Ruach há Kodesh – Espírito Santo?


    “Para onde eu poderia ir se me quisesse afastar de Teu espírito? Se aos céus ascendesse, lá Te encontraria, e se ás profundezas me lançasse, também lá estaria…Tua mão me continuará a conduzir e Tua destra a me sustentar…” Tehillim/Salmo 139:07-10 – Bíblia Sêfer[i]

            O Ruach há Kodesh representa a atividade de D’us na Terra, normalmente é sinônimo para o próprio D’us. Ele guiou os patriarcas e inspirou os profetas com mensagens de conforto, mas por vezes de repreensão, Abraão Ben David de Posquiéres, alegou que o Ruach Há Kodesh aparecera em sua academia. Há uma promessa, comentada pelos sábios judeus, que nos tempos do Mashiach, o Santo Espírito seria dado plenamente.[ii]

            A palavra hebraica para espírito por vezes vem da tradução de “neshamah” que significa “respiração” e de Ruach que “pode ser traduzida por vento, espírito, alma, atmosfera[iii] , como então saber o seu significado?

            Vou lhe fazer uma pergunta; você sabe o que é uma manga? Você pode responder que sabe, porém, eu lhe digo que depende!

            Depende do contexto em que a palavra “manga” é citada, por exemplo:

  1. A manga é doce, estou falando de uma fruta.
  2. A manga está amarrotada, agora falo de uma manga de camisa.
  3. Os animais estão soltos na manga, isto é no pasto.
  4. Manga tem uma população de 30.000 habitantes, agora falo de uma cidade no estado de Minas Gerais.

            Conclusão, o contexto define o significado da palavra “manga”, assim se dá com a palavra “espírito”.

Espírito como “folego de vida”

            Logo de início no livro de Bereshit/Gênesis 02:07 encontramos o “folêgo”:

            “E o Eterno Deus formou o homem (Adám) do pó da terra, e soprou em suas narinas o (neshamah) alento de vida e o homem tornou-se alma viva. ”

            No ato criativo, o Eterno, junta a terra e o alento, sopro, fôlego e aquele boneco transforma-se em “humano”, isto é, feito da terra, um ser vivo, uma alma vivente. A centelha de vida havia sido soprada e o milagre da Criação ocorrera.

            “…D’us acrescentou Seu fôlego estimulante de vida (neshamah), algumas vezes chamado de “espírito”. Esse fôlego não constituía uma substância separada que foi despejada numa forma inerte e vazia modelada do pó, mas apenas o poder divino doador de vida que transformou o pó em um ser vivo. A Bíblia mostra com isso que o fôlego de vida não representa uma segunda entidade, acrescentada ao corpo como se fosse um ingrediente, capaz de existir separadamente. Trata-se de um poder energizante procedente de D’us, que transformou o corpo terreno em um ser vivo (nefesh hayyah)”[1]

fôlego de vida 2

            Já o profeta Ieshaiáhu/Isaías fala da vida, o “neshamah” divino como um “sopro”, relacionando-o a Criação do homem:

נְשָׁמָה 
(feminino)

Fem./Plural: נְשָׁמוֹת 
Transliteração: nshamah 
Tradução: alma; respiração

            “Retira tua confiança do ser humano, cuja vida é como um sopro, pois muito pouco ele significa e nada faz que mereça ser glorificado”. 02:22

            Porém, esse alento ou fôlego, tradução da palavra “neshamah” que significa “respiração” não é privilégio somente dos seres humanos, porém, Moisés utilizou outra palavra para o mesmo fato, “Ruach”.

            “E vieram a Noé, à arca, dois de cada um, de toda criatura em que havia alento de vida” Bereshit/Gênesis 07:15, no verso 22 é traduzido por “espírito de alento de vida em suas narinas”.

רוּחַ 
(masculino e feminino)

Fem./Plural: רוּחוֹת 
Transliteração: ruach 
Tradução: vento; espírito

            O sábio Sh’lomoh/Salomão no seu livro Cohélet/Eclesiastes 03:19 e 20 é bem enfático em sua descrição de humanos e animais em relação ao espírito (Ruach):

            “Pois o que acontecer a um ou outro, conduz ao mesmo resultado, sendo a morte de um é igual ao do outro, tendo ambos o mesmo espírito e sendo nula a superioridade do homem sobre os animais, pois tudo é vão e fútil. Ao mesmo destino se encaminham, tendo vindo do pó e a ele retornando.”

