevenir nossos leitores, especialmente desafiador e requer paciência assim como esforço. Devemos deixar claro, três coisas antes de decodificar cronologicamente o período profético: seu começo, duração e conclusão. Depois disso, podemos descobrir a ligação perdida entre a profecia das 2300 tardes e manhãs e a profecia dos 70 anos.

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1.O Início

            O aspecto do Messias é a consequência das palavras humanas (davar, Dan. 9:25), anunciando a restauração de Jerusalém, que faz eco com as palavras divinas (davar, verso 23) respondendo a oração de Daniel. Davar (palavra) aparece em ambos os casos. Em outras palavras, a palavra de baixo que anuncia a reconstrução de Jerusalém é a resposta à palavra de cima que a inspirou. Esta palavra é o ponto de partida do período profético das 70 semanas: “Da saída da palavra para restaurar e reconstruir Jerusalém até o Príncipe Messias, sete semanas e sessenta e duas semanas” (Dan. 9:25, tradução literal). O livro de Esdras fala-nos que a cidade de Jerusalém seria reconstruída depois da proclamação de três decretos sucessivos, um por Ciro, o segundo por Dario e finalmente um por Artaxerxes (Esd. 6:14). O primeiro decreto, emitido em 538 por Ciro, inaugurou o retorno dos primeiros exilados. Em torno de 50.000 judeus retornaram para suas terras (Esd. 2:64). Mas o documento focaliza essencialmente a reconstrução do Templo. Ele autorizou os sacerdotes a trazer de volta 5.400 utensílios de culto que no passado pertenceram ao Templo (Esd. 1:11). O segundo decreto, emitido em 519 por Dario, o Primeiro, Hystaspes (não Dario o Medo) apenas confirmou aquele de Ciro (Esd. 6:3-12). Artaxerxes, de outra forma, conhecido como Longimanus (long-armed, Esd. 7:13-26), promulgou o terceiro decreto real. Muitos elementos apontam para este como sendo o “decreto” mencionado pela profecia: 1É o último decreto, então o único efetivo. Na realidade, Esdras usa a palavra “decreto” no singular para designar todos os três decretos, como se implicando o propósito comum deles.

 setenta semanas II

 

 

  1. O Decreto

            Este decreto é o mais completo, envolvendo tanto a reconstrução do Templo como o restabelecimento das estruturas política e administrativa de Jerusalém (verso 25). 3.E, finalmente, é o único que menciona explicitamente a intervenção de Deus: “Bendito seja o Senhor, Deus de nossos pais, que pôs no coração do rei este desejo de ornar a casa do Senhor, que está em Jerusalém; e que estendeu sobre mim a sua benevolência… Assim, encorajado pela mão do Senhor, meu Deus, que estava sobre mim, ajuntei dentre Israel alguns dos homens principais para subirem comido. ” (Versos 27, 28). De forma significante, esta passagem marca a transição do aramaico, a linguagem do exílio, para o hebraico, a linguagem de Israel. O decreto de Artaxerxes introduz um turno linguístico, sinal tanto, do ponto de retorno, na história de Israel, como do fato de ter realmente começado a restauração nacional. De acordo com o livro de Esdras, Artaxerxes teria emitido este decreto no sétimo ano de seu reinado (verso 8), isto é, no começo do outono de 457 AEC.

Artaxerxes I

  1. Esdras partiu de Babilônia, no primeiro dia do primeiro mês, e chegou em Jerusalém no primeiro dia do quinto mês (versos 8, 9). Portanto 457 é o ponto de partida de nossa profecia.
  2. A Duração Estas semanas são proféticas. Um dia, então, corresponde a um ano, o qual nos dá semana-ano, tanto como semana-dia. 1.Já a passagem em Daniel confirma isso. O período de 70 anos, em Jeremias na introdução (versos 2, 3), faz eco com aquele das 70 semanas em Daniel, na conclusão (versos 24-27). Os dois períodos estão relacionados em uma estrutura chiastica: a primeira fase é “setenta anos” (AB); a segunda fase é formulada de volta, “semanas setenta” (B1A1):

                                                                                      70 Chiasma das 70 Semanas                                                                                                       

            O chiasma já aponta para a natureza daquelas semanas ao fazer um paralelo, “setenta” com “setenta” e “anos” com “semanas.” Desde o inicio, o texto de Daniel 9, deve nos dar uma diretiva de qual linha de interpretação seguir: que devemos ler estas semanas como semanas de anos. Além disso, imediatamente seguindo o capítulo 9, as primeiras palavras do capítulo 10 confirmam de modo direto, a interpretação dada acima. Quando ele menciona 3 semanas de jejum, o texto escolhe adicionar exatamente “três semanas de dias” (verso 2, tradução literal), a única ocorrência em toda a Bíblia de uma distinção tão cuidadosa, como se para distinguir entre dois tipos de semana: a semana de anos em Daniel 9 e a semana de dias no capítulo 10. 2.A equação de “dia-ano” aparece em toda a Bíblia. Narrativas, muitas vezes, empregam a palavra “dias” (yamim) no sentido de anos, onde a maioria das traduções atualmente traduz por “anos” (ver Êxo. 13:10; Juí. 11:40; I Sam. 1:21; 2:19; 27:7; Num. 9:22; I Reis 11:42; Gên. 47:9, etc.). As passagens poéticas da Bíblia contêm muitos paralelismos entre “dias” e “anos”:

“São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem?” (Jó 10:5);

“Considero os dias da antiguidade, os anos dos tempos passados” (Sal. 77:5);

“a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus” (Isa. 61:2).

            Este princípio também aparece nos textos Levíticos.

            Por seis anos os lavradores israelitas trabalhavam sua terra, mas no sétimo ano ela tinha de ser deixada ociosa. As Escrituras chamam o sétimo ano de um descanso sabático, como o sétimo dia da semana (Lev. 25:1-7), com a diferença que era um “Sábado de anos” e não um “Sábado de dias. ” A Bíblia usa a mesma linguagem em relação ao jubileu: “contarás sete sábados de anos, sete vezes sete anos” (verso 8). O princípio também aplicado à profecia.

josue y el sol

              Assim, os 40 dias, durante os quais os espias exploraram Canaã, se tornaram nos 40 anos vagueando no deserto:

“Segundo o número dos dias que espiaste a terra, a saber, quarenta dias, levareis sobre vós as vossas iniquidades por quarenta anos, um ano por um dia” (Num. 14:34).

              Do mesmo modo Deus deu ordem ao profeta Ezequiel para deitar sobre seu lado esquerdo, por muitos dias, cada dia simbolizando um ano.

“Eu fixei os anos da sua iniquidade, para que eles sejam contados em dias” (Eze. 4:5).

3.Tanto a tradição judaica como cristã tem entendido as semanas de Daniel, como semanas de anos. Entre numerosos trabalhos, citamos:

  • Textos como da literatura helenística no Book of Jubilees (terceiro/segundo séculos AEC),
  • O Testament of Levi (primeiro século AEC),
  • I Enoch (segundo século AEC);
  • Na literatura de Qumran (segundo século AEC) tais textos como II Q Melchitsedeq, 4 Q 384-390 Pseudo-Ezequiel, o Damascus Document;
  • Na literatura rabínica, textos como o Seder Olam (segundo século EC),
  • O Talmud, o Midrash Rabbah, e mais tarde os exegetas clássicos da Idade Média, como Saadia Gaon, Rashi, Ibn Ezra no Miqraoth Gdoloth.2 

            Todos testemunham desde os tempos mais antigos a validade de nossa linha de interpretação. O princípio de interpretação de dia-ano, é provavelmente o mais antigo e o mais sólido princípio na exegese de nossa passagem. Semanas Indivisíveis. As semanas de anos da visão são supostas a levar à vinda do Messias: “até o ungido príncipe sete semanas e sessenta e duas semanas… e depois dessas sessenta e duas semanas deve ser tirado o Messias, e ninguém por ele” (Dan. 9:25, 26; tradução literal).

Setenta Shabu'im Daniel 9 24 a 27

            A vinda do Messias é para ocorrer depois de 62 semanas, que são adicionadas às sete semanas. Não existe quebra entre as sete semanas e as 62 semanas, como algumas traduções podem indicar. Nem o texto massorético – isto é o texto pontuado e vocalizado pelos Massoretas no décimo século EC (nossa versão hebraica atual) – indica o acento disjuntivo (Athnakh), que indicaria uma pausa após “sete semanas.” Mas muitos elementos apontam para continuidade.

  1. A primeira razão é lógica e contextual. Já a introdução soma as semanas como 70: “Setenta semanas estão decretadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade” (verso 24).

