Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – I Judeus e Goin’s


                Shaul/Paulo escreveu que os seguidores de Ieshua/Jesus participam da “raiz e da seiva”[1] do Judaísmo, o próprio Ieshua disse que a “salvação vem dos judeus”[2] e que Ele “não veio abolir a Torah”[3], no entanto as coisas não correram bem depois disso, afinal, Ieshua separou-se do Judaísmo para criar uma nova religião? São Seus ensinamentos incompatíveis com os judeus e sua religião? O texto que você vai ler, é o primeiro de uma pequena série que trará mais informações, que tenho certeza vão fazer você pensar duas vezes.

enxerto na oliveira 4

                “O estudioso Julius Wellhausen foi incisivo ao insistir que Ieshua não era cristão[4] e sim judeu: “Ele não pregou uma nova fé, mas ensinou os seres humanos a fazerem a vontade de D’us, e na sua opinião, e também na opinião dos judeus a vontade de Deus encontrava-se na Torah e nos outros livros das Escrituras”.[5]

                O exegeta protestante contemporâneo E. P. Sanders rejeita tranquilamente a interpretação de que Ieshua desobedeceu à Torah: “As opiniões vão deste extremo: não há nenhuma violação à Lei, ou nenhuma que mereça ser citada. Nesse caso, temos de admitir que um dos extremos é correto: o segundo”.[6]

                Estes e outros estudiosos recentes declaram firmemente que aqueles cristãos que tentam estabelecer algum tipo de dicotomia entre a Lei e a graça, como se o Judaísmo fosse a religião somente de Lei e o Cristianismo a religião somente da graça, do evangelho, sejam eles o que forem, não são, sob este aspecto, seguidores de Ieshua. Ele, seja como for, estava comprometido com o cumprimento da Lei, da Torah “até que passem o céu e a terra” e “aquele portanto, que violar só um destes menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino dos Céus (Mat. 5:18ss).  Não havia ideia alguma de abolição da Lei em suas palavras: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revoga-los, mas dar-lhes pleno cumprimento (“plerosai”, literalmente, implementar, Mat. 05:17-19).[7]

Torah 4

                Pode-se dizer o mesmo da afirmação, variante desta, de que o judaísmo é a religião da lei e da justiça, mas que o cristianismo é a religião do amor. Ieshua deixou claro que não há divisão entre as duas. Ao contrário, são uma só. Ele resumiu que entendia por religião seguir o duplo mandamento da lei: amor a D’us e ao próximo. Isto, é claro, não constituía nenhuma novidade. Ele simplesmente fazia uma citação da Torah, Devarim/Deut. 06:05, na verdade um trecho da abertura da oração judaica diária, o Shema: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” e Vaicrá/Levítico 19:18: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. De fato, vincular estes dois mandamentos e resumir neles a lei, não era algo novo ou especial para Ieshua. Segundo Lucas 10:25-28, quem falou no mandamento duplo do amor foi o “homem da lei”; Ieshua simplesmente concordou com ele. Além disso, cerca de 200 anos antes do nascimento de Ieshua, outros escritores judeus afirmaram esses mesmos sentimentos. São encontrados em diversos pseudoepígrafos (escritos judaicos não-canônicos, em grego):

  • “Amarás a D’us e ao próximo” (Testamento de Issacar 5:2).
  • “Amei o Eterno e todo ser humano de todo o meu coração” (Ib. 7:6).
  • “Amai ao Eterno com toda a vossa vida e uns aos outros com coração sincero” (Testamento de Daniel 5:03).
  • “Temei ao Eterno e amai ao próximo” (Testamento de Benjamim 03:03).
  • “E ele lhes ordenou que cumprissem o mandamento de D’us, e fizessem justiça e que todos amassem ao próximo” (Jubileus 20:09).
  • “Meus filhos, amