Mishnah, Tosefta, Talmude, Midrash, Targum e os Evangelhos


                Eu sabia, por experiência pessoal, que a literatura rabínica, quando trabalhada com sensibilidade e critério, pode lançar uma luz valiosa e por vez única no estudo dos Evangelhos. Na realidade, seu uso para esta finalidade tem sido habitual desde o século XVII, quando Horae Hebraicae et Talmudicae (1658-78), de John Lightfoot, veio à luz, e especialmente após a publicação, entre 1922 e 1928 do famoso Commentary to the New Testament from Talmud and Misdrash (Kommentar zum Neuen Testament us Talmud und Midrasch), em quatro volumes, por Hermann Strack e Paul Billerbeck. Esta obra parecia gozar de uma autoridade quase maior que os próprios Evangelhos entre os estudiosos do Novo Testamento; estes não tinham escrúpulos em criticar os Evangelhos mas não os Kommentar.

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Entretanto, mais recentemente, esta obra perdeu muito de sua reputação (JWJ 62-64). Sabia-se há muito tempo, que a comparação do Novo Testamento, datando do final do primeiro século A.D. com a literatura rabínica, compilada aproximadamente entre os anos 200 e 500, se defronta com um sério embaraço cronológico.

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                É legítimo, deve-se perguntar, fazer uso da Mishnah, do Talmude e do Midrash, mais recentes, para interpretar o Novo Testamento, mais antigo?

                O dilema é percebido mais agudamente hoje em dia, já que, com os Pergaminhos do Mar Morto, os especialistas dispõem agora de um corpus considerável de material comparativo, contemporâneo dos primeiros escritos cristãos ou apenas ligeiramente mais antigos, enquanto, antes de 1947, esta documentação não era conhecida.

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                Nas novas circunstâncias, é ainda justificável voltar à Mishnah, Tosefta, Talmude, Midrash ou Targum, em busca de ajuda para estabelecer o significado dos Evangelhos?

                Não, respondem unanimemente os pan-qumranistas. Apenas os Pergaminhos pertencem à época correta; os escritos rabínicos devem ser ignorados. Já que muitos (a maioria?) dos partidários desta escola não estão geralmente familiarizados com os textos talmúdicos, mostram-se por demais ansiosos em acolher esta dispensa abrangente da necessidade de travar relações com escritos tão difíceis!

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                Para esclarecer a questão, deve-se avançar passo a passo. É permissível fazer uso da literatura rabínica mais tardia para explicar os Evangelhos de data anterior? A resposta é claramente negativa caso o material contido nos documentos rabínicos seja posterior, em um século ou mais, em relação ao Novo Testamento, quando ao conteúdo e não apenas na formulação ou redação, ou se a similaridade entre eles é devida a dependência dos rabinos em relação aos evangelistas.

                Entretanto, é muito improvável e mesmo inconcebível que os sábios judeus tomassem empréstimos diretamente dos Evangelhos. Realmente, com exceções esporádicas e questionáveis, nenhum conhecimento dos Evangelhos e mais ainda, nenhum desejo de aprendê-los, pode ser comprovado na literatura rabínica.

pergaminho de João século III

                Mesmo as reações negativas ao Novo Testamento são raras e pertencem a um período relativamente tardio, ao terceiro ou quarto século, quando a igreja cristã já constituía uma ameaça ao judaísmo. Igualmente improvável é a teoria de que todos os conteúdos registrados nas compilações rabínicas foram criados na idade talmúdica. Tanto a evidência incluída nos próprios escritos quanto a pesquisa crítica tendem a mostrar que estes documentos consistem, em grande parte, de ensinamentos datados de séculos anteriores e retomados, frequentemente reformados e revisados, pelos redatores do Talmude, etc.

                Além disso, como é impossível afirmar, com algum grau de certeza, que trabalhos judaicos similares ou idênticos quanto à forma ou conteúdo do Targum e ao Midrash rabínicos existissem em forma escrita no primeiro século A.D. ou antes, seria inteiramente infundado postular que os evangelistas tivessem usado esta literatura puramente conjectural, e mais ainda, assumir que este material era substancialmente o mesmo que textos muito mais recentes e que nos são conhecidos.  

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                A hipótese que prefiro consideraria uma fonte comum, escrita ou oral – pode ser chamada de tradição judaica (doutrinal, legal, exegética) – coerente quanto ao conteúdo, porém, variável quanto à forma, fonte esse da qual dependeriam seja os evangelistas seja os escritos rabínicos em época mais tardia.

                Se, além disso o Novo Testamento, particularmente os Evangelhos Sinóticos e a literatura rabínica deixem de ser considerados com entidades autossuficientes e autônomas  e passem a ser olhados como produtos de uma criatividade judaica literária e religiosa em contínua evolução, então a mensagem de Jesus e suas reverberações em solo da Palestina podem ser percebidas dinamicamente  como um estágio, no primeiro século A.D. , de um longo processo de desenvolvimento em que a Bíblia, Apócrifos, Pseudoepígrafos, Pergaminhos do Mar Morto, Filo, Novo Testamento, Josefo, Mishnah, Tosefta, Targum, Midrash, Talmude, liturgia e misticismo judaico inicial se completam,  corrigem, esclarecem e explicam mutuamente.

Autor: Geza Vermes, A Religião de Jesus, o Judeu, págs. 15 e 16, parágrafos do capítulo 1,  IMAGO.       

 

 

 

 

 

 

               

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