            Naturalmente este texto traz algumas complicações, porém, quando se entende pelo contexto que, “mesmo espírito”, é o alento ou fôlego de vida, isto é, a centelha de vida e existência que o Criador partilha com todo ser vivente o teor da declaração é amenizado. Note que a associação da palavra “Ruach” com “pó da terra” sempre indica fôlego ou alento de vida e é paralela a  “neshamah”, respiração.  Vejamos alguns exemplos:

            “Quando escondes Teu rosto se perturbam; quando lhes tiras o fôlego expiram, e ao pó retornam.” Salmo 104:29

            “Quando seu alento se exala, à terra retorna e nesse mesmo dia perecem os seus desígnios”. Salmos 146:04

            “Volta assim o pó à terra de onde veio, e retorna o espírito a Deus, que o concedeu.” Cohélet/Eclesiastes 12:07

רוּחַ 
(masculino e feminino)

Fem./Plural: רוּחוֹת 
Transliteração: ruach 
Tradução: vento; espírito

            A mesma palavra hebraica “Ruach” vai se repetindo:

            “Mas há um espírito em cada ser humano, e é o alento do Todo-Poderoso que lhe proporciona o entendimento.” Ióv/Jó 32:08

inteligência entendimento

Espírito como “Entendimento”

            Agora adentraremos em outro contexto bíblico onde a palavra “Ruach” também é empregada. Você deve se lembrar de quando o povo de Israel estava para entrar na terra prometida e foram enviados 12 espiões para percorrer a terra.

            Na volta, o relatório da “inteligência” israelita da época passa as informações a Moshe/Moisés, apresentaram os povos que ali viviam e Calebe toma a frente e num ímpeto diz:

            “Subamos e herdemo-la, porque certamente prevaleceremos contra ela!” Bamidibar/Números 13:30.

            Os demais espiões disseram que era impossível a tomada da terra e logo depois o Eterno faz uma declaração elogiosa para Caleb:

            “Porém, o Meu servo Calev, porquanto nele houve outro espírito e perseverou em seguir-Me…” Bamidibar/Números 14:24

            Agora, “espírito” já não é mais fôlego ou alento.

            No Salmo 78:08 encontramos uma declaração sobre a fidelidade requerida e que alguns antigos israelitas não haviam mantido:

            “Eles não se comportarão como seus pais, uma geração contumaz e rebelde, uma geração que não soube dedicar a Deus seu coração e cujo espírito não manteve fidelidade ao Eterno.”

            O sábio Shlomoh/Salomão entre seus diversos provérbios destacou a temperança ou autocontrole pessoal como uma virtude inestimável:

            “O que tarda em irar-se é melhor que o poderoso, e o que disciplina seu espírito vale mais que o que conquista uma cidade.” Mishlê/Provérbios 16:32

            Iehezkel/Ezequiel 11:19 destaca a disposição do Eterno nosso D’us em mudar e converter o coração mau em um novo coração, uma nova vida:

            “E lhes darei um novo coração e lhes infundirei um novo espírito; e retirarei seu frio coração de pedra e lhes darei um sensível coração de carne…” (veja também 18:31 e 21:07)

            Assim, dentro deste contexto a palavra “Ruach” apresenta o significado de entendimento, mente, coração desejo.

Glória

 Espírito de D’us 1

            Não sei se você reparou que nos dois usos apresentados acima a palavra “Ruach” em relação ao ser humano, não se refere a uma entidade espiritual que tem vida independente da matéria, isto é, que há vida após a morte através de um espírito imortal, esse pensamento é ausente no Tanach.

            No entanto a palavra “Ruach” é também aplicada a D’us e aqui, a exemplo da “manga”, novamente muda-se o contexto e consequentemente altera-se o significado. Agora, você pode perguntar, aplicando-se ao Eterno, o que “espírito” significa?

            Bem, ignorando as controvérsias e os partidos religiosos, a palavra “Ruach” aplicada a D’us, utilizando a Bíblia como única regra de fé, vemos que “Ruach” tem um significado diferente dos dois anteriores aplicados ao ser humano, afinal, o Eterno é infinitamente único em Sua natureza divina. Não podemos aplicar uma visão antropomórfica a Ele, isto é, não podemos fazer D’us a nossa imagem querendo que o “espírito” humano seja um modelo para se entender o Ruach há Kodesh.