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            Além disto, se não tomarmos as semanas no sentido de anos, uma ruptura depois de sete semanas seria ilógica, indicando que o Messias teria vindo 49 anos depois de 457 AEC (sete vezes sete) em lugar de 483 anos depois daquela data (69 vezes sete).

            2.A segunda razão é estilística.3 O autor bíblico construiu a estrutura do texto, sobre os dois temas entrelaçados, do Messias e Jerusalém, cada um com uma palavra chave. Cada vez que o texto se refere ao Messias (A1, A2, A3), a palavra “semanas” (shabuim) aparece, enquanto cada vez que o texto fala de Jerusalém (B1,B2, B3) a palavra “trincheira”/“decreto” (hrs) aparece. Note a estrutura literária de Daniel 25-27 (tradução literal):

  • A1 Vinda do Messias (verso 25) (desde a saída da palavra para restaurar e construir Jerusalém), até “o” Príncipe Messias, 7 semanas e 62 semanas.
  • B1 Construção da cidade (verso 25b) ela será restaurada e construída com praças e trincheiras em um tempo de tribulação.
  • A2 Morte do Messias (verso 26a). depois das 62 semanas, ele será cortado sem nenhuma ajuda.
  • B2 Destruição da cidade (verso 26b). e o povo do príncipe agressivo destruirá a cidade e o santuário; seu fim será em uma inundação; até o fim  da guerra está decretado desolações.
  • A3 Aliança como Messias (verso 27a). E ele fortalecerá uma aliança com muitos por uma semana; e no meio da semana ele fará o sacrifício e a oferta cessar para sempre.
  • B3 Destruição da cidade (verso 27b). e nas asas da abominação, desolações até o fim, e então o que foi decretado será derramado sobre o poder desolador.

            As mesmas duas palavras chave, aparecem cada vez, em seus respectivos contextos (“semanas” no contexto do Messias, e “trincheira/decreto” no contexto de Jerusalém). Tal característica literária se refere a sete e 62 semanas somente ao Messias e não para Jerusalém (assim como “trincheira/decreto” está relacionado para Jerusalém e não para o Messias). Então, concluímos da estrutura, que a quebra viria somente depois das 62 semanas (e não depois das sete semanas), como no caso das antigas traduções, como a Bíblia Septuaginta, a Bíblia Siríaca, e até a versão Qumran do texto.4 

Semana de anos II

            3.A terceira razão deriva da sintaxe e uso do assento disjuntivo massorético, o athnach anexado á palavra “sete.” Realmente o uso do athnach não significa sempre separação. Ele é muitas vezes usado para marcar uma ênfase.5

            Assim em Gênesis 1:1 o athnach está colocado sob o verbo bara (criar) obviamente não para marcar uma separação entre este verbo e seu objeto complementar, “céus e terra” mas de preferência, para enfatizar a operação divina da criação. Se o athnach tivesse sido tomado como um disjuntivo completo, isso atrapalharia o significado da sentença, fazendo-o ler “no começo Deus criou. O céu e a terra.”

            Outro exemplo aparece em Genesis 22:10 no qual o athnach está colocado na palavra “faca”, não para fazer a separação, mas para marcar aqui também uma ênfase, uma pausa expressando a ideia de que a faca está suspensa. O efeito do athnach não é sintático e não deve ser interpretado como fazendo uma separação. Ele enfatiza a faca, que ameaça Isaac, e assim sugere algum tipo de suspensão. Do mesmo modo Daniel 9:24 o athnach está colocado na palavra “sete”, para enfatizar a importância do número sete na mensagem profética.           É notável, realmente, que a experiência profética de Daniel começa (Dan. 9:2) com a visão dos 70 anos (7 x10) e conclui com a visão de 7 semanas (7 x 7 x 10). Também simbólico, é o modo de como as 70 semanas estão divididas para, de novo, salientar o número 7. Ele marca em Daniel 9:25 o início das 70 semanas (7 semanas), e nos versos 6-27, o fim das 70 semanas (1 semana = 7 dias). A razão para esta ênfase sobre o número 7 é obviamente para conduzir à ideia de salvação completa e final, ligada à vinda do Messias. Então, as semanas de Daniel 9 constituem uma soma indivisível. Devemos ler as 62 semanas em conjunto com as sete semanas.

