Um Novo Conceito de Torá? – A Influência Grega no Pensamento Hebraico


             Na Bíblia hebraica, a Torá surge em meio à história da salvação (yeshua’ah). Ela é proclamada no Sinai em um momento específico da história e transmitida tendo por foco uma situação histórica específica: a existência nacional na Terra Prometida. Essa perspectiva aparece de forma eloquente nos discursos de Moisés no Deuteronômio (D’varim). A Bíblia não nos dá pista alguma de que a Torá tenha existido antes da criação do mundo.

Sinai I

            O helenismo, porém, explicava a existência do mundo da seguinte forma: a lei oculta que rege todo o universo é a razão divina, o logos, sendo tarefa moral da humanidade viver uma vida em conformidade com essa razão divina, que é a lei da ética assim como da natureza. (veja Maximilian Forschner)

Grécia

            De que forma os sábios judeus reagiram a esse conceito?

            Eles adotaram a ideia – mas aplicaram-na à lei de Moisés! A Torá é o padrão oculto mediante o qual o mundo foi criado; assim, uma vida de acordo com a lei da natureza é também uma vida de acordo com a Torá.

            O primeiro escritor judeu a aplicar a ideia da preexistência e da significação cósmica à Torá foi o autor do Sirácida (aproximadamente 190 a.C).

            Ajudou-o nessa compreensão a identificação da Torá com a sabedoria preexistente de Deus, por meio da qual Deus criou o mundo (Mishlei/Provérbios 08:22-31).  No Sirácida, capítulo 24, encontramos um belo hino em que a sabedoria louva a si mesma como lei preexistente à criação. O autor do livro acrescenta: “Tudo isto é o livro da aliança do Deus Altíssimo, a Lei que Moisés nos prescreveu para ser o patrimônio das assembleias de Jacó” (v. 23).

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            Mais tarde, os rabinos aprofundaram a ideia identificando o “princípio” (em hebraico, reshit) de Gênesis 01:01 com o reshit de Provérbios 08:22 referente à sabedoria (= Torá), de modo que é possível fazer a seguinte leitura de Gênesis 01:01: “Pela sabedoria, criou Deus”, sendo a sabedoria igual à Torá. Em um midrash rabínico de Gênesis 01:01 lemos:

“Geralmente, quando um rei constrói um palácio, ele não o faz sozinho, mas chama um arquiteto, e o arquiteto não planeja o edifício em sua cabeça, ele recorre a rolos e tabuinhas (…) Assim também o Santo, bendito seja, olhou para a Torá e criou o mundo. E a Torá diz: “Com reshit Deus criou” (Gên. 01:01), e reshit não significa outra coisa que não Torá, conforme lemos: “O Senhor me criou como reshit de seu caminho” (Prov. 08:22). (Gn. Rab. 01.01). (Tradução de Soncino, p. 1)

            Trata-se de um conceito totalmente judaico: o modelo com base no qual o mundo foi criado é a Torá de Moisés! Ao mesmo tempo, é totalmente helenístico também. Como reconheceria mais tarde o filósofo Maimônides, essa midrash  refere-se à Torá de forma muito semelhante à que Platão referia-se ao que chamava de “Ideias”, o padrão intelectual por trás do mundo material. (veja Maimônides, Guide for the perplexed 2.6)

mundo

            O conceito da Torá divina como mediadora preexistente à criação do mundo – os rabinos a chamam de “Filha de Deus” …

            Embora não seja o único elemento helênico incorporado à nova concepção da Torá talvez seja o mais importante.

            Os seguintes conceitos também são significativos, principalmente porque muitos os veem com representantes típicos do judaísmo rabínico:

            1 – Atribuem-se ao famoso rabino Hillel (que viveu poucos anos antes de Jesus) sete regras de interpretação dos textos bíblicos. David Daube demonstrou que todas elas correspondem a métodos gregos de exegese ensinados nas escolas gregas de direito e retórica e aplicadas aos códigos de Lei. (veja David Daube, Rabbinic methods of interpretation and Hellenistic rhetoric, Hebrew Union College Annual 22 (1949).

            Na Bíblia, essa fórmula técnica de interpretação da lei jamais ocorre.

