O Judaísmo do Caminho


 

Se Ieshua ensinou que a Torá deve ser observada (e o fez) os seus seguidores deveriam observar a Torá? Proposta desse modo, a resposta parece ser um óbvio “sim”. E foi exatamente o que também pensavam todos os seus primeiros seguidores, que agiram de acordo com essa ideia. Pedro e os outros discípulos iam orar no Templo e na sinagoga e observavam a Torá. Mas depois de algum tempo, quando o ensinamento deles se difundiu, surgiu o problema dos gentios. Poderiam também eles se tornar seguidores do Caminho? A primeira reposta foi “sim”. Os judeus há muitos anos já conquistavam convertidos. Esses gentios convertidos ao judaísmo eram chamados prosélitos; eram circuncidados e adotavam a observância completa da Torá.

Torah mulheres lendo

            Porém, nas sinagogas localizadas fora de Israel não havia somente judeus natos e prosélitos, mas também os chamados homens tementes a Deus, ao que parece muito mais numerosos do que os prosélitos. Os devotos eram prosélitos que aceitavam os ensinamentos, a ética, as Escrituras e as principais práticas cúlticas, como o sábado, por exemplo, mas não eram circuncidados nem seguiam todas as leis rituais do judaísmo. Foi do meio deles que vieram muitos dos primeiros seguidores do Caminho, fora de Israel. No início, diziam-lhes que tinham de se tornar judeus habilitados para serem seguidores do Caminho (para serem judeus), para serem seguidores de Ieshua.

            Isso tinha sentido, mas não tinha sentido completo para todos. As dezenas de milhares de devotos que viviam no Império romano já haviam decidido compartilhar a sorte no judaísmo, mas isso excluía a circuncisão e a completa observância da Torá. Por que deveriam mudar essa decisão a fim de seguirem o Caminho, um modo particular de serem judeus?

            A maneira óbvia e direta de resolver o problema era indagar o que leshua tinha a dizer sobre o assunto, Infelizmente, ele não dizia nada. Quando damos uma vista de olhos nos evangelhos, parece que leshua se considerava enviado “somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel” (Mt 15,24), como disse aos seus discípulos, e que quando mandou os Doze pregarem a Boa Nova lhes disse: “Não tomeis os caminhos dos gentios, nem entreis em cidades de samaritanos. Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10,5s). Quando, porém, os gentios vinham a ele, mostrava-se sensível a eles curou a filha da mulher sírio-fenícia e o filho do centurião. Assim, poderia parecer que os ensinamentos e as ações de Ieshua não se dirigiam diretamente ao problema dos seus seguidores posteriores, uma situação semelhante àquela que está fadada a ocorrer frequentemente em todo e qualquer movimento.

Jesus e a Torá

            Por isso, os primeiros seguidores judeus de leshua tinham de resolver seu problema, aplicando o espírito do ensinamento e da vida de leshua, o que ele pensou, ensinou e realizou, à sua situação atual. Decidiram-se após uma intensa discussão entre Pedro e Paulo, a favor da solução defendida pelos devotos: aqueles que nasceram judeus tinham recebido o privilégio e o fardo da Torá e deveriam, assim como o próprio leshua ensinou e fez continuar a observá-la; aqueles que não nasceram judeus deveriam simplesmente aceitar os ensinamentos, as Escrituras, a ética e as principais práticas de culto do judaísmo vistos através de leshua, mas não precisavam adotar a circuncisão nem a total observância da Torá, especialmente as práticas rituais.[1]

            Mas outro fato muito crítico aconteceu nesse período inicial de gestação da religião cristã. leshua ensinara seus seguidores a viver a vida interior intensa, e a se preocuparem com os oprimidos, a exemplo dos profetas, fiéis à Torá de Deus. Passado algum tempo, seus seguidores também pensaram que ele era o prometido “ungido” de Deus, o Mashiach, o Messias, que derrubaria o jugo da ocupação romana de Israel, tornando-se rei. leshua lhes disse muitas vezes que o seu reino não era político, mas mesmo assim, eles desejavam ardentemente que o reino de Deus irrompesse de repente. (Isso não era desconhecido no judaísmo da época, que enfraquecia sob a opressão estrangeira do Império romano. Houve muitos pretensos messiânicos. Por exemplo, cem anos após a morte de leshua, Rabi Akiba, que até hoje é profundamente respeitado na comunidade judaica, proclamou que Bar Kochba, o Libertador judeu que combateu os romanos e foi derrotado em 135 d.C., era o Mashiach). Mas essas grandes e arrebatadoras esperanças foram destroçadas na sexta-feira santa. Tudo parecia destruído. Diziam: “Jesus, o Nazareno, foi um profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o povo: nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel” (LC 24,19-21).

            Mas, como sabemos, tudo não terminou ali. Três dias depois da sexta-feira/Pêssah, a ressurreição (Primícias/Bikurim) . Os seguidores de leshua o descobriram por experiência própria não somente como o carismático mestre que foi ignominiosamente executado, mas como aquele que foi ressuscitado por Deus para a nova vida.

 

Fonte: adaptado de, Ieshua, Jesus Histórico, Leonard Swidler, págs. 23-25, EP.

[1] Cf. Gerd Theissen, Sociology ofEarly Palestinian Christianity, Filadélfia, Fortress Press, 1977, p. 83: “Os portadores do movimento de Jesus encontraram portas abertas para eles nas cidades helenísticas, porque podiam oferecer perspectivas de uma resolução das tensões entre judeus e gentios. O judaísmo desses portadores era universalista, aberto para forasteiros”.

 

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