FORAM PÃO ÁZIMO, CERVEJA E PESSACH


TEL AVIV – Sempre adorei Pessach. Por muitos motivos, mas principalmente por causa da matzá (espécie de biscoito que as pessoas teimam em dizer que é pão sem levedura, ou ázimo, mas parece mesmo biscoito). Depois de um ano inteiro comendo pão com levedura, glúten e etc, uma ou duas semanas de matzá é uma delícia, uma mudança temporária no cardápio diário.

Uma das melhores maneiras de comer matzá é dentro do café. Acho que é invenção da minha mãe, porque muita gente acha esquisitíssimo. Minha mãe costuma fazer café com leite e esfarelar uma matzá dentro da xícara, pescando os pedacinhos umedecidos e quentinhos com uma colher. Muito bom. Até hoje como matzá assim de manhã, durante o Pessach.

Mas a tradição de comer matzá em Pessach – ou evitar alimentos com levedura para lembrar que os hebreus não tiveram tempo de cozinhar pão antes do Êxodo do Egito – ganha aspectos cada vez mais estranhos, em Israel. Não é de hoje que todos os supermercados de cidades judaicas somem com pães, massas, bolos, biscoitos, cervejas e outros itens dias antes de Pessach. Colocam um plástico em cima das prateleiras proibidas, mas não só isso: quem tentar ser esperto e colocar no carrinho um biscoito “chametz” (que não é kasher para Pessach), não vai conseguir pagar no caixa. As máquinas não aceitam vender chametz.

Mas, nos últimos anos, até mesmo restaurantes que não servem comida kasher (não seguem a alimentação judaica) não servem pães normais em Pessach, só versões sem levedura. Outro dia, durante Pessach, fui num pub irlandês não kasher e o garçom explicou: o cardápio continua o mesmo, só o pão é diferente. Quer dizer: você pode pedir um prato com carne e queijo (totalmente não kasher) e um copão de cerveja (levedura!!!), mas o pão é de Pessach. Um pouco bobo, não? O mesmo acontece filiais não ksherot em redes de fast-food. O cliente pode pedir um cheeseburguer, mas só com pão sem levedura.

Entendo que mesmo judeus não religiosos em Israel – e no mundo – curtam respeitar Pessach. Afinal, é apenas uma semana de privação de pães, bolos, massas e etc. Também entendo que restaurantes decidam comprar pães especiais sem levedura e glúten para clientes que estejam respeitando isso. Mas e os clientes que queiram tomar cerveja e comer pão branco? Por que restaurantes e bares que não seguem normalmente a Kashrut não podem oferecer também pães normais durante Pessach?

Eu sei, eu sei, trata-se de tradição. Não escrevo isso porque tenho saudade de pães em Pessach (já disse que adoro passar a semana tomando café com matzá e minha filha ama comer matzá com Nutella). Só acho engraçado que certas regras sejam seguidas e outras, ignoradas. Um israelense médio, secular, pode não comer chametz em Pessach, mas anda de carro no shabat, come em restaurantes sem Kashrut e nunca vai a uma sinagoga.

Esta coluna não é uma crítica, é apenas uma observação divertida de quem veio de fora. E viva a matzá, esse pseudo-pão-biscoito que dá gosto ao meu café a cada Pessach.

www.ruajudaica.com

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Um comentário sobre “FORAM PÃO ÁZIMO, CERVEJA E PESSACH

  1. Boa tarde,Wladimir
    Cada um que professe a religiao que quiser,mas nao a impondo a ninguèm,isto aqui è uma ditadura religiosa e deve de ser banida quanto mais depressa melhor para bem de todos,mesmo deles,sim os que obrigam os outros a fazer o que nao querem.
    Abrs.

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