A Natureza Divina

            Quando entramos no território sagrado da natureza de D’us devemos levar conosco a consciência de que somos meras criaturas finitas e falíveis tentando discutir o Infinito.

            Em relação a quem D’us realmente é, conhecemos muito pouco, por isso falar de D’us é falar de um Ser que transcende nossa experiência de vida e que supera nossa compreensão, estando além de qualquer sistematização do pensamento humano.  D’us é singular e isso O distingue do humano, nunca podemos nos esquecer disto.

            Seríamos tolos se  achássemos que podemos compreender os absolutos divinos de Seu ser, o mais sábio entre nós  deve ficar em silêncio. E, portanto, qualquer modelo de pensamento, exemplo, símiles ou analogia que tente apresentar a natureza de D’us é, inevitavelmente, imprecisa. Na melhor das hipóteses, pode-se pegar alguns lampejos de Sua identidade divina mediante a Sua auto revelação nas Escrituras inspiradas. 

Shekinah

Espírito de D’us 2

              Em Shemuel Bet/II Samuel 23:02  e 03 encontramos a descrição que Davi faz de sua experiência com o “Ruach há Kodesh”:

            “O espírito do Eterno falou em mim, e a Sua palavra está na minha língua. Disse o Deus de Israel, a rocha de Israel falou-me…”

            Na Torá, Moshe/Moisés escreveu em Shemot/Êxodo 31:03 a 06 que o Ruach de D’us distribuiu dons espirituais:

            “E fiz com que ficasse repleto do espírito de Deus, em ciência, em inteligência, em saber e em todas as artes, para pensar em obras de mestre, para trabalhar em ouro, em prata e em cobre e na arte de gravar pedras de engaste e na arte de entalhar madeiras para fazer toda obra. E Eu, eis que designei… pus ciência, e farão tudo que te ordenei…” (Veja também Ieshaiáhu/Isaías 11:01 e 02, 61:01 e 02)

            Dentro desta análise das Escrituras nos parece que o “Ruach” dependendo do contexto transmite uma ideia diferente de “fôlego, alento” e “entendimento, coração”

            Ainda…

            “E o Eterno apareceu na nuvem e falou-lhe; e tirou do espírito que estava sobre ele e o pôs sobre os setenta homens, anciãos; e assim que pousou sobre eles o espírito, profetizaram naquele dia, e depois nunca mais. ” Bamidbar/Números 11:25

            Aqui o Ruach que estava sobre o Eterno, não era “sopro ou entendimento, vontade, coração”, mas saiu de D’us e foi colocado sobre os homens.

            Vejamos ainda outro exemplo da Torá:

            “E Bilam levantou seus olhos e viu Israel acampado por tribos; e veio sobre ele o espírito de Deus. E proferiu sua parábola e disse: ‘Palavras de Bilam ben Beor, e palavras do homem de olho aberto. Palavras daquele que ouve os ditos de Deus, que vê a visão do Todo-poderoso…” Bamidbar/Números 24:03 e 04.

            Nos parece que Bilam entrava em visão de olhos abertos, ao contrário dos médiuns espíritas, porém, o notório é que ele ouvia o Ruach há Kodesh, ouvia os ditos de D’us e contava suas parábolas.

            No livro do profeta Iehezkel/Ezequiel, o Ruach teve uma performance bem destacada. Neste livro ele aparece diversas vezes, veja por exemplo 03:12,22-24, 8:01-05, 11:01,24, 37:01 e 02.

            Que é esse “espírito” que sempre atua tão diretamente sobre os profetas?