 Semana de anos

            Com base na data do início da profecia (457 AEC) e sua duração (70 semanas de anos) se torna possível determinar o fim da profecia e descobrir o evento para o qual a profecia leva. 3.O Fim da Profecia Sua Vinda. A vinda do Messias é esperada então por 69 semanas de anos, isto é, 483 (69 x 7) do ponto de partida, 457 AEC. A sétima semana seria então, o ano 27 de nossa era. O aparecimento de um indivíduo chamado “Cristo” (tradução grega da palavra Ungido/Messias) marcaria este ano. É precisamente o ano quando Jesus foi batizado e “ungido” pelo espírito (Lucas 3:21, 22). Lucas data o evento no décimo quinto ano do reinado de Tibério Cesar (verso 1).6 Jesus inaugurou Seu ministério, como Messias, ao ler publicamente, no texto de Isaias, a descrição de Sua própria obra em termos de Jubileu: “O espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18, 19).

            Ao mencionar o Jubileu, Jesus se situa diretamente na perspectiva da profecia das 70 semanas, a qual descreve o mesmo evento, também em termos de Jubileu (ver abaixo). Assim, Jesus define, a si próprio, como o cumprimento da profecia: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (verso 21). Sua Morte. O texto da profecia vai tão longe, a ponto de predizer a morte do Messias: “E depois de sessenta e duas semanas será cortado o ungido… e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferenda” (Dan. 9:26, 27, tradução literal). A violência, implicada na morte do Messias, o texto faz pelo verbo “cortar” (krt na forma Niphal: passivo). De modo interessante, o verbo nesta forma, normalmente designa, nas partes legais do Pentateuco, uma pessoa condenada à morte. O verbo está em um tempo que implica uma ação brutal e definitiva (hebraico imperfeito).

            Mas as Escrituras também descrevem a morte do Messias em termos Levíticos. O verbo krt pertence ao contexto da aliança, tornada possível, através dos sacrifícios. Em hebraico, o verbo krt sempre acompanha a palavra aliança (Gên. 15:18; Jer. 34:13),  por que em hebraico, a aliança é corte (krt) A palavra krt é rica em conotações de aliança e de sacrifício, necessário, do cordeiro. (Gên. 15:10; Jer. 34:18). Em outras palavras, Daniel anuncia a morte do Messias, em termos evocativos da aliança, manifestada pela morte do cordeiro no sistema Levítico. A introdução da profecia das 70 semanas já faz alusão a isto ao mencionar a expiação do pecado (Dan. 9:24).   A profecia, dessa forma, identifica o Messias com o sacrifício da aliança. Como o carneiro, Sua morte tornou possível a aliança e garantiu o perdão divino. Tudo isso era a linguagem que os israelitas, vivendo em um contexto onde o sacrifício era uma parte da vida diária, poderiam facilmente entender. O profeta Isaias, usaria as mesmas palavras, ao descrever o servo sofredor – não representando nem Israel nem o profeta7 – que também precisa morrer como um cordeiro de modo a o garantir perdão e a salvação: “mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu sua boca; como um cordeiro  que é levado ao matadouro, e como a ovelha que é muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca” (Isa. 53:6, 7).

sacrificio II

            Assim não é de surpreender que os judeus, no tempo de Jesus, reconhecessem o Messias como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29), e estavam habilitados a discernir, nos sacrifícios diários oferecidos no Templo,  uma prefiguração do Salvador-Messias, como “a sombra dos bens futuros” (Heb. 10:1). Consequentemente, Sua morte deveria resultar na anulação dos sacrifícios: “Ora, onde há remissão destes, não há mais oferta pelo pecado” (verso 18), exatamente como o profeta Daniel tinha predito: “Ele… fará cessar o sacrifício e a oblação” (Dan. 9:27). A morte do Messias era então para ocorrer no meio da septuagésima semana (verso 27). “Meio” é uma tradução do termo hebraico hatsi melhor do que “metade,” como algumas versões parecem deduzir. Em certos contextos a palavra não significa “metade,” porém, em uma situação envolvendo um período de tempo ela sempre significa “meio,” como no caso de nossa passagem (ver Êxo. 12:29; Jos. 10:13; Juízes 16:3; Rute 3:8; Sal. 102:24). “No meio da semana” significa três anos e meio depois do ano 27, isto é, o ano 31, o ano da Crucificação.  O tempo e a importância, da morte de Jesus de Nazaré, concordam perfeitamente com a profecia. A queda de Jerusalém. Em seguida à morte do Messias, o profeta Daniel focaliza o destino de Jerusalém e do Templo: “E o povo do príncipe agressivo deverá destruir a cidade e o santuário; seu fim deverá ser em uma inundação; até o fim da guerra é decretado, desolações… e sobre a asa abominações, desolações até o fim, e então o que foi decretado, será derramado sobre o poder desolador” (Dan. 9:26, 27, tradução literal). A profecia é suficiente clara. Ela se refere à queda de Jerusalém e a destruição do Templo, mas não data o evento. A profecia das 70 semanas se restringe a data cronológica do evento do Messias (ver acima). Ela apenas nos informa que haverá “guerras”, “desolações, ” e “abominações, ” e que a tragédia ocorrerá, cronologicamente, algum tempo depois da morte do Messias.

