Os Dez Mandamentos – A Lei Eterna de Deus


Adão e Eva, ao serem criados, tinham conhecimento da lei de Deus; estavam familiarizados com os reclamos da mesma relativamente a si; seus preceitos estavam escritos em seu coração, o cumprimento da lei é o amor, Deus é amor, e ambos foram criados a imagem e semelhança de Deus.

Quando o homem caiu pela transgressão, a lei não foi mudada, mas estabelecido um plano que remediasse a situação trazendo novamente o homem à obediência. Foi feita a promessa de um Messias e prescritas ofertas sacrificais, o próprio Eterno fez o primeiro sacrifício ao vestir nossos primeiros pais com peles de animais, Abel fez o segundo, Noé o terceiro, numa série de sete momentos até a construção do Tabernáculo do deserto que apontavam ao futuro, isto é, eram uma Torah, uma instrução que pedagogicamente ensinava que o pecado gera a morte, mas a graça/aliança de Deus prove um substituto para morrer no lugar do pecador.

Mas, se a lei de Deus nunca houvesse sido transgredida, não teria havido morte, tampouco haveria necessidade de uma instrução, Torah; conseqüentemente não teria havido necessidade de sacrifícios.

Adão ensinou a seus descendentes a lei de Deus, e esta foi transmitida de pai a filho através de gerações sucessivas. Mas apesar das graciosas providências para a redenção do homem, poucos houve que as aceitaram e lhes prestaram obediência. Pela transgressão o mundo se envileceu tanto que o juízo de Hashem se manifestou contra a corrupção através do dilúvio.

Noé 7

A lei foi preservada por Noé e sua família, e Noé ensinou a seus descendentes os princípios de amor dos Dez Mandamentos. Como os homens de novo se afastassem de Deus, o Eterno escolheu Abraão, a respeito de quem declarou:

“Abraão obedeceu à Minha voz, e guardou o Meu mandamento, os Meus preceitos, os Meus estatutos, e as Minhas leis.” Gên. 26:5.

A ele foi dado o rito da circuncisão, que era um sinal de que os que o recebiam eram dedicados ao serviço de Deus – garantia de que permaneceriam separados da idolatria e obedeceriam à lei de Deus. O fracasso dos descendentes de Abraão para manterem este compromisso, conforme se revela em sua disposição para formar alianças com os goins/gentios e adotar-lhes os costumes, foi a causa de sua peregrinação e cativeiro no Egito. Mas, em seu intercâmbio com os idólatras e forçada submissão aos egípcios, os preceitos divinos tornaram-se ainda mais corrompidos com os ensinos vis e cruéis da idolatria egípcia aprendida durante o cativeiro. Foi então, quando Adonai os tirou do Egito e desceu sobre o Sinai, cercado de glória e rodeado de Seus anjos, e com terrível majestade proferiu Sua lei aos ouvidos de todo o povo.  

dez mandamentos 5

Mesmo então não confiou Seus preceitos à memória de um povo tão propenso a esquecer os Seus mandos, mas escreveu-os em tábuas de pedra. Queria remover de Israel toda a possibilidade de misturar tradições gentílicas com Seus santos preceitos, ou de confundir Seus mandos com ordenações e costumes humanos. Mas não Se limitou a dar-lhes os preceitos do Decálogo. O povo mostrara deixar-se transviar tão facilmente, que Ele não deixaria indefesa nenhuma entrada para a tentação. Ordenou-se a Moisés escrever, conforme Deus lhe mandasse, juízos e leis que davam minuciosas instruções quanto ao que era requerido. Estas instruções, Torah, relativas ao dever do povo para com Deus, de uns para com outros e para com o estrangeiro, eram apenas os princípios dos Dez Mandamentos, ampliados e dados de maneira específica, para que ninguém estivesse no caso de errar. Destinavam-se a resguardar a santidade dos dez preceitos gravados nas tábuas de pedra.

Se o homem houvesse guardado a lei de Deus conforme fora dada a Adão depois de sua queda, preservada por Noé e observada por Abraão; não teria havido necessidade de se ordenar a circuncisão. E, se os descendentes de Abraão houvessem guardado o concerto, do qual a circuncisão era um sinal, nunca teriam sido induzidos à idolatria; tampouco lhes teria sido necessário sofrer vida de cativeiro no Egito; teriam conservado na mente a lei de Deus, e não teria havido necessidade de que ela fosse proclamada no Sinai, nem gravada em tábuas de pedra. E, se o povo houvesse praticado os princípios dos Dez Mandamentos, não teria havido necessidade das instruções adicionais dadas a Moisés.

Sacrificio 1

O sistema sacrifical, entregue a Adão, foi também pervertido por seus descendentes. Superstição, idolatria, crueldade e licenciosidade, corrompiam o culto simples e significativo que Deus instituíra, chegando a ponto de realizar sacrifícios humanos.