            No capítulo 11:5 ele é designado de “espírito do Eterno” e no capítulo 36:27 é dito “Meu espírito”, assim também no 37:14, já nos capítulos 01:03, 03:14,22, 33:22, 37:01, 40:01 o espírito do Eterno é chamado de “mão do Eterno”, tão mais interessante é no capítulo 8:01 a 05:

            “…a mão do Eterno Deus pousou sobre mim. Observei e percebi algo que se assemelhava ao fogo; de seu meio para cima parecia fogo e de seu meio para baixo era resplandecente como o cobre em fusão. E estendeu para mim uma forma de uma mão e me segurou por um cacho de cabelo; e um espírito me levantou entre a terra e o céu… e me trouxe a Jerusalém…ali estava a glória do Deus de Israel…”

            Interessante que na visão ele parece ter visto uma silhueta de um ser glorioso que estendeu uma semelhança de mão, segurou pelos cabelos e o trouxe até Jerusalém para ver a glória do D’us de Israel, a mão do Eterno que o segurou era a mão do Ruach que o levantou, lembra o ensinamento de alguns sábios judeus que ensinavam sobre um ser de luz que entra em contato com o homem representando a “Shechiná” divina.

santidade

Santo

            Em Ieshaiáhu/Isaías 06:03 os serafins de seis asas e que estavam na presença de Hashem clamavam um ao outro:

            “Santo, Santo, Santo é o Eterno dos Exércitos; Sua glória envolve o mundo inteiro.”

            Naturalmente que o “Ruach” é Santo!

            O rei David em sua confissão do pecado de adultério e assassinato faz um apelo sentido:

            “Não me afastes da Tua presença, nem retires de mim o espírito da Tua santidade.” Tehillim/Salmo 51:13  

            O rei inspirado faz um paralelismo característico da literatura hebraica, “afastes” X “retires” e “Tua presença” X “espírito da Tua santidade”.

            É encontrado também um paralelo entre o “Ruach” e o “Shechiná” a presença divina que se manifestava no Tabernáculo no deserto e no primeiro Templo, onde pombas jovens e rolas eram as únicas aves oferecidas nos sacrifícios, tornando-se a pomba na tradição judaica como a imagem da Presença Divina, ou “Shechiná” o “Ruach há Kodesh”.

            Sendo assim D’us habitava com Seu “Ruach” tanto na Terra Prometida em Seu Tabernáculo como habita, nos crentes, os templos vivos espalhados em seu exilio após o primeiro século da era comum.

            Segundo a tradição judaica o pecado contra o “Ruach”, principalmente o pecado do orgulho afasta a “Shechiná”, a presença da santidade divina o “Ruach há Kodesh”.

            Qual conclusão que podemos chegar comparando estes três usos da palavra “Ruach”?

            Bem, primeiro que o Ruach humano pode ser entendido em duas formas, como fôlego, alento e respiração e a segunda como mente, entendimento, coração.

            Já o “Ruach há Kodesh” é diferente do “Ruach” humano, pois, Sua atuação consiste nas seguintes atividades divinas:

  1. O “Ruach” falava através dos profetas como falou através de Davi.
  2. O “Ruach” distribui dons como na construção do Tabernáculo, etc.
  3. Em diversas ocasiões o “Ruach” habitou, pousou, esteve sobre as pessoas capacitando-as a realizar uma grande obra e vencer desafios.
  4. O “Ruach” ministra através de parábolas exortativas, ensina com maestria.
  5. Ele é designado por “Espírito do Eterno”, “Meu Espírito”, “Mão do Eterno”, “Santo Espírito”.
  6. E finalmente o “Ruach” é chamado de Espírito Santo, “Ruach há Kodesh”, sedimentando sua total singularidade e mantendo totalmente distinto do “Ruach” humano que é apenas fôlego, alento ou entendimento, coração.
  7. O “Ruach há Kodesh” representa a atividade de D’us na Terra, normalmente é sinônimo para o próprio D’us.

              “A natureza do Ruach há Kodesh é um mistério. Os homens não a podem explicar, porque o Eterno não lho revelou. Com fantasiosos pontos de vista, podem-se reunir passagens da Escritura e dar-lhes um significado humano; mas a aceitação desses pontos de vista não fortalecerá a kehilá. Com relação a tais mistérios – demasiado profundos para o entendimento humano – o silêncio é ouro” (AA, contextualizado p. 52).

 

Rosh Wladimir

Revista Virtual da Herança Judaica   

 

 

 

 

[1] Trato de Teologia ASD, págs. 355 e 356.

[i] Neste artigo só utilizamos a Bíblia Hebraica Sêfer.

[ii] Unterman, Alan – Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, pag. 233.

[iii] http://www.hebraico.pro.br/dicionario/qdrsdic.asp

 

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