            Um forte consenso na tradição judaica, reconhece que está profecia se referia aos romanos, que “inundaram” para dentro da cidade e “devastaram” o Templo, resultando em “desolação” total. Flavius Josephus,8 que aparentemente testemunhou o evento, o Talmud,9 e os grandes rabinos medievais10 Rashi, Ibn Ezra, etc., todos concordam que devemos aplicar esta visão profética ao cerco de Jerusalém, pelas legiões de Vespasiano, e finalmente por Tito no ano 70 EC. Note que a profecia não cita o evento como punição de deus sobre seu povo. Todas as referências da história de Jerusalém (sua reconstrução, assim como sua destruição) servem como marcos para situar o evento do Messias. Os romanos, de qualquer forma, são denunciados como o mal. O verbo “destruir” (yashhît em Dan. 9:26) também aparece em Daniel 8:24 com o poder do mal, o chifre pequeno, como seu sujeito. Também os romanos são o objeto direto da retribuição divina que ‘será derramada sobre eles,’ linguagem que implica Deus como agente.

arco de tito 2

            Agora, se o texto implica uma possível conexão entre a queda de Jerusalém e os pecados de Israel, ele nunca sugere o fim do povo judeu, como ele o faz para os romanos. Ele menciona sim a conclusão do sistema sacrifical. E isso não implica a fim da teocracia judaica, visto que o último rei davídico agora se assenta num trono celestial. Mas o povo judeu sobrevive e ainda mantém a adoração e o testemunho do Deus de Abraão, Isaac, Jacó, e Daniel. Muitos deles reconheceram Jesus como seu Messias e assim levaram o antigo testemunho para distantes partes do mundo. A aliança. É notório que o profeta Daniel não descreve a obra do Messias como uma “nova aliança”, mas de preferência, reforçar a aliança original. A passagem usa a palavra “confirmar” (NVI) ou “reforçar” (higbir da raiz gbr denotando força). O encontro com o Messias não foi designado para conseguir “converso novo” fora de Israel, mas ao contrário, era para reforçar suas raízes e sua aliança com o Deus de Israel. Além disso, esta aliança refere-se a rabbim (“muitos”), um termo técnico que conota uma ideia de universalidade.11

Arco de Tito

            Assim a aliança não é somente “reforçada” com  “muitos” judeus, mas também é estendida às “muitas” nações. Em contraste com o evento da queda de Jerusalém, este evento está situado no tempo, pois ele se refere ao Messias: “E Ele fará um pacto firme com muitos por uma semana”12 (Dan. 9:27). A profecia então nos leva ao final da última semana das 70 semanas (34 EC). É notório que a data marca um evento, que tem tido um considerável impacto na civilização, assim como sendo um evento chave para a salvação da humanidade. Foi o ano em que a mensagem do Deus de Israel, explodiu além das fronteiras da Palestina e atingiu os gentios, os “muitos” justos mencionados (Atos 8). Ele é também, o ano da conversão de Paulo e de sua comissão por Cristo (Atos 9).