Mediante o prolongado trato com os idólatras, o povo de Israel misturara com seu culto muitos costumes gentílicos. Através de sua tradição oral que mais tarde foi escrita como ensinamentos dos sábios, houve um sincretismo de ideias e conceitos do mundo pagão a partir de Babilônia, surgindo um tipo de esoterismo e espiritualismo judaico, a cabala.

Na sucessão de impérios que dominaram o povo de Israel, Babilônia, Medos e Persas chegamos, finalmente ao mundo grego e sua filosofia, quando os mestres judeus adaptaram sua exegese da Torah aos métodos ensinados nas escolas de direito e retórica (1)   

Talmud estudos de Z.H.

A“tradição dos antigos ou dos sábios” a “Torah oral” que havia surgido em Babilônia firmou suas raízes nas escolas gregas de filosofia.

“Essas escolas haviam desenvolvido forte percepção da tradição, tendo se tornado comum substanciar a doutrina da escola citando-se a cadeia de famosos professores que a haviam transmitido desde o princípio, conferindo-lhe assim autoridade. Essa forma de conferir autoridade a uma doutrina foi depois adotada pelos rabinos. (2)

M. Pirke Avot 1.1 é um exemplo clássico disso:

“Moisés recebeu a Lei no Sinai e confiou-a a Josué; este, por sua vez, confiou-a aos anciãos e aos profetas, que a confiaram aos homens da Grande Sinagoga (…) Simão, o Justo, era um remanescente da Grande Sinagoga (…) Antígono de Soko recebeu (a Lei) de Simão, o Justo (…) José b. Joezer de Zeredah e José B. Johanan de Jerusalém receberam (a Lei) deles, (e assim por diante) (M Avot 1.1-4). Danby, p. 446.

A fórmula dos textos rabínicos, “o rabino X disse em nome do rabino Y, que recebeu por tradição do rabino Z”, é uma maneira helenística de substanciar uma afirmação, e jamais ocorre na Bíblia.

Mesmo que não tivéssemos nenhuma prova literária dessa maneira de falar antes do século III a.C., o antigo conceito da “tradição dos antigos” deixa clara essa mesma formulação helenística.

Outra ideia helenística semelhante ao ideal grego de que todos deveriam estudar filosofia aparece no ideal rabino-farisaico de que todos os judeus deveriam tornar-se estudiosos da Torá.

Três dizeres atribuídos à “Grande Sinagoga” (no texto citado anteriormente) expressam o novo conceito predominante de piedade, cujo ápice é alcançado no erudito, no estudante e no escriba:

  • “Levantai-vos todos vós, os muitos discípulos (da Torá)” (M Avot 1.1)
  • “Buscai um professor e que seja para vós um condiscípulo” (M Avot 1.6)
  • “Quanto mais estudardes a Torá, mais vida (tereis)” (Hillel, M Avot 2.7)

Essas novas ideias (3) foram usadas, nas palavras de M Avot 1.1, “para erigir uma proteção em torno da Torá”, são as leis de cerca, o Jugo da Torah.

Foi nesse contexto que Yeshua/Jesus se confrontou com o Judaísmo tradicional de Sua época, em relação a interpretação da Lei de Deus, em diversas ocasiões, uma por exemplo foi quando lhe foi perguntado:

“Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: Por que transgredi vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição?…invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição, hipócritas…ensinando doutrinas que são preceitos de homens…” Mattityahu/Mateus 15:01-09 – RA. 

Após o sétimo passo relatado na Torah, Shemot/Êxodo 25:08 e 09, o Tabernáculo do deserto foi erigido, Hashem Se comunicou com Moisés da nuvem de glória em cima do propiciatório. Foi lhe instruções completas a respeito do sistema das ofertas e das formas de culto a serem mantidas no santuário. A lei cerimonial foi assim dada a Moisés, e por ele escrita em um livro. Mas a lei dos Dez Mandamentos, proferida do Sinai, foi escrita pelo próprio Deus em tábuas de pedra, e sagradamente conservada na arca e o modelo utilizado por Moisés é uma versão do Santuário Celestial, o verdadeiro Tabernáculo não erigido por mãos humanas, Hebreus 08:01-05. 

Quando Yeshua/Jesus disse, “vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados…tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim…porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”, Mattityahu/Mateus 11:28-30,  Ele estava fazendo um contraponto com o Jugo da Torah, a tradição oral cheia de exigências e minucias desnecessárias e exaltando a Lei de Deus através de Sua vida e obras na Nova Aliança, que estava inaugurando, quando o Decálogo seria escrito no coração de todo aquele que crê, seja judeu ou gentio. 

(1) (veja David Daube, Rabbinic methods of interpretation and Hellenistic rhetoric, Hebrew Union College Annual 22 (1949).

(2) (veja Elias J. Bickerman, La chaine de la tradition pharisienne, em Studies in Jewish and Christian Historiy, v. 2, 1980).

(3) Estes últimos parágrafos foram retirados do texto de Oskar Skarsaune, leia na integra neste mesmo site: Um Novo Conceito de Torá? – A Influência Grega no Pensamento Hebraico

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