Didaquê


                   É evidente o pano de fundo judaico desse documento fascinante intitulado Ensinamento (Didaquè[i]) do Senhor aos gentios por meio dos doze apóstolos.[ii] A primeira parte dos escritos (caps. 1-6) consiste em um catecismo para prosélitos, que ocorre de forma basicamente idêntica na Epístola de Barnabé, capítulos de 18 a 20, e também em um documento latino intitulado Doutrina dos apóstolos. Na versão da Didaquê, o catecismo apresenta algumas palavras de Jesus interpoladas (ausentes das outras versões). Se retirarmos essas inserções (Didaquê 1.3-5), o que resta é um documento inteiramente judaico, uma espécie de instrução ética para possíveis convertidos[iii] – ou talvez para gentios tementes a Deus. Isso aparece claramente no capítulo 6, cujo teor é certamente estranho para um texto cristão, mas que faz pleno sentido se dirigido aos tementes a Deus pelos judeus:

“Se fordes capazes de suportar o fardo do Senhor, sereis perfeitos; se, porém, não puderdes, fazei o que puderdes [das leis alimentares], mas evitai a todo custo as oferendas aos ídolos, polis são elas culto prestado a deuses mortos”.

                Além disso, os capítulos de 7 a 15, em que se acha registrada uma ordem eclesiástica sucinta com prescrições para o batismo, oração e celebração eucarística,[iv] possuem um fundamento judaico facilmente perceptível…dada a proximidade com a tradição e as práticas judaicas, o autor da Didaquê sentiu obviamente a necessidade de enfatizar alguns marcos divisórios, de modo que não fosse identificado com os judeus locais:

“Não sejam vossos jejuns feitos na companhia dos hipócritas, pois eles jejuam nas segundas e nas quintas-feiras; vós, porém, jejuareis nas quartas e nas sextas-feiras. Não ourareis como oram os hipócritas, e sim como vos ordenou o Senhor no seu evangelho; vós orareis, portanto, assim: “Nosso Pai…[segundo a versão de Mateus]”. Orareis três vezes ao dia (Didaquê 8.1-3).[v]

didaquê

                Não há dúvida de que essa necessidade de agir de modo diferente dos judeus (os “hipócritas”) é uma necessidade decorrente da grande semelhança existente entre os dois grupos.

                A data mais comumente atribuída a Didaquê é 100 d.C. (alguns a situam mais cedo), sendo ela proveniente da igreja da Síria. Mateus parece ser a principal influência por trás desse escrito, ou talvez a Didaquê e Mateus estejam tão próximos no tempo que provenham de um mesmo contexto. É surpreendente como a Didaquê pode, sob diversos aspectos, ser vista como uma “sequencia” natural de Mateus: na Didaquê encontramos o ensinamento apostólico dirigido aos gentios, o ensinamento que Jesus ordenou a seus discípulos que proclamassem conforme Mateus 28:20. Comparado com I Clemente em Roma, a comunidade síria falando a nós pela Didaquê mostra-se tão judia (ou mais) do que a comunidade romana, porém o relacionamento com os judeus é mais consciente e mais controverso.

                A profunda familiaridade com as tradições judaicas que encontramos em I Clemente, bem como na Didaquê, dificilmente seria possível a menos que imaginemos os crentes judeus com tutores teológicos dos autores e/ou comunidades por trás desses documentos.

Autor: Oskar Skarsaune, À Sombra do Templo – As Influências do Judaísmo no Cristianismo Primitivo, págs. 214-216, Vida Acadêmica.

[i] Διδαχń, “ensino”, “doutrina”, “instrução” em grego.

[ii] Com relação a Didaquê, o material mais rico que temos acerca de seu context judaica foi coligido por Jean-Paul Audet, La Didaché: instructions des apôtres, ètudes bibliques (Paris: J. Gabalda, 1958). V. tb. A obra mais antiga de TGaylo, The teaching of the twelve apostles with illustrations from the Talmud (Cambridge/London, 1886). Para um comentário recente, e de fôlego, v. Kurt Niederwimmer, Die Didache, Kommentar zu den Apostolosichen Vãtem 1 (Gôttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1989). V.tb. Wilson,k Strangers, p. 224-7; Mimouni, Judéo-christianisme, p. 193-201.

[iii] Muito já se escreveu sobre essa fonte. V., e.g., a excelente introdução de Willy Rordorf, Um chapitre d1éthique judéo-chrétienne: les deux voies, em idem, Liturgie, p. 155074; e também Niedewimmer, Didache, p. 48-64 (acompanha extensa bibliografia).

[iv] Alguns estudiosos acreditam que a sequencia de instruções éticas (caps. 1-6\), batismo (7), jejum e oração (8) e eucaristia (9 e 10) não é acidental, tendo em vista os diferentes estágios da iniciação cristã. V. mais recentemente J. A. Draper, Ritual process and ritual symbol in Didache 7-10, Vigiliae Christianae 54 (2000): 121-58.

[v] Kirsopp Lake 1:321.

           

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