            Assim como foi também, o ano que Deus derramou o Espírito Santo sobre os gentios e Pedro recebeu sua estranha visão, encorajando-o a pregar aos gentios. Ainda muitos cristãos, em lugar de prestar atenção ao que o Messias tinha feito em favor do mundo, incluindo primeiramente os judeus (ver Rom. 1:16), preferiram especular e capitalizar no que eles pensaram que Ele estava fazendo contra os judeus.  Cristãos se referiram a profecia das 70 semanas para justificar o antigo anti-semitismo visceral. Ironicamente, a visão falando de esperança e amor, se tornou o pretexto para a pregação sobre a “rejeição dos judeus,” “a maldição divina sobre eles,” “O ultimato de Deus para Israel,” etc., quando, em nenhum lugar o texto da profecia sugere tal conceito.

biblia luz

            O Novo Testamento não dá suporte a um ensino assim. Pelo contrário, Paulo pergunta: “Acaso rejeitou Deus ao seu povo? De modo nenhum; por que eu também sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu” (Rom. 11:1,2). E alguns versos mais adiante, o apóstolo se refere ao princípio rabínico, Akut Aboth (os méritos dos pais), para tornar ao mesmo caso: “quanto à eleição, amados por causa dos pais, porque os dons e a vocação de Deus são irretratáveis.” (versos 28, 29).             Por outro lado, no mesmo capítulo e falando daqueles cristãos que pareciam vangloriar-se e desprezar suas raízes judaicas, Paulo endurece: “não te glories contra os ramos; e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti” (verso 18). O apóstolo aqui descobre e denuncia por trás disso, um poder direcionando ao anti-semitismo; um menosprezo das raízes judaicas. E se estão eles mesmos rejeitando os judeus, tais indivíduos envolvem Deus em seu julgamento e assim justificam sua teologia ao declarar que “Deus rejeitou os judeus.” Ao fazer isso, eles se identificam com Deus, num comportamento que os traz junto do chifre pequeno de Daniel 7 e 8.

            Na verdade, ao entreter o anti-semitismo, os cristãos de qualquer denominação, podem se associar com o chifre pequeno opressor. Num certo sentido eles se tornam o chifre pequeno.

 

4.A Conexão Entre as Profecias

            Deus enviou a profecia das 70 semanas não só para nos convencer sobre do evento histórico do Messias. Temos visto que para o profeta Daniel, a visão das 70 semanas tem a função de ajudar a “entender” melhor, a visão das 2300 tardes e manhãs. De fato, as duas profecias estão situadas na mesma perspectiva e devem ser entendidas, uma relacionada com a outra. 1.No nível cronológico, a profecia das 70 semanas traz a ligação perdida para a profecia das 2300 tardes e manhãs: seu ponto de início. As duas profecias começam com o mesmo evento, o decreto de Artaxerxes em 457 AEC. Contudo, a profecia das 70 semanas tem seu cumprimento logo, nos anos 27, 31 e 34. Aquela das 2300 tardes e manhãs cobre um longo período. A expressão técnica “tardes e manhas” emprestadas da linguagem da Criação, designa “um dia”. Em nosso contexto profético um dia significa um ano. Assim se contamos 2300 anos de 457 AEC, chegaremos ao ano de 1844.

SETENTA SEMANAS

            Mas não existe nada mais suspeito e perturbador do que uma data, especialmente em assunto de religião. Sentimo-nos mais confortáveis quando a verdade religiosa permanece dentro dos limites do domínio espiritual. No pensamento hebraico, de qualquer forma, verdade não é apenas uma mensagem espiritual ou filosófica, desenhada apenas para nutrir nossas almas ou mentes. Ao contrário, verdade bíblica é essencialmente histórica. Deus fala na história. E qualquer explicação, ou qualquer grau de ênfase, que queremos dar para a data do cumprindo desta profecia, não devemos ficar surpresos de que profecia bíblica leva em conta este risco, entrando na carne da história, até em nossa história moderna. 2.As duas profecias estão relacionadas e complementam uma a outra em relação à verdade teológica delas. A salvação ocorre em dois passos: primeiro o evento da cruz, e segundo, a grande expiação cósmica (2300 tardes e manhãs), algo já implicado pelo ritual Levítico. O sacrifício diário não era suficiente. Kippur era também necessário para atingir a salvação completa.

            O profeta Daniel já sugere tal necessidade. Todos os verbos chaves de Daniel 8 e 9 estão na forma passiva (Niphal), característico da linguagem Levítica. Daniel 9 usa seis verbos na forma passiva: “são decretado” (verso 24), “ela será reconstruída” (verso 25), “será cortado” (verso 26), “foi decretado” (verso 26), “que foi decretado” (verso 27), “foi despejado” (verso 27). Daniel 8 emprega apenas um verbo nesta forma: “consagrado” (verso 14). O verbo no capítulo 8 completa os outros seis no capítulo 9, adicionando o número sagrado 7. Mas Daniel 8 e 9 partilham também outro elemento em comum: o sumo-sacerdote. Daniel 9:24 e Êxodo 29:36, 37 são as duas únicas passagens na Bíblia com os três temas comuns de expiação, unção e Santo dos santos. Sem dúvida Daniel tinha em mente Êxodo 29:42-44 quando ele transcreveu sua visão.

