Lista de “bispos” judeu-cristãos compilada por Eusébio


Com relação aos bispos[i] de Jerusalém, não pude encontrar as datas de seu ministério preservadas por escrito (há registros, porém, que foram extremamente breves). Eis, contudo, o que pude depreender dos escritos disponíveis: até o cerco dos judeus por Adriano [fim da guerra de Bar Kokhba, 135] foram quinze os bispos que se sucederam, todos eles, conforme se tem notícia, de origem hebraica, tendo não obstante acolhido o conhecimento de Cristo com coração sincero, dado que as pessoas capazes de julgar tais assuntos os aprovaram, considerando-os dignos do bispado. [A informação que se tem é de que] na época, a igreja como um todo era composta por crentes hebreus, os quais nela permaneceram desse os dias dos apóstolos até o momento do cerco em que os judeus, tendo se revoltado novamente contra os romanos, foram conquistados depois de um feroz combate. É justo, portanto, uma vez que a linhagem dos bispos da circuncisão chegou ao final naquela época, que se apresente aqui uma lista deles desde o primeiro:

            O primeiro, portanto, foi Tiago, irmão do Senhor, como era chamado;

            Depois dele veio Simeão, o segundo;

            O terceiro foi Justo;

            Zaqueu, o quarto;

            O quinto, Tobias;

            O sexto, Benjamim;

            João, o sétimo;

            O oitavo, Matias;

            O nono, Filipe;

            O décimo, Sêneca;

            O décimo-primeiro, Justo;

            Levi, o décimo-segundo;

            Efrem, o décimo-terceiro;

            O décimo-quarto, José;

            E, por último, o décimo-quinto, Judas.

            Esse foi o número de bispos da cidade de Jerusalém, desde a época dos apóstolos até esta data. Todos eles eram da circuncisão (História Eclesiástica 4.5.1-4).[ii]

Bispo judeu 2

            Existe, obviamente, algo de errado com essa lista: o intervalo entre a morte de Tiago (62 d.C.) e o ano 135 d.C. (73 anos) não é espaço de tempo suficiente para a sucessão de quinze líderes; principalmente sabendo-se que Simeão este à frente da igreja até a época de Adriano; seu martírio deve ter ocorrido por volta de 100-110 d.C. Isso deixa aos treze “bispos” restantes algo em torno de dois anos de liderança para cada um, o que explica o espanto de Eusébio diante do fato de que não há datas na fonte por ele utilizada para a composição da lista, o que leva a concluir que os bispos judeus tiveram vida curta!

            Outras fontes, porém, que complementam a fonte utilizada por Eusébio, podem nos fornecer a pista que faltava. Alguns dos doze últimos nomes da lista parecem no livro apócrifo Carta de Tiago a Quadrato, em que os nomes atribuídos aos anciãos que auxiliavam Tiago no comando da igreja. Isto talvez signifique que somente os três primeiros nomes da lista de Eusébio sucederam um ao outro como “bispos”, ao passo que os últimos doze seriam membros de um ciclo de presbíteros formado em consonância com o modelo apostólico. Nesse caso, Simeão por ter estado à frente da igreja durante cerca de quarenta anos; depois dele, Justo, por cerca de trinta anos.[iii]

bispos judeus

            Uma vez mais, a evidência disponível nos dá apenas um lampejo pouco satisfatório de um capítulo da história da igreja primitiva sobre o qual gostaríamos de saber muito mais. Contudo, uma conclusão importante torna-se inevitável à luz do que já pudemos observar até aqui: diz-se, com frequência, que a fuga da comunidade judaica para Péla antes ou durante a guerra entre judeus e romanos, de 66-70 d.C., teve como consequência distanciar os crentes judeus de seus compatriotas – que os viam como traidores da nação.  Não há evidência que comprove isso, e a presença de uma igreja judaica em Jerusalém depois da guerra depões energicamente contra essa ideia. Os crentes judeus não foram os únicos a sair de Jerusalém durante a guerra (tampouco sabemos ao certo se todos saíram). Depois disso, parece que teriam retornado com maior intensidade. Há muita evidência indireta de que os anos de 70 a 135 d.C. teriam sido o período clássico do cristianismo judeu. Durante esses anos todos, ele continuou a influenciar profundamente o cristianismo gentio, constituindo ao mesmo tempo um desafio ao judaísmo que os rabinos assumiram com seriedade.

Autor: Oskar Skarsaune – À Sombra do Templo – As Influências do Judaísmo no Cristianismo Primitivo, págs. 197 e 198, Vida Acadêmica.

[i] Bispo (do grego antigo επίσκοπος ou episcopos; e do latim episcopus: “inspetor”, “diretor”, “superintendente” ou, literalmente, “supervisor.

[ii] Lawlor/Oulton, 1:106-7. Sobre a referida lista, v. Bauckham, Relatives, p. 70-9; Y. Lederman, Les évêques juifs de Jerusalém, Revue biblique 104 (1997(; 211-22.

[iii] Baseio-me aqui em Bauckham, Relatives; v. sua obra para mais detalhes, outras evidências e argumentos favoráveis a essa tese.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s