Os Parentes de Yeshua/Jesus


A possibilidade da existência de uma comunidade judaico-cristã em Nazaré leva-nos às tradições do NT acerca dos parentes crentes de Jesus. [i] com exceção da evidencia literária encontrada no NT – que é mais rica do que geralmente se supõe – temos em Eusébio fragmentos de dois escritores, ambos possivelmente crentes judeus, que testificam sobre os parentes de Jesus: Hegesipo e Júlio Africano. O próprio Eusébio apresenta também material sem indicar as fontes.

  1. Já citamos o relato de Hegesipo sobre o martírio de Tiago, irmão de Jesus. Além disso, esse autor nos conta uma história bastante comovente acerca de alguns parentes de Jesus preses por Domiciano. O imperador, ao que parece, ordenou uma caça aos descendentes de Davi entre os judeus, supostamente porque os considerava politicamente perigosos, já que poderiam produzir candidatos messiânicos. Dois netos de Judas, irmão de Jesus, foram preses. Ambos alegaram ser apenas camponeses comuns, e para provar que diziam a verdade, exibiram as mãos calejadas.parentes de Yeshua Jesus

 

“Ao serem indagados sobre Cristo e seu reino, de que tipo era e onde e quando haveria de surgir, responderam que não se tratava de algo temporal, nem tampouco de um reino terrestre. Era, isto sim, um reino celestial e angélico que surgiria no final do mundo, quando Cristo voltaria então em glória para julgar os vivos e os mortos, retribuindo a cada um segundo as suas obras (História Eclesiástica 3.20.4).

Diante dessa resposta, ambos foram soltos e considerados inocentes. Depois disso, “governaram as igrejas, dado que eram mártires e membros da família do Senhor; e quando a paz foi estabelecida, viveram até o advento de Trajano” (História Eclesiástica 3.20.6).

  1. Fora isso, encontramos também os parentes de Jesus como líderes de igrejas e missionários itinerantes em alguns fragmentos de informações de Hegesipo e de outros. Paulo menciona em I Coríntios 9:5 os direitos de um apóstolo viajante, direitos esses que eram usados “pelos outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Pedro”. Cerca de 170 e 180 anos depois, Júlio Africano diria que Herodes, não sendo judeu, mandou queimar todos os registros das famílias judaicas, para que ninguém levasse vantagem sobre ele, porém:

“Alguns indivíduos cautelosos possuíam arquivos particulares […] e orgulhavam-se de preservar a memória de seu nascimento nobre. Entre esses se contavam as pessoas mencionadas mais acima e chamadas de Desposyni [parentes do Senhor] por seu parentesco com a família do Salvador. Procedentes das vilas judaicas de Nazaré e Cochaba, viajaram por toda a terra explicando a genealogia mencionada, tanto quanto lhes foi possível rastreá-la, bem como o Livro dos Dias [= Crônicas]. (História Eclesiástica 1.1.14).[ii]

                A preocupação de Africano, nesse caso específico, consiste em explicar as diferenças entre as genealogias de Jesus em Mateus e Lucas. Entende-se assim por que ele dá a impressão de que o conteúdo principal da pregação dos parentes de Jesus era sua genealogia. A tradição da qual ele depende, porém, pode não ser isenta de informações históricas imprecisas: ao proclamar Jesus como Messias, seus parentes enfatizavam sua descendência (de Cristo e deles) Davídica. Que isso era um elemento importante na versão mais antiga da mensagem cristã é confirmado por Paulo em Romanos 1:3 e 4, em que o apóstolo cita uma antiga fórmula querigmática judaico-cristã.[iii]

Jonas 5

                Consta que esses missionários itinerantes, membros da família do nosso Senhor, teriam pregado na terra de Israel e vivido nas aldeias de Nazaré e Cochaba. Esta aldeia é a moderna Kaukab, a dezesseis quilômetros ao norte de Nazaré.  É interessante que os parentes de Jesus viveram em duas aldeias de nomes “messiânicos”: Nazaré = “pequeno nezer” (Is. 11:1); Cochaba = “a estrela” (Num. 24:17): “uma estrela surgirá de Jacó”). Bargil Pixner especula que os ancestrais de Jesus, ao emigrarem para a Galileia num determinado momento do primeiro século a.C., talvez tenham dado as suas aldeias esses nomes por causa da forte consciência que tinha de pertencer à linhagem messiânica e também Davídica. Embora isso seja possível (e, na verdade, talvez a verdade fosse o posto: eles teriam se estabelecido nessas aldeias por causa dos nomes messiânicos que elas ostentavam), é difícil acreditar que a família de Jesus tivesse se fixado nessas duas aldeias por mero acaso.

