Como identificar o que é cristão ou não?


Não obstante, ainda desejo afirmar que Jesus, Ieshua, é o padrão, a medida pela qual tudo deve ser julgado ao se responder à pergunta se algo é ou não cristão.

Mas para fazer isso é também importante que se tenha bem claro o que se quer dizer quando se diz que algo é o padrão ou a medida de outra coisa. Falando principalmente de um conjunto de crenças, ou doutrinas, incluindo regras de conduta, ao qual nos referimos de maneira abreviada com os termos “fé e bons costumes”. Em nome da simplicidade e da clareza, chamamos os ensinamentos nesses dois campos de “doutrinas” (do latim “docere”, ensinar).

Um ensinamento ou doutrina é uma “reação” a uma pessoa ou a um acontecimento inicial: é algo que surge de maneira bipolar. Há o acontecimento inicial e a seguir a pessoa que reage a ele. É claro que o acontecimento inicial não pode ser repetido. E deve ser, de algum modo, assimilado pela pessoa que o observa. Caso contrário, permanecerá como um acontecimento do passado, sem consequências sobre a vida de ninguém. Para que um acontecimento inicial se tome um ensinamento ou doutrina, uma pessoa ou várias pessoas têm de percebê-lo e afirmar o seu significado.

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Essa compreensão e essa expressão é que transmitem e determinam a direção e a forma da força do evento inicial sobre a vida das pessoas. Determinado número de pessoas poderá perceber o mesmo acontecimento, e algumas reagirão com total indiferença e outras, positiva ou negativamente, numa grande variedade de modos. E precisamente essa reação, essa compreensão e expressão do significado do acontecimento inicial que é o instrumento de transmissão de força, esse instrumento modelador que chamamos doutrina ou ensinamento.

Consequentemente, quando falamos da doutrina daquilo que significa ser cristão, não basta tentar apontar ou repetir o evento Ieshua. Na verdade, é impossível fazê-lo. As pessoas devem de alguma forma perceber o evento Ieshua e responder a ele com algo mais do que indiferença para produzirem uma doutrina que terá um efeito em sua vida.

No decorrer da história do cristianismo, muitas pessoas perceberam de diversas maneiras o evento Ieshua e reagiram tão vigorosamente a ele que muitas vezes produziu um profundo efeito em sua vida. Mas nem todas as “reações” reais ao evento Ieshua, isto é, nem todas as doutrinas da Cristologia têm sido ou são aceitas por todos os cristãos praticantes. Nenhum cristão interessado pode afirmar, por exemplo, as cristologias de fuga do mundo, de alguns cristãos gnósticos (as quais, na verdade, foram rejeitadas por serem heterodoxas) e as cristologias de afirmação do mundo, dos evangelhos sinóticos. Em algum lugar os cristãos devem ter uma fita métrica para avaliar uma Cristologia “correta”.

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Para alguns, o parâmetro é a autoridade da Igreja contemporânea (magisterium). Para outros, é a autoridade da Igreja do passado (traditio) no seu todo ou em parte (por exemplo, os primeiros sete concílios ecumênicos). Para outros, ainda, é a autoridade das Escrituras (sola Scriptura), embora atualmente muitos protestantes reconheçam que a própria Sagrada Escritura é simplesmente o mais antigo conjunto de tradições. Hoje, pensadores cristãos que se preocupam com os fatos históricos propõem um método cristológico que tenta ver o que existe por trás da autoridade da tradição (seja ela magisterium, traditio ou Scriptura) e localizar o acontecimento inicial, fundamentalmente, não em qualquer “reação” ou doutrina prefigurada sobre o evento Ieshua, mas no próprio Ieshua da história.

Os cristãos de hoje devem, da melhor maneira possível, aprender a reagir a esse Ieshua da história, isto é, ao Ieshua de Nazaré que viveu em Israel há dois mil anos.

Num mundo que tem consciência da história, já não é suficiente que os cristãos “reajam” a reações anteriores, a doutrinas a respeito do evento Ieshua. Os dotados de consciência histórica desejam basear seus julgamentos e ações, na medida do possível, nos fatos geradores, e para os cristãos os fatos geradores são preeminentemente aquele judeu, a pessoa histórica Ieshua de Nazaré, plenamente inserido como estava nas tradições hebraicas e judaicas no grau de desenvolvimento em que se encontravam até a sua época, tendo depois recebido a interpretação específica por ele apresentada.

 

Autor: Leonard Swidler, Ieshua, Jesus Histórico, págs. 11 a 13, EP.

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