A Conexão entre Daniel 8 e 9


O livro do profeta judeu Daniel é enigmático e desafiador, ele chega com aproximadamente 17 anos a Babilônia após Jerusalém e o Templo terem sido destruídos pelas tropas de Nabucodonosor, as esperanças de Israel tinham ido por aguá abaixo, no entanto o Eterno mantinha Seu plano, e a própria ida dos exilados transformou-se numa grande aventura e bênção. No capítulo 2 o rei goin/gentio recebe uma revelação, já a partir do capítulo 7, o próprio Daniel recebe um desdobramento profético que recapitula o sonho do rei e avança no tempo. Já sob domínio Persa o capítulo 8 é descerrado numa visão envolvendo dois animais utilizados no Templo, um carneiro e um bode e um período de tempo é revelado, mas, não explicado até que anos depois o capítulo 9 traz a resposta aguardada. O foco deste estudo está em mostrar a ligação entre as revelações do capítulo 8 e o 9. 

           Há vários pontos de contato entre os períodos de tempo dessas duas profecias que as ligam de tal maneira a sugerir que o ponto de partida dado na segunda deve também ser empregado como o ponto de partida da primeira.

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  1. Distribuição do elemento tempo.

                A localização costumeira para os elementos de tempo nas profecias de Daniel está próxima do final. De sorte que os 2.300 dias em 8:14 ocorrem no fim daquela visão. Os três anos e meio de 7:25 ocorrem em torno do fim da interpretação dada ali. As tríplices declarações sobre tempo em 12:07, 11-12 ocorrem no final dessa profecia.

                A profecia do capítulo 9 é singular nesse sentido. Nesse exemplo, a profecia começa comum período de tempo, e os elementos de tempo estão distribuídos por todo ele. Em termos de estrutura literária, esse arranjo justapões as 70 semanas (no início da profecia do capítulo 9) sobre os 2.300 dias (no final da profecia na visão do capítulo 9). Essa justaposição literária sugere que esses elementos de tempo devem ser vistos como diretamente relacionados uns com os outros.

persépolis

2. Começando no período persa.

                As 70 semanas começam no período persa. Foi um rei persa quem deu o decreto para reconstruir Jerusalém, o ponto de partida dessa profecia de tempo. Em outro lugar, discuti os motivos por que o período de tempo dos 2.300 dias dado em 8:14 começou no período persa.[1] Isso significa que o período de tempo do capítulo 8 começou em um ponto indefinido n o período da mesma era persa.  Dadas essas relações, a data específica do último prontamente pode ser vista como suprindo a especificidade exigida pela data mais geral do primeiro.

3. Terminologia profética técnica.

                Quando Gabriel veio a Daniel ele o instruiu a “compreender a palavra (que eu agora te trago) e entender a visão (que tu viste anteriormente) ” (9:23, minha tradução). Aqui Gabriel remeteu Daniel à profecia anterior (cap. 8), mas fez isso de um modo muito específico. A palavra hebraica traduzida por “visão” neste exemplo é mar’eh. Esse termo contrasta com o hebraico hãzôn, a palavra mais comumente usada em Daniel para visões simbólicas. O significado da diferença entre essas duas palavras foi discutido em um estudo anterior.[2]

[3]Daniel 9:23 Almeida Revista, Corrigida e Anotada (ARCA)
Daniel 9:23 Bíblia Hebraica Stuttgartensia
   No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado: toma pois bem sentido na palavra, e entende a visão. 

 

יָצָא
YÅTSÅ
תַּחֲנוּנֶיךָ
TACHANUNEYKHA
בִּתְחִלַּת
BITËCHILAT
 
לְהַגִּיד
LËHAGYD
בָּאתִי
BÅTY
וַאֲנִי
VAANY
דָבָר
DÅVÅR
וּבִין
UVYN
אָתָּה
ÅTÅH
חֲמוּדוֹת
CHAMUDOT
כִּי
KY
בַּמַּרְאֶה:
BAMARËEH:
וְהָבֵן
VËHÅVEN
בַּדָּבָר
BADÅVÅR
 

                A distinção entre essas duas palavras é mantida em 8:26, onde Gabriel assegura a Daniel que a mar’eh das tardes e manhãs “é verdadeira”, mas ele foi instruído a “selar a visão (hãzôn)”. A primeira referência é quanto ao aparecimento de dois personagens angélicos que discutiam o período de tempo das tardes e manhãs nos versículos 13-14. A segunda referência é quanto ao que Daniel viu até aquele ponto – a visão simbólica dos versículos 2-12.

                Gabriel, portanto, não remeteu Daniel à visão em geral. Antes, ele o remeteu especificamente à mar’eh dos dois seres angélicos e sua conversação sobre a purificação/restauração do santuário no final dos 2.300 dias (8:13-14). Sendo que a próxima declaração feita por Gabriel é a respeito das 70 semanas, é evidente que essas semanas foram ligadas diretamente com aqueles 2.300 dias previamente mencionados desse modo.