            2 – De igual modo, a “tradição dos antigos”, da qual se derivou posteriormente o conceito da Torá oral, tem raízes nas escolas gregas de filosofia. Essas escolas haviam desenvolvido forte percepção da tradição, tendo se tornado comum substanciar a doutrina da escola citando-se a cadeia de famosos professores que a haviam transmitido desde o princípio, conferindo-lhe assim autoridade. Essa forma de conferir autoridade a uma doutrina foi depois adotada pelos rabinos. (veja Elias J. Bickerman, La chaine de la tradition pharisienne, em Studies in Jewish and Christian Historiy, v. 2, 1980). M. Pirke Avot 1.1 é um exemplo clássico disso:

“Moisés recebeu a Lei no Sinai e confiou-a a Josué; este, por sua vez, confiou-a aos anciãos e aos profetas, que a confiaram aos homens da Grande Sinagoga (…) Simão, o Justo, era um remanescente da Grande Sinagoga (…) Antígono de Soko recebeu (a Lei) de Simão, o Justo (…) José b. Joezer de Zeredah e José B. Johanan de Jerusalém receberam (a Lei) deles, (e assim por diante) (M Avot 1.1-4). Danby, p. 446.

            A fórmula dos textos rabínicos, “o rabino X disse em nome do rabino Y, que recebeu por tradição do rabino Z”, é uma maneira helenística de substanciar uma afirmação, e jamais ocorre na Bíblia.

            Mesmo que não tivéssemos nenhuma prova literária dessa maneira defalar antes do século III a.C., o antigo conceito da “tradição dos antigos” deixa clara essa mesma formulação helenística.

            3 – Outra ideia helenística semelhante ao ideal grego de que todos deveriam estudar filosofia aparece no ideal rabino-farisaico de que todos os judeus deveriam tornar-se estudiosos da Torá.

            Três dizeres atribuídos à “Grande Sinagoga” (no texto citado anteriormente) expressam o novo conceito predominante de piedade, cujo ápice é alcançado no erudito, no estudante e no escriba:

  • “Levantai-vos todos vós, os muitos discípulos (da Torá)” (M Avot 1.1)
  • “Buscai um professor e que seja para vós um condiscípulo” (M Avot 1.6)
  • “Quanto mais estudardes a Torá, mais vida (tereis)” (Hillel, M Avot 2.7)

            Desta e de outras maneiras, o judaísmo absorveu ideias helenísticas sem perder sua identidade e sem comprometer seus princípios essenciais. Essas novas ideias foram usadas, nas palavras de M Avot 1.1, “para erigir uma proteção em torno da Torá”, para glorifica-la, e não para destruí-la. Não é o mundo das “Ideias” concebido por Platão que é o modelo segundo o qual o mundo foi criado – é a Torá!

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            Assim, uma vez reconhecidas a exclusividade do Israel de Deus e a validade absoluta de sua Lei, os sábios podiam usar de larga liberalidade na aplicação das ideias e dos conceitos gregos em suas reflexões sobre a Torá.

            Uma confirmação fascinante dessa interpretação vem da aceitação, por parte dos judeus, dos esforços de Herodes, o Grande, de transformar Jerusalém em cidade helenística por excelência mais de 150 anos depois das tentativas dos helenizantes contemporâneos dos macabeus. Herodes tentou até mesmo helenizar os aspecto exterior do Templo – e não encontrou forte oposição a isso. Nas palavras de Bickerman:

“Ao tempo do Epifanes, o ginásio de Jerusalém constituía um perigo enorme para o judaísmo. Ao tempo de Filo, os judeus de Alexandria aglomeravam-se durante os jogos sem sacrificar parte alguma do judaísmo. O teatro, o anfiteatro e o hipódromo construídos em Jerusalém por Herodes receberam posteriormente a visita de judeus ortodoxos.” (veja From Ezra to the last of the Maccabees: foundations of post-biblical Judaísmo, New York, Schocken, 1962, p. 181)

            A Jerusalém de Jesus era uma cidade helenística e herodiana. Um visitante grego não se sentiria deslocado naquela arquitetura tipicamente helênica de ruas regulares e ângulos retos. (veja John Wilkinson)

            A visão mais impressionante era o Templo que, exceto por seu tamanho grandioso, pouco diferia de outros templos helenísticos. ( O Templo de Herodes tomou provavelmente como modelo o “Caesaraeon” erigido por Júlio Cesar, em 48 a. C., em Alexandria).

            Se porém, o visitante pudesse visitar o interior do Templo – o que não era possível -, teria diante de si o interior do velho santuário israelita praticamente intacto. Isto poderia ser tomado como símbolo da relação entre o judaísmo e o helenismo nos dias de Jesus.” (veja Jew and Greek, de Dix, “The Conflict of the Syriach ande Greek Cultures.)

Fonte: Oskar Skarsaune, A Sombra do Templo, Vida, págs. 28 a 32.

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