Ieshua e seus discípulos pensavam judaicamente.


Chegamos agora a um aspecto crítico e delicado que é consequência da judeidade de leshua e dos seus primeiros seguidores, os fundadores do Caminho, do Cristianismo.

Visto que eram todos judeus, pensavam e falavam como judeus. Consequentemente, para entendermos corretamente aquilo que leshua e seus primeiros seguidores queriam dizer quando falavam, teremos de compreender suas declarações dentro dos padrões e categorias de pensamento judaicos. Não o fazendo seria conferir o nosso significado estrangeiro às suas afirmações e atos, ao invés de extrair deles o significado que desejavam nos passar.

Faríamos eisegesis em vez de exegesis. O teólogo católico sistemático Edward Schillebeeckx frisou isso ao escrever:

“Jesus era judeu, e seus amigos íntimos e discípulos também pensavam como judeus fiéis. Foi como judeus que interpretaram Jesus. ”[1]

Os cristãos que percorreram um itinerário de busca de interpretações das palavras e dos atos de leshua e dos seus primeiros seguidores que diferem dos critérios judaicos obviamente se afastaram de leshua e dos fundadores do cristianismo. Claro, houve discussões entre os próprios judeus a respeito do significado correto de muitas coisas.

Talmidim

Mas todas essas discussões ocorreram dentro de uma estrutura de significado que era aceita. Foi dentro dessa ampla estrutura de significado que leshua e os fundadores do Caminho pensavam e agiam. Por conseguinte, essa é também a estrutura em cujo interior os seguidores subsequentes de leshua deverão primeiro compreender leshua e seus seguidores, para entenderem corretamente a sua mensagem, a sua “boa nova”. Claro, modos de pensar que não sejam judeus podem ser de grande valia, e deve-se encorajar os cristãos a acolherem tudo que tenha valor.

Esses modos de pensar, contudo, não terão valia para se entender aquilo que leshua e seus primeiros seguidores disseram e fizeram, na verdade, podem ser extremamente enganadores e até constituir o obstáculo de base para a Boa Nova, o Evangelho de leshua e seus primeiros seguidores, se forem usados para esse fim.

Esse princípio para o entendimento do critério parece bastante direto e simples. Mas o alcance deste princípio depende da percepção de que todas as afirmações a respeito do significado de alguma coisa são conexas, vale dizer, só são corretamente entendidas quando vistas em relação às pessoas que as fizeram, aos contextos nos quais foram feitas, aos padrões de pensamento e de discurso que usaram etc. Essa percepção é requisito padrão para o estudioso ocidental contemporâneo pós-historicismo, sociologia do conhecimento e análise linguística.

Mas não era assim no passado. O princípio para se entender o Evangelho racionalmente, isto é, dentro da estrutura judaica do conhecimento adotada por leshua e seus primeiros seguidores, por mais simples e óbvio que hoje possa parecer para muitos, provocará em muitos casos a repensarem radical do ensinamento cristão a fim de fazê-lo coincidir com o pensamento de leshua e seus primeiros seguidores, os fundadores do cristianismo — para fazê-lo coincidir com o modo judaico de entender fatos e pessoas.

Leonard Swindler,  Ieshua, Jesus Histórico, EP, págs. 27 e 28

[1]Schillebeeckx, Jesus, p. 527.

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