Daniel 8:26          Almeida Revista, Corrigida e Anotada (ARCA)

Daniel 8:26          Bíblia Hebraica Stuttgartensia

“E a visão da tarde e da manhã, que foi dita, é verdadeira: tu, porém, cerra a visão, porque só daqui a muitos dias se cumprirá.”

וְהַבֹּקֶר
VËHABOQER
הָעֶרֶב
HÅEREV
וּמַרְאֵה
UMARËEH
 
הוּא
HU
אֱמֶת
EMET
נֶאֱמַר
NEEMAR
אֲשֶׁר
ASHER
כִּי
KY
הֶחָזוֹן
HECHÅZON
סְתֹם
SËTOM
וְאַתָּה
VËATÅH
רַבִּים:
RABYM:
לְיָמִים
LËYÅMYM
   

 4. O Verbo “cortar”.

                O verbo usado por Gabriel em sua primeira declaração é uma forma passiva (hebraico, Niphal) da raiz hãtak. Essa raiz claramente significa “cortar” ou “determinar, decretar”. Pelo fato de essa ser a única passagem onde o termo ocorre no hebraico bíblico, o exato matiz de significado pretendido para ele nessa passagem tem sido objeto de discussão. Os significados de “decretar” ou “determinar” derivaram do hebraico mishnaico, que data de um milênio depois do tempo de Daniel (sexto século a.C.). Todavia, mesmo no hebraico mishnaico a palavra era mais comumente usada como o significado de “cortar”.

Daniel 9:24 Almeida Revista, Corrigida e Anotada (ARCA)
Daniel 9:24 Bíblia Hebraica Stuttgartensia
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para extinguir a transgressão, e dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos santos.” 

נֶחְתַּךְ
NECHËTAKH
שִׁבְעִים
SHIVËYM
שָׁבֻעִים
SHÅVUYM
 
עִיר
YR
וְעַל
VËAL
עַמְּךָ
AMËKHA
עַל
AL
וּלַחְתֹּם
ULACHËTOM
הַפֶּשַׁע
HAPESHA
לְכַלֵּא
LËKHALE
קָדְשֶׁךָ
QÅDËSHEKHA
וּלְכַפֵּר
ULËKHAPER
חַטָּאת
CHATÅT
חַטָּאוֹת
CHATÅOT
(וּלְהָתֵם)
(ULËHÅTEM)
עֹלָמִים
OLÅMYM
צֶדֶק
TSEDEQ
וּלְהָבִיא
ULËHÅVY
עָוֹן
ÅON
וְלִמְשֹׁחַ
VËLIMËSHOACH
וְנָבִיא
VËNÅVY
חָזוֹן
CHÅZON
וְלַחְתֹּם
VËLACHËTOM
קָדָשִׁים:
QÅDÅSHYM:
קֹדֶשׁ
QODESH
   

 

                Os extensos significados das raízes verbais semíticas desenvolveram-se a partir de seus significados concretos em direção de significados abstratos (este é o modo como eles estão registrados nos dicionários hebraicos). É razoável, portanto, sustentar que o significado da raiz dessa palavra envolvia a ideia de cortar, e que o conceito de cortar um decreto, determinando algo, foi derivado dessa ideia básica.  Consequentemente, no tempo de Daniel esta palavra já significava “cortar”. Quer os extensos significados de “decretar” ou “determinar” tenham se desenvolvido por esse tempo ou não, no tempo presente não pode ser averiguado devido à falta de evidência comparativa.

                A principal evidência comparativa do canaanita ugarítico do décimo-terceiro século a.C., apoia essa noção verbal da raiz de cortar (um filho de um pai), mas não suas ideias posteriores de decretar e determinar. Assim, essas três linhas de evidências (significado da raiz sobre significado derivado; caso único de um cognato; e o significado predominante em fontes posteriores) favorecem, mas não provam de forma alguma, que esse verbo deveria ser traduzido por “cortar” nessa passagem. O sentido indicaria que as 70 semanas deveriam ser “cortadas” dos 2.300 dias.

                Resumindo, os períodos de tempo dessas duas profecias podem estar relacionados diretamente:

  1. Em termos de seus lugares na estrutura literária de Daniel.
  2. A partir do período histórico em que ambos iniciam.
  3. Por meio de terminologia profética que os liga.
  4. Por meio do significado do verbo inicial da segunda profecia.

                A partir dessas linhas de evidência é seguro concluir que as 70 semanas estava, diretamente ligadas aos 2.300 dias e, então, cortadas deles. Além disso, a data de partida específica para o primeiro período deveria ser empregada também para clarificar a data de partido para o último.   

 

Autor: William H. Shea

Estudos sobre Daniel – Origem, Unidade e Relevância Profética – UNASPRESS – 2009 – Editor Frank B. Holbrook, p. 183-185

[1] W. H. Shea, Estudos Selecionados em Interpretação Profética – UNASPRESS, 2007 – p. 74-76.

[2] W. H. Shea, The Relationship Between the Prophecies of Daniel 8 and Daniel 9, p. 241-46.

[3] http://www.hebraico.pro.br/biblia/quadros.asp

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