Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – III Halacha


                Em seu livro “Um Rabino Conversa com Jesus” o rabino Jacob Neusner se imagina em uma conversa ou controvérsia com Ieshua/Jesus, confesso que o livro me atraiu bastante e me deu arrepios de imaginar o que um rabino da atualidade teria a dizer a um rabino do primeiro século, ainda mais sendo Ele quem Ele é. Por fim cheguei à conclusão que se tratava de uma relacionamento de amor e ódio, proximidade e desavença, porém, um capítulo que me chamou a atenção foi a crítica à forma como Ieshua interpretou a Torah e a Sua consequente Halachá, ou seja, a aplicação prática a vida das pessoas. Hoje ao apresentar o texto abaixo acredito compreender melhor o que o rabino Jacob parece não ter entendido na época.

rabi Hillel e Shammai

                “Exatamente como Hillel e Shammai antes dele, Ieshua desenvolveu a sua própria maneira de interpretar a Torah e aplica-la à vida, o que absolutamente não era uma coisa simples, como indicam as dezenas de volumes do Talmud. A grande parte da interpretação de Ieshua da Torá, sua halakhot, pode ser encontrada incrustada nos evangelhos, ainda que muitas vezes de forma reduzida, embora também sejam assim as halakhot dos outros rabis editadas na Torah. Ao interpretar desse modo a Torah e aplica-la à vida, Ieshua seguia a boa prática rabínica, e com isso, de modo algum, se afastava do Judaísmo, a despeito do que alguns possam pensar de seu manejo “liberal” da Torah; sob este aspecto ele se aproximava muito mais de Hillel do que Shammai…

                Ao lidar com a Lei é claro que Ieshua tinha de aplica-la à vida diária, moldar regras concretas de conduta, isto é, halakhot. Ele era, segundo as palavras de Philip Sigal, “alaquista, proto-rabínico, bem como um profeta carismático”.[1]

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                Ao aplicar a Lei à vida concreta era visível que Ieshua era a favor da Lei. Mas tem sido uma manobra cristã tradicional salientar que ele revogou partes da Lei, até mesmo a Torah escrita, coisa que rabi algum jamais faria. Entretanto, como frisa Phillip Sigal “a revogação dos preceitos específicos da Torah escrita não é rara no “meio ambiente” de Jesus e observa que o rabi tanaíticos Nathan afirmou que quando “se tem que agir pelo Eterno, a anulação de cláusulas é permitida. Ele sustenta que, no que se refere a Torah, quer a escrita, quer a interpretativa…nenhuma “lei” é absoluta. O que está acima de tudo é a vontade de D’us”[2] que é aplicada por meio da sabedoria interpretativa do rabi. Um exemplo dessas muitas revogações rabínicas de partes da Torah escrita é a rescisão do ordálio da esposa suspeita de adultério (Bamidbar/Num. 05:11-31) pelo contemporâneo de Ieshua, rabi Yohanan ben Zakkai.[3]

                Um exemplo da “revogação soberana” de uma obrigação central da Torá escrita, feita por Ieshua e que supostamente o colocaria fora da tradição rabínica, exemplo esse frequentemente empregado pelos estudiosos cristãos, é a afirmação de Ieshua encontrada em Marcos 02:27:

                “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”.

                Entretanto, uma paráfrase muito parecida encontra-se também num escrito rabínico antigo:
                “O sábado está submetido a vós, não estais submetidos ao sábado (Mekilta 31:13). Com efeito, Sigal argumenta que “Durante o seu breve ministério Jesus foi o proto-rabi cujas opiniões influenciaram seus contemporâneos e provavelmente entraram para a literatura tanaítica assim como as interpretações de outros. Um exemplo clássico de uma perspectiva enunciada por Jesus que é atribuída ao tana posterior R. Simon B. Menasia é a afirmação mequilta a respeito do sábado.[4] Seja como for, sob este aspecto, Ieshua se situava no centro da tradição rabínica, quer estivesse sendo igualada, quer plagiada.

                Às vezes, procurando quase em desespero de causa tornar Ieshua diferente, separá-lo do Judaísmo, estudiosos cristãos assinalam que numerosas vezes Ieshua cita a Torah e diz a seguir “mas eu lhes digo”, argumentando que um rabi comum não faria tal coisa em contradição com a Palavra de D’us; ele portanto deve ter soberania divina sobre a Torá. mais uma vez, a falta de conhecimento dos materiais rabínicos traiu esses estudiosos cristãos. O emprego desse tipo de linguagem por Ieshua “não deveria ser encarado como prova de nada além da insistência proto-rabínica na opinião própria de cada um, mesmo quando contradiz e abole um ensinamento mais antigo. Ela é usada pelo sábio dos séculos I e II, R. Simon B. Yohai, em TSot 06:06-11… É óbvio que os ouvintes “ficaram extasiados” com Menahem B. Sungai (T Ed 3:01) como “ficaram extasiados” com Jesus (Mat. 07:28).[5]