  1. Se voltarmos nossa atenção para Jerusalém, depois dessa breve análise sobre a Galileia, veremos que Hegesipo e Eusébio têm informações muito interessantes sobre a liderança da comunidade de Jerusalém depois da morte de Tiago, irmão de Jesus. Naturalmente, Tiago tornara-se líder incontestável da igreja da comunidade de Jerusalém quando foi martirizado em 62 d.C. provavelmente porque os Doze já haviam morrido ou encontravam-se frequentemente fora em viagens missionárias. Quem deveria substituir o irmão do Senhor como chefe e líder da comunidade de Jerusalém?

“Depois do martírio de Tiago […] consta que os apóstolos e discípulos do Senhor ainda vivos reuniram-se vindos de todas as regiões e, juntamente com os parentes do Senhor na carne (dado que a maior parte deles ainda vivia), deliberaram conjuntamente sobre quem seria considerado digno de suceder a Tiago; decidiram então, por unanimidade, que Simeão, filho de Clopas, de quem também o livro dos evangelhos faz menção [João 19:25], era considerado digno do trono da comunidade naquele lugar. Ele era primo – ao menos, é o que se dizia – do Salvador; pois, de fato, Hegesipo relata que Clopas era irmão de José (História Eclesiástica 3.11).

profeta II

                De acordo com Hegesipo, Simeão mostrou-se digno da confiança depositada nele: ele é descrito como um verdadeiro Tsadik, tendo alcançado a idade máxima permitida aos humanos de 120 anos (Gên. 6:3), e nessa idade foi ele martirizado, estando ainda em pleno vigor:

“Segundo a tradição legada[durante a perseguição movida por Trajano], Simeão, filho de Clopas, que conforme já relatamos fora apontado segundo bispo da igreja em Jerusalém, terminou sua vida martirizado […] “Certos [hereges judeu-cristãos] acusaram Simão, filho de Clopas, de ser da casa de Davi e também cristão; assim foi ele martirizado com a idade de 120 anos, quando Trajano era César e Aatticus consulares” [= citação de Hegesipo] […] Depois de ser torturado de diversas formas e durante muitos dias por ser cristão, tendo enchido de grande espanto ao juiz e seus auxiliares, teve por fim um destino semelhante ao que teve o Senhor (História Eclesiástica 3.32.1-3).[iv]

                O contexto em que Hegesipo situa esses fragmentos de evidência sobre a vida e morte de Simeão também nos interessa em nosso contexto: para o autor, Simeão é um pilar da ortodoxia. Foi só depois de sua morte que os hereges ousaram se expor. Embora em Hegesipo esse quando de ortodoxia/heterodoxia seja estereotipado, mesmo assim é interessante observar que na segunda metade do século II, a liderança judaico-cristã da comunidade de Jerusalém era considerada ortodoxa, e provavelmente famosa por causa disso, pelos padrões do segundo século. Talvez haja ai uma idealização da história, mas dificilmente alguém reivindicaria tal posição se fosse notório o fato, por exemplo, de que a liderança de Jerusalém fora em algum momento ebionita (veja nos próximos artigos).

 

Autor: Oskar Skarsaune, À Sombra do Templo – As Influências do Judaísmo no Cristianismo Primitivo, Págs 194 a 197 – Vida Acadêmica.

[i] Deve-se começar a leitura sobre o tema pelo livro de Richard Bauckham, Jude and the relatives of Jesus in the early church (Dedinburgh: T & Clarka, 1990).

[ii] Lawlor/Oulton 1.21. Ao comentar essa passagem, valho-me de maneira significativa da análise de Bauckham, Relatives of Jesus, p. 61-69.

[iii] Bauckham em, Relatives, cap. 7 fa uma interessante defesa do ponto de vista segundo o qual a genealogia de Lucas procederia, na verdade, da atividade de pregação dos parentes de Jesus, p. 315-73.

[iv] Lawlor/Oulton 1.78.

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