sacerdote 3 bênção

           Os últimos capítulos descrevem a consagração de Aarão, o primeiro sumo-sacerdote em Israel (versos 36, 37), e a instituição do sacrifício diário (versos 42-44). Deste modo, a profecia de Daniel 9 liga a morte expiatória do Messias com a consagração do sumo sacerdote e do sacrifício diário. Do mesmo modo, o capítulo 8 evoca a pessoa do sumo-sacerdote muitas vezes pela palavra “príncipe” (sar termo técnico para o sumo-sacerdote de Israel; ver I Cron. 15:22; Esdras 8:24; Dan. 10:5; e acima).     Contudo, as duas profecias, não estão situadas no tempo, do mesmo modo. A segunda profecia (Daniel 9) indica o momento exato da vinda  (unção) do Messias. A primeira (Daniel 8) indica o fim do período de tempo, dado em resposta à pergunta “quanto tempo?” (Dan. 8:13). A profecia das 70 semanas providencia a data exata de um evento enquanto a profecia das 2300 tardes e manhãs apresenta uma duração depois da qual haverá outro evento, aquele da purificação do santuário (verso 14). A datação dos eventos do capítulo 9 é fixada enquanto que a datação dos eventos do capítulo 8 permanece aberta. A forma verbal, expressando isso, serve de diferença entre as duas datas. Um imperfeito hebraico (yekaret: “será cortado,” 9:26) que uma ação dinâmica, descreve a morte do Messias. Um perfeito hebraico (nitsdaq: “será re-consagrada,” 8:14) descreve a purificação do santuário.

Ressurreição

            A morte do Messias ocorre no ano 31. É uma ação definida, começando e terminando exatamente assim. A purificação do santuário, por outro lado, é uma ação indefinida estendida para além do ano de 1844 e a qual Daniel descreve como “o tempo do fim” (ver Daniel 8:17, 26).  Este tempo do fim contém um evento que devemos, além disso, entender em relação ao evento ocorrendo no ano 31. Muitos cristãos têm negligenciado este aspecto em suas doutrinas de salvação. Eles declaram que a cruz é suficiente. “Tudo foi cumprido”. O cristianismo se tornou assim uma religião obcecada com a cruz, uma religião do passado e do presente. Isso entende salvação por obras boas e de auto sacrifício, padronizada após o Grande exemplo, ou apenas uma fé sentimental interessada com o pensamento e lembrança do sacrifício do Messias. De qualquer modo, a salvação foi.

            A religião cristã não tem necessidade de futuro, desde que a cruz já conseguiu a salvação. Experiências subjetivas vêm substituir o evento histórico. Uma religião existencial prevalece sobre a esperança bíblica no reino de Deus, que promete então, que a morte e o mal, não mais vão atacar.  A cruz sem o reino não faz sentido. Do mesmo modo precisamos do evento da cruz para sobreviver ao juízo. Para salvar a humanidade, Deus teve de descer até a humilhação da humanidade, morrer, e através de Sua morte, salvar, redimir-nos de nosso pecado. Apesar disso Deus não quer meramente mostrar Seu amor por nós, como faz um herói em um ato grandioso de auto sacrifício, de tal maneira que devemos amar e adorá-lO. Tal amor seria completamente egoísta. Por que Ele realmente ama, Deus quer realmente salvar.  Para realmente acabar com a morte e o mal, a vida deve ser transformada, e todos os traços do pecado, retirados. Salvação é mais que um ato angélico de graça – é um ato de violência contra a natureza, contra os elementos. Tais são as implicações do juízo no fim dos tempos.   3.Finalmente, no nível existencial do crente, fé no sacrifício redentor do Messias e esperança no reino de Deus depende um do outro. Quanto maior a fé mais intensa é a espera. Nossa existência está situada entre o “agora” e o “ainda não.” Neste estado de tensão a vida enfrenta um novo significado. Esperança no futuro enriquece o presente. A boa notícia do evangelho é que apesar da morte, e da sensação que temos da vinda da perdição, podemos ainda sonhar e esperar algo do futuro.  Mas nossa espera pelo novo reino não é passiva. Dinâmica por natureza, ela deriva da impaciência, como foi no caso de Daniel.