                Em outro trecho, Sigal afirma claramente: uma característica importante desta evolução proto-rabínica foi o fato de que indivíduos assumiram a autoridade religiosa. Esses indivíduos, por força de personalidade e de erudição eram capazes de mudar halakhah anteriores, alterando a tradição, e inaugurando novas tendências…E esta diversidade é, em grande medida, a chave para entendermos o Jesus de Mateus.[6]

Jesus na sinagoga IV

                Assim, longe de ser diferente por causa de seu estilo forte de ensino no tocante à Torah, Ieshua encaixava-se muito bem, sob este aspecto, no seu ambiente cultural e intelectual. Mais tarde, é claro, após o ano 70 d.C., criou-se o costume de decidir qual maneira correta, a halakhah, por meio do voto com maioria entre os rabis, mas isso não acontecia antes de 70 quando Ieshua ensinava.

                Um excelente exemplo de outra pessoa que foi um vigoroso mestre da Torah, alguém que também poderia revogar a Torá escrita, por exemplo, o julgamento por sotah da mulher suspeita de adultério, foi o contemporâneo de Ieshua, Iohanan ben Zakkai. Ele passou vinte anos na Galiléia, estudou com Hillel e Shammai, era um pensador vigoroso, independente e original, e de uma maneira significativa “fundou” uma nova religião, ou melhor dizendo, forjou uma nova direção no Judaísmo, o Judaísmo rabínico; em tudo isso, Iohanan e Ieshua eram muito parecidos. Sigal especulou, com fundamento, que em virtude de todo o tempo que Iohanan passou no pequeno território da Galileia, dos seus interesses e da semelhança entre seu pensamento e o de Ieshua, há grande possibilidade de que se conhecessem, e que muito possivelmente fosse colegas da escola de Hillel e Shammai, mais tarde colegas de profissão, e portanto poderiam muito bem ter tido debates a respeito da halakhah. Ademais, quando lembramos que Iohanan bem Zakkai tornou-se o chefe da escola hiletita, – da qual Ieshua estava sob vários aspectos muito próximo, fez com que aquela interpretação se tornasse dominante em todo o Judaísmo subsequente – parece que tem muito mais sentido considerar Ieshua como alguém que estava muito “dentro”, em vez de “fora” da corrente do Judaísmo anterior ao ano 70.

                Geza Vermes notou a impressionante semelhança existente entre Ieshua e o Mestre de Justiça de Qumrã. Como Ieshua, o “Mestre de Justiça… atuou como transmissor e intérprete dos mistérios divinos, da revelação definitiva de D’us. Como Jesus, estava cercado por discípulos fiéis que continuaram a aderir às suas doutrinas, e a praticá-las, depois que ele morreu… Assim como os seguidores de Ieshua, organizaram-se num corpo separado, auto-suficiente, dos escolhidos, alguns dos quais viviam, como a igreja de Jerusalém, da comunhão de bens, e evitavam a posse de propriedade particular”. Diferentemente, porém, dos sectários de Qumrã, que “fecharam as portas da sua comunidade a todos, exceto aos judeus”[7], os seguidores de Ieshua, depois de muito exame de consciência, decidiram permitir que não-judeus entrassem para o grupo, sem antes terem que se converter ao Judaísmo.

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                O que havia então de especial nos ensinamentos de Ieshua? Haveria realmente algo especial? Como já vimos, os grandes mandamentos do amor já constituíam parte da herança judaica. A ideia de liberdade em relação à Lei foi algo que Shaul/Paulo, não Ieshua, exprimiu (e além disso, somente para os seguidores gentios de Ieshua, não para os seguidores judeus; ver Rom. 09 a 11). Claro que havia algo especial no ensinamento de Ieshua. Em primeiro lugar, a extraordinária coletânea específica de ensinamentos é a marca do gênio criativo de Ieshua.       

                   Como salientou o estudioso judeu do Novo Testamento, David Flusser, embora sejamos basicamente capazes de reproduzir o evangelho a partir de citações dos muitos volumes dos escritos rabínicos, teríamos antes de ter os evangelhos diante de nós para fazê-lo. Ademais, como já se observou, como no tempo de Ieshua a interpretação e a aplicação da Torah estivesse passando por grandes transformações contínuas, a sua própria interpretação “segundo o espírito” era exatamente isso, uma intepretação própria, muito embora se postasse na mesma direção do seu grande predecessor, Hillel.

enxerto na oliveira 2

                Entretanto, Ieshua não estava satisfeito com o ensinamento de que o conjunto da Torah deveria ser cumprido segundo o espírito da Lei. Além disso, afirmando o ideal do amor altruístico pelos amigos, pelo próximo e até pelos inimigos, – como se vê especialmente no sermão da montanha (Mat. 5ss) (o amor quenótico, como disse Paulo em Fl 2:6). Os rabis tinham a expressão para designar as decisões haláquicas que iam além das exigências da Torah:

                “lifnim meshurat hadin” (acima das exigências do tribunal).

