3 – Legitimação da Interpretação Interbíblica


 

Há vários motivos possíveis por que duas ou mais passagens das Escrituras se relacionem entre si e, desse modo, legitimam a interpretação interbíblica. Os escritores ou personagens bíblicos podem partilhar à mesma fonte de palavras, quadro de palavras, imagens, metáforas, temas ou teologia. Às vezes, porém, as palavras ou expressões de um personagem bíblico ou de um escritor bíblico em citações, em alusões diretas ou indiretas, quer seja intencional ou não, podem revelar sua interpretação e compreensão de outra passagem bíblica. Neste caso, não apenas está em jogo a intertextualidade em geral, m. a interpretação interbíblica.

                A interpretação interbíblica vai muito além de uma mera menção de textos. Realmente, ela pode ocorrer na forma de uma citação palavra-por-palavra de uma passagem bíblica. Também pode ser uma aproximada, mas ainda óbvia referência a um texto bíblico, ou pode ocorrer na forma de um arranjo de palavras rememorativo de um texto anterior, um artifício estilístico ou feição literária ligando dois ou mais textos bíblicos. Uma maneira de argumentação pode também mostrar problemas subjacentes de duas ou mais passagens bíblicas. Adicionalmente, o litígio da aliança profética liga vários discursos que podem ser encontrados na Bíblia Hebraica e na B’rit Hadashah (isto é, o discurso de Estevão em Atos 7 ou as cartas às sete igrejas, ecoando as acusações proféticas contra o povo de D’us). A intepretação interbíblica era parte da prática hermenêutica do primeiro século. Yeshua a legitimou; o Ruach Hakodesh/Espírito Santo a sugeriu.

Exegese Rabínica

                 Muitos eruditos do Novo Testamento admitem que os métodos judaicos de intepretação influenciaram os escritores da B’rit Hadashah.[1] A intertextualidade era uma prática rabínica comum. A maneira pela qual o judaísmo rabínico desenvolveu as regras (middôt) para a interpretação das Escrituras testifica da importância da intepretação interbíblica no ambiente da Bíblia Hebraica. Muitas dessas regras focalizam a ligação de textos entre si a fim de compreender o seu significado. Os rabis ligavam versos das Escrituras uns com os outros baseados na admissão de que a Palavra de D’us deve ser “vista como um todo; a verdade para a qual apontam suas partes constituintes é a mesma verdade coerente. ”[2]

EXEGESE BIBLICA.png

                A interpretação interbíblica foi, portanto, parte do ambiente religioso e cultural dos escritores da B’rit Hadashah. Contudo, razões mais profundas impeliram os escritores da B’rit Hadashah a citar extensamente e aludir a Bíblia Hebraica.

O Exemplo de Yeshua

                O mais notável entre os intérpretes na B’rit Hadashah da Bíblia Hebraica é o próprio Yeshua. No mesmo dia da sua ressureição, a utilização de Yeshua da Bíblia Hebraica para validar o seu ministério confirmou a prática de relacionar a Bíblia Hebraica com a sua vida e os seus ensinamentos. Censurando seus discípulos, “então, lhes disse Yeshua: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! ” Porventura, não convinha que o Mashiach padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lucas 24:25-27). Neste exemplo, a hermenêutica de Yeshua envolvia discorrer sobre a Bíblia Hebraica para realçar os fatos concernentes à sua pessoa.

                No mais famoso de todos os seus discursos, o Sermão da Montanha, Yeshua se refere constantemente a Bíblica Hebraica. O tema principal da pregação e ensino de Yeshua, o reino de D’us, bem como suas famosas antíteses, são incompreensíveis sem a base da Bíblia Hebraica. O discurso está pontilhado pela fórmula “Ouvistes que foi dito aos antigos…Eu, porém, vos digo…” (Mat.5:21-22, 27-28, 31-32,38-39, 43-44). Claramente, estes dispositivos de ligação são designados para engajar a audiência ou o leitor em um diálogo com a revelação da Bíblia Hebraica.

A Direção do Ruach Hakodesh

                Os escritores da B’rit Hadashah acreditavam firmemente que o intérprete primário das Escrituras – o Ruach Hakodesh/Espírito Santo – os supervisionava e dirigia. Yeshua disse aos seus discípulos que, despois da sua ascensão, o Ruach Hakodesh os guiaria a toda a verdade (Jo 16:13). O Ruach Hakodesh não somente interpretava os eventos passados, ele fala das coisas por vir. Mais fundamentalmente, Ele interpretará Yeshua (Jo 16:14). Como Yeshua abriu os olhos de seus discípulos no caminho de Emaús, o Hashem enviaria o Ruach Hakodesh em nome de Yeshua a fim de ensinar seus seguidores e trazer-lhes à memória as palavras de Yeshua (Jo 14:26). Os escritores da B’rit Hadashah acreditavam que o Ruach Hakodesh era o iniciador das Escrituras (IITm 3:16) e que o Ruach do Mashiach operava nos profetas (IPed. 01:11). Estavam convictos de que “nenhuma profecia foi dada por vontade humana, entretanto, homens (santos) falaram da parte de D’us, movidos pelo Espírito Santo”. (II Ped1:20-21).  

Dr. Ganoune Diop           

[1] Preeminentes entre os métodos estão: (1) Peshat, um tipo literalista de exegese que consiste de uma tradução do significado literal de um texto. (2) Targum, uma paráfrase ou interpretação explanatória. (3) Midrash, exposição de uma passagem cujo objetivo é desenvolver a relevância de um texto para o presente. (4) Pesher, derivado de uma palavra aramaica que significa “solução”. “A pressuposição é a de que o texto contém um mistério comunicado por D’us que não é compreendido até que a solução é dada a conhecer por um intérprete inspirado.” (Veja Klyne Snodgrass, “The Use of the Old Testament in the New”, IN Interpreting the New Testament: Essays on Methods and Issues, eds. David A. Blacke, David S. Dockery (Nashville, TN; Broadman & Holman, 2001) p. 218).

[2] Donald Juel, Messianic Exegesis: Christological Interpretation of the Old Testament in Early Christianity (Philadelphia: Fortress Press, 1992), p.44.

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