Cientista político analisa se “Minha Luta”, de Hitler, deve continuar proibido




NBC News – Brasil Post

O livro “Minha Luta”, escrito por Adolf Hitler, voltou a ser vendido em livrarias de todo mundo no início deste ano. Proibidas por 70 anos, as teorias do ex-führer caíram em domínio público devido a leis internacionais, e não podem mais ficar engavetadas em um canto escuro da história.

Ontem, o cientista político e professor de Relações Internacionais da UERJ, Mauício Santoro, assina um editorial no HuffPost Brasil questionando se o livro deve ser proibido, ou se novas gerações podem conhecer a obra. Reproduziremos abaixo seu jogo de perguntas e respostas.

 

Combustível ideológico para futuras gerações?

Santoro abre seu texto com uma pequena introdução: “no dia 1º de janeiro de 2016, “Mein Kampf”, a mistura de autobiografia e panfleto político escrita por Adolf Hitler, passou a ser de domínio público. Isso gerou uma nova onda de discussões a respeito do livro, inclusive no Brasil. Em fevereiro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro proibiu a venda da obra, por incitar a intolerância e violar princípios básicos de direitos humanos. A lei brasileira proíbe o uso de símbolos nazistas, como a suástica, e a justiça já tirou de circulação livros que negavam o Holocausto.”

Assim, Santoro começa uma série de perguntas e respostas sobre o tema.

“Que diferença faz ter “Mein Kampf” no domínio público?

Após o suicídio do ditador alemão em 1945, os direitos autorais foram transferidos para o governo regional da Baviera, onde ele tinha uma casa. Desde então as autoridades locais se empenharam em tentar proibir novas edições do livro. Conseguiram na Alemanha, mas no exterior raramente tiveram sucesso. Mas agora que os direitos autorais expiraram, qualquer editora pode publicá-lo. No Brasil, três novas edições já foram anunciadas.

Por que o livro é tão polêmico?

“Mein Kampf” é o único livro escrito por Hitler e é considerado a principal obra de propaganda da ideologia nazista. Difunde mensagens de ódio, racismo, xenofobia. Muitos temem que instigue pessoas ao extremismo.

Quando foi lançado?

Hitler escreveu o livro na prisão, quando cumpria uma breve sentença pela frustrada tentativa de golpe de Estado que comandou em Munique, em 1923. O primeiro volume foi lançado em 1925, o segundo, no ano posterior.

Quais eram os objetivos de Hitler ao publicá-lo?

Expor sua ideologia e angariar seguidores para o nazismo. Em 1925 Hitler era pouco conhecido, um artista frustrado e ex-soldado que após a I Guerra Mundial se infiltrou em grupos extremistas como informante do Exército. Mas gostou do que viu e acabou se tornando o líder do pequeno Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Quem o publicou?

Foi lançado pela editora responsável pelo material dos nazistas, a Eher-Verlag, que pertencia a um militante do partido. Os editores não gostaram da versão inicial e fizeram várias mudanças, a começar pelo título. Hitler queria “Quatro anos e meio de luta contra mentiras, estupidez e covardia”, mas eles optaram por alternativa mais direta: “Mein Kampf”?–?minha luta.

O livro é bem escrito?

Não. O estilo é tosco e raivoso, a argumentação confusa, repleta de digressões. Vários trechos da obra foram ditados por Hitler a correligionários em sua cela na prisão, outros foram revistos e alterados por diversos revisores e editores. O resultado final é um amálgama mal feito.

O livro foi um sucesso?

A princípio, não. Entre 1925-1929 vendeu cerca de 25 mil exemplares. Quantidade expressiva, mas longe de espetacular.

As vendas só decolaram após a eclosão da Grande Depressão, quando os nazistas se tornaram um partido influente. Durante o III Reich, o livro virou um presente comum em ocasiões como contratações e promoções, cerimônias oficiais e até festas privadas como casamentos. Estima-se que “Mein Kampf” tenha vendido cerca de 12 milhões de cópias até o suicídio de Hitler, em 1945.

O que contém, afinal, “Mein Kampf”?

Os primeiros capítulos são uma mini-autobiografia de Hitler, contando infância e juventude de frustrações e infelicidade em Linz, Viena e Munique. Essa narrativa é interrompida pela eclosão da I Guerra Mundial e daí em diante o livro assume a forma de um panfleto político, em especial o 2º volume da obra, expondo o programa do partido nazista.

A ideologia de Hitler era original?

Não. Hitler basicamente faz uma compilação das doutrinas correntes na extrema-direita europeia nas décadas iniciais do século XX: nacionalismo exacerbado, exaltação do poder militar, antissemitismo, hostilidade à esquerda (em especial ao comunismo), rejeição da democracia representativa e do liberalismo econômico. Judeus e comunistas são retratados como conspiradores unidos para destruir a Alemanha e defendendo as mesmas ideias. Ele afirma que é possível salvar as massas do marxismo, mas que não há saída quanto aos judeus.

Há, no entanto, algumas observações perspicazes sobre a importância da propaganda e das novas tecnologias de comunicação para os partidos políticos. Discute, por exemplo, como os nazistas se apropriaram de vários símbolos e slogans da esquerda para atrair trabalhadores pobres.

Qual o programa político que Hitler apresenta em “Mein Kampf”?

– Criação de um império colonial para a Alemanha na própria Europa, ressaltando a importância do leste do continente e da Rússia. Esse “espaço vital” seria essencial para que os alemães assegurassem a posição de grande potência, em contexto de disputas ferozes entre diferentes raças (povos) pelo controle de recursos naturais.

– Defesa da anexação da Áustria pela Alemanha.

– Busca de uma aliança com a Inglaterra, com uma ordem mundial na qual o império britânico seria o contraponto do domínio alemão da Europa.

– Política trabalhista corporativa, com o Estado mediando as tensões entre capital e trabalho e, supostamente, abolindo a luta de classes.

“Mein Kampf” tem relevância histórica?

Sim, pelo menos por duas razões: prenuncia boa parte do que os nazistas fizeram ao chegar ao poder e permite um vislumbre da psicologia perturbada de Hitler, como seu complexo de inferioridade diante da elite intelectual, sua insegurança social como alguém que oscilava entre a baixa classe média e a pobreza, seu senso de perseguição e vitimização.

Como foi a circulação de “Mein Kampf” após a II Guerra Mundial?

O livro continua a ser vendido em muitos países, apesar de várias tentativas de proibi-lo. Há todo tipo de edição disponível, desde aquelas acadêmicas, com notas de referências e anotações cuidadosas, até versões de propaganda publicadas por grupos extremistas. Está disponível também em formatos resumidos ou como história em quadrinhos.

Com a criação da Internet, passou a ser ofertado como livro eletrônico em várias línguas. Há também inúmeras edições piratas que podem ser baixadas gratuitamente.”

*Novo ‘Mein kampf’ divide os alemães, mas se esgota nas livrarias

Edição comentada de manifesto racista de Hitler foi lançada na Alemanha:http://oglobo.globo.com/cultura/livros/novo-mein-kampf-divide-os-
alemaes-mas-se-esgota-nas-livrarias-18446319

www.ruajudaica.com

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