                “Às vezes, os proto-rabis estimulavam o fato de ir além das exigências estritas da Lei ou da intepretação literal de um texto. Deste modo, inspiravam alguns a sacrificarem o seu direito legal ao dinheiro ou à propriedade a fim de estenderem a outros a equidade. E assim que devemos entender Mat. 05:40 (“E aquele que pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a veste”).[8]

                Mas o que de mais especial havia em Ieshua era o fato der que ele viva não apenas de acordo com a Torah, mas também de acordo com seu supercrogatório ideal quenótico “lifnim meshurat hadin”, até o ponto de morrer, em meio a um imenso sofrimento, pelos seus amigos: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (isto é, por “aqueles por ele amados” Yohanan/João 15:13). Como Geza Vermes propõe, “o âmago da mensagem de Jesus era a sua acentuação da interioridade e da supererogação”.[9]

Jesus e a prostituta

                Assim, o que parece haver impressionado muitos dos contemporâneos de Ieshua na pessoa dele, tornando-os seus discípulos, devem ter sido sua sabedoria e seu amor interiores, que irradiavam no seu ensino o cumprimento de toda a Torah segundo o espírito da Torah. Ele apresentava o ideal de amor altruístico que ia além desse espírito, e viveu e morreu de acordo com ele, com todo o seu ser. Aquilo que Ieshua “pensou, ensinou e realizou”, aquele todo, aquela vida (e morte), eis o que tornava Ieshua especial, para muitos, uma transparência humana do divino…

                Ainda assim, o fato de viver e morrer de acordo com a Torah e ir além dela, de modo nenhum pôs Ieshua fora do Judaísmo. Os rabis descrevem esse amor altruístico com o termo bíblico hesed, frequentemente traduzido simplesmente como “benevolência”. O hasid é alguém cuja vida está centrada no hesed, isto é, alguém cuja filosofia de vida é não se “satisfazer com um padrão mínimo de conduta, mas ir além da letra da Lei”.[10]

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                Ao advogar a vida no amor altruístico, no hesed, Ieshua também falava de vida no espírito, e instava outros a aprenderem com sua humildade. Observem a seguir notáveis paralelos rabínicos:

  • “A vida vivida no espírito do hesed era, além disso, considerada arauto do espírito santo (shekalim 9b)”.[11]
  • “A santidade conduz à humildade; a humildade ao temor do pecado; o temor do pecado ao espírito santo; o espírito santo à ressurreição dos mortos. Mas o hasiduth (a prática do hesed) é maior que tudo isso! ”.[12]

                Mordecai Padiel, um estudioso judeu contemporâneo, resume a sua descrição de um hasid da maneira que para o cristão recorda extraordinariamente o amor altruístico de Ieshua e sua referência aos dois grandes mandamentos de amor:

                “O hasid é, então, a pessoa que pratica o hesed na sua vida diária – na nossa linguagem, uma ética mais elevada. Isto segundo Jacobs, implica o comportamento que combina a intensidade do amor por D’us e pelo ser humano – completa devoção ao primeiro e benevolência irrestrita para o com este último… Como assinala o Talmud, é bom que alquele4s que praticam o hesed procurem os pobres (shabbat 104a).[13]

Autor: Leonard Swidler – Ieshua, Jesus Histórico – EP – págs. 59 a 68 – editado e contextualizado por Herança Judaica.

 

 

[1] Sigal, The Halakhah of Jesus, p. 6.

[2] Ibid, p. 16.

[3] Mishná, Sotah, 9:9.

[4] Sigal, The Halakhah of Jesus, 159.

[5] Ibid., pp. 81 ss.

[6] Ibid., p. 79

[7] Vermes, Jesus and the World of Judaism, p. 68.

[8] Ibid. Geza Vermes observou, por um lado, que Jesus em mais de uma ocasião insiste na obediência aos preceitos puramente rituais e cúlticos em palavras tanto mais historicamente críveis quanto eles são periféricos à narrativa evangélica e na verdade estão na contracorrente do antinomianismo essencial do Cristianismo dos gentios. Mas acrescenta que a principal distinção da piedade religiosa de Jesus reside na sua ênfase extraordinária no verdadeiro significado religioso interior dos mandamentos…Filon e Josefo fizeram a mesma coisa e também muitos rabis e seguidores do Qumrã… Interioridade, pureza de intenção, desempenharam grande papel no pensamento de Jesus… por causa da sua inclinação natural para o individual e o pessoa de preferência ao coletivo”.  Jesus and the World of Judaism, p. 47.

[9] Ibid., p. 55.

[10] Louis Jacobs, “The Concepto f Hasid in the Biblical and Rabbinic Literature”, Journal of Jewish Studies, vol. 8 (1957), p. 150.

[11] Mordcai Paldiel, “Hesed and the Holocaust”. Journal of Ecumenical Studies, 23, 1. Winter, 1986, p. 95.

[12] Talmud, Avodah Zarah, 20b.

[13] Paldiel, “Hesed and the Holocaust”, p. 97.

 

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