Vozes do Holocausto reúne relatos de judeus que migraram para o Brasil


George Legmann nasceu um bebê saudável e “loiro, loiro”, entre os seis milhões de mortos do Holocausto.

O médico estava satisfeito. Ele juntou sua mãe e outras seis grávidas no campo de concentração de Dachau, cidade alemã que abrigou o primeiro confinamento nazista, de 1933 –lá iam parar, antes da Segunda Guerra, comunistas, gays, testemunhas de Jeová, ciganos e outros párias de Adolf Hitler.

O doutor alemão havia perdido seu filho num bombardeio. Seu plano era pegar para si uma nova criança. Vasculhou os campos até achar as sete grávidas. Em Auschwitz encontrou a judia romena Elisabeta Török Legmann, a mãe do neném com feições arianas.

George nasceu em 8 de dezembro de 1944, a meses do epílogo da guerra. O plano do médico não foi para a frente. Seu fim: executado em Nuremberg, no tribunal que por 315 dias, entre 1945 e 1946, julgou crimes dos nazistas.

As ‘mães do Holocausto’ e seus bebês nascidos no campo de Dachau; George Legmann é o da direita

A família Legmann migrou para o Brasil, onde um tio de George chegara antes –se tornaria chocolatier na Kopenhagen. Hoje o bebê loirinho é um senhor meio calvo de 71 anos, assessor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

É também um dos 90 sobreviventes do nazismo radicados no Brasil que deram seu depoimento para o Vozes do Holocausto, projeto coordenado pela professora de história da USP Maria Luiza Tucci Carneiro. Os testemunhos serão publicados pela editora judaica Maayanot em 2016.

Nas contas de Carneiro, há pelo menos outros 200 potenciais entrevistados –ela ainda busca patrocínio para começar nova fase da pesquisa. Na primeira etapa, usou verba do edital Samuel Klein –batizado com o nome do polonês que passou por campos de concentração e, imigrado para cá, fundou as Casas Bahia.

Parte dos testemunhos está no site http://www.arqshoah.com.

Entre os anos 1930 e 1950, segundo a professora, cerca de 16 mil judeus aportaram no país –boa parte de família ricas que compraram terras no Brasil anos antes, pressentindo o pior.

Alguns forjaram vistos católicos, já que o governo de Getúlio Vargas não era sensível aos apelos para acolher o povo judaico –negou ao menos 14 mil pedidos de visto, diz Carneiro, autora de “O Antissemitismo na Era Vargas” (Perspectiva, 2002).

Vieram para cá artistas como as fotógrafas Alice Brill e Hildegard Rosenthal, o escritor austríaco Stefan Zweig (que se matou com a mulher em Petrópolis, em 1942) e o ator e diretor polonês Zbigniew Ziembinski –que em 1939 ridicularizou os ditadores europeus Hitler, Mussolini e Franco em seu país, numa montagem de Bernard Shaw.

A italiana Nydia Licia, dama do teatro brasileiro morta aos 89, em dezembro, chegou a dar seu depoimento para a equipe da pesquisadora. Outros relatos colhidos são uma amostra dos horrores daquele tempo.

COLEGA DE LICEU

A holandesa Nanette conheceu Anne Frank num liceu judaico, em 1941 – quando crianças judias já não podiam mais frequentar escolas públicas.

Reencontrou a amiga no campo de Bergen-Belsen. A jovem famosa pelo diário publicado postumamente sobre os tempos de fuga do nazismo, morreu um mês depois, de tifo. Anne, conta Nanette, lhe disse que queria usar seus escritos como base para um livro.

Mapa que Fritz Freudenhein desenhou aos 12 anos, com a rota de fuga da família

Antes de 1938, a húngara Alice se mudou com os pais para um prédio marcado com a estrela de Davi. Nos anos seguintes, enviaram o pai a um campo, e ela e a mãe foram morar num gueto -depois resgatados pelos russos. Alice lembra que, após distribuírem água e comida, os libertadores estupraram várias meninas.

Para a conterrânea Gabriella, testemunhar assassinatos virou cotidiano. Nunca esqueceu do casal de velhinhos que caminhava à sua frente. O senhor deixou cair um pacote com feijões, que se espalharam pela neve. Levou um tiro na nuca. Sua mulher foi obrigada a continuar marchando.

George Legmann, o bebê sobrevivente, cresceu ouvindo sobre os maus bocados passados pela família. Ao descobrir que o esperava, a mãe, uma contadora, foi procurar seu ginecologista -mas ele já havia sido deportado. Não demorou para que chegasse a sua vez.

Elisabeta disfarçou a barriga ao ver Josef Mengele, o “anjo da morte” nazista, ao desembarcar em Auschwitz.

“Ele fazia com dedo esquerdo ou direito para indicar onde as pessoas -os potencias trabalhadores e os prováveis debilitados -deveriam ir. Minha mãe disse à mãe dela: ‘Você não é velha, e eu não estou grávida. Vamos para onde vai maioria'”, lembra à Folha, em seu escritório no Instituto FHC.

A avó de George usava pano na cabeça para ocultar os cabelos brancos. A mãe só trajava roupas largas. “Na plataforma, avisaram que quem estivesse cansado deveria ir para tal direção”, diz. Elisabeta pegou o caminho contrário.

Um tio de 16 anos pisou num prego enferrujado no vagão de gado onde viajaram. A ferida infeccionou. Ele seguiu o conselho de Mengele e foi direto para a câmara de gás.

Legmann calcula que a família perdeu 20 integrantes no Holocausto. O pai (que se jogou do trem) e a mãe, reunidos após 1945, vieram para o país tropical.

Ela saiu da guerra pesando 37 kg. Nunca mais comeu cebolas (que, apodrecidas, temperavam a comida dos confinados).

Em SP, tiveram de se afeiçoar a língua e costumes radicalmente diferentes aos da Romênia natal.

Assustavam-se ao ouvir foguetórios após um jogo vitorioso do Corinthians, recorda George.

Outra que não esquece: o dia em que elogiou a estola de uma senhora, descendo do bonde no largo do Arouche, já rapazinho.

Em húngaro, a pronúncia dessa peça soava próxima a “bunda”.

Ganhou um tapa sem saber por quê. Foram tempos felizes.

 ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
DE SÃO PAULO

folha de São Paulo 2

www.ruajudaica.com

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