Daniel 1 o Profeta

            A escolha ética, a luta contra a injustiça e sofrimento, tudo se intensifica durante nossa espera. O futuro projeta luz e perspectiva no presente. Nós vemos além da necessidade imediata, o sofrimento dos outros não é mais indiferente. Por que pensamos além de nossa condição presente, nossas decisões têm uma base mais profunda.  Desesperando qualquer entendimento, e preocupado pela demora de Deus, Daniel cai de joelhos, em oração. No momento propício da oferta da tarde, a resposta de Deus é um Messias agonizante. Em Daniel 7 o Messias era o “filho do homem” real, que recebeu o domínio sobre o mundo. No próximo capítulo, em Daniel 8, o Messias foi o sumo-sacerdote oficiante no traje de Kippur. Finalmente, em Daniel 9 o Messias é a vítima expiatória. A mente hebraica representa o cenário para trás. Por que é a morte do Messias que serve como base para a salvação (capítulo 9). Então, brandindo o poder expiatório deste sacrifício, o Messias advoga por nós, na corte celestial, e ganha o julgamento (capítulo 8). Finalmente, o reino é anunciado (capítulo 7).       

ESTRUTURA DE DANIEL 9

I O Messias dos setenta anos (versos 1, 2) 

1 Ano da vinda de Ciro 

2 Profecia de Jeremias

 

II Oração (versos 3-19) 

A    Invocação de Deus (verso 4)        

            B    Nós… (versos 5, 6)              

                        C      Nota universal (versos 7-9)             

                                    a     Para você (verso 7)                   

                                                b    Para nós (verso 7)

                                                            c    Para todo Israel (verso 7)        

                                                b1   Para nós (verso 8)           

                                    a1   Para você (verso 9)        

            B1  Nós… (versos 10-14) 

A1  Invocação de Deus (versos 15-19)

 

III  O Messias das setenta semanas (versos 20-27)

 

 70 semanas determinadas sobre o povo e sobre Jerusalém (verso 24) 

A1 Vinda do Messias: no fim de 7 e 62 semanas (verso 25a)  

            B1 Construção da cidade (hrs) 

A2  Morte do Messias: depois das 62 semanas (verso 26a)  

            B2        Destruição da cidade (hrs) 

A3  Aliança: meio da semana (verso 27a)  

            B3 Destruição do destruidor (hrs)  

 

 

Autor: JACQUES B. DOUKHAN, Segredos de Daniel   –  Sabedoria e Sonhos de Um Príncipe Judeu no Exílio, págs. 135 a 156.

 

 

 

  1. A História nos diz que Artaxerxes começou seu reinado em 465 AEC, o ano de sua ascensão ao trono (ver: “Artaxerxes” na Universal Larousse). De acordo com a Bíblia, contudo, o primeiro ano de seu reinado teria começado no início do próximo ano, em Tishri (ver Jer. 25:1 e Dan. 1:1,2; cf. II Reis 18:1, 9, 10; cf. Mishna Rosh Hashanah 1. 1). O setimo ano de Artaxerxes teria então se extendido do outono (Tishri) 458 ao outono 457).
  2. Ver Jacques Doukhan, Drinking at the Sources (Mountain View, Calif.: Pacific Press, 1981), p. 67.
  3. Ver Jacque Doukhan, “The Seventy Weeks of Dan. 9: An Exegetical Study,” 17, No. 1 (1979): 12-14.
  4. Ver Geza Vermes, The Complete Dead Sea Scrolls in English (New York: 1997), p. 127.
  5. Ver William Wickes, Two Treatises on the Accentuation of the Old Testament (New York: 1970), parts I:32-35; II:4.
  6. Ver Doukhan, Drinking at the Sources, pp. 135, 136, n. 186. 
  7. Para distinção entre o servo e Israel, ver Isa 49:5-7 e 53:4-6.
  8. Josephus, Wars of the Jews, 5.6, 10.
  9. Babylonian Talmud Gittin 56a, 56b, 57b.
  10. Miqraoth Gdoloth.
  11. Doukhan, “The Seventy Weeks of Dan. 9,” p. 21. 12. Notar que a palavra “para” usada geralmente em nossas traduções do Inglês não aparece no hebraico. Em nossa tradução literal do hebraico, os dois pontos são como o acento disjuntivo Massorético tifha.
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