Nos tempos da Inquisição


Suspeitos de judaísmo, de heresia, apostasia, bruxaria, sodomia, blasfêmia, filosofias heterodoxas, os cristãos-novos são denunciados por medo, inveja ou maldade. As denúncias são feitas na maioria dos casos pelos próprios judeus, às vezes pela própria família, forçada pelo pavor e pela inquietação causados pela frequência com que era espiada e abordada: […] os filhos depunham contra os pais, os pais contra os filhos; o réu não podia comunicar com os defensores, nem conhecia quem os acusava; a delação era aplaudida e a espionagem considerada virtude. Vizinhos, criados, amigos, parentes e conhecidos são também delatores. Assim que os bufos dos inquisidores soubessem dos seus hábitos era fácil a denúncia: Fizessem comida às sextas-feiras para sábado, acendendo e mandando acender candeeiros limpos, com mechas novas, mais cedo que os outros dias e deixando-os acesos toda a noite até se apagarem.

inquisição

Degolar aves, atravessando-lhes a garganta depois de experimentado o cutelo na unha da mão. Cobrir o sangue com terra. Não comer toucinho nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, raia, congro e pescado que não tivesse escamas. Respeitassem os sábados, não trabalhando e vestindo-se de lavado. Jejuar o jejum maior que caie em Setembro, não comendo em todo o dia até à noite ao nascer das estrelas, e estando no dia de jejum maior descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo perdão uns aos outros. Jejuar o jejum da rainha Ester, assim como às segundas e quintas-feiras solenizar a Páscoa comendo pão ázimo em bacias e escudelas novas, rezando os salmos sem Glória Patri, fazendo oração contra a parede, sabadeando; abaixando a cabeça e levantando-a e usando então atafaliis (correias atadas nos braços ou postas sobre a cabeça). Comer, quando alguém morria, em mesas baixas e só pescado, ovos e azeitonas. Estar detrás da porta. Banhar os defuntos, lançar-lhes calçar-lhes calções e lenço e amortalhando-os com camisa comprida e pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa. Enterrá-lo em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na boca um grão de aljôfar ou dinheiro de ouro ou prata, dizendo que é para pagar a primeira pousada. Cortar-lhes as unhas e guardá-las. Derramar ou mandar derramar a água dos cântaros e potes, dizendo que as almas dos defuntos se vêm ali banhar ou que o anjo percuciente lavou a espada na água. Deitar, nas noites de S. João e de Natal, ferros, pão ou vinho na água dos cântaros e potes, dizendo que naquelas noites a água se torna sangue. Deitar a bênção aos filhos, pondo-lhes as mãos sobre a cabeça e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o sinal da cruz. Circuncidar os filhos. Depois de os baptizar rapar-lhes os óleos que lhes puseram.31 Enviados para a prisão, são submetidos a interrogatórios e sujeitos às mais cruéis torturas físicas e psicológicas. Os que teimavam em negar as acusações são espoliados de todos os seus bens materiais, privados da família e da própria dignidade humana. Numa primeira acusação ainda poderia haver alguma indulgência por parte do Tribunal, mas um segundo processo é, na maior parte das vezes, fatal para o acusado. A fogueira consumiu centenas de cidadãos ao longo dos quase 300 anos de Inquisição em Portugal. A população acorria a ver arder “os de Israel”.

Laurinda Gil Mendes – Os Judeus de Penamacor e a Inquisição – CÂMARA MUNICIPAL DE PENAMACOR ARQUIVO MUNICIPAL 2010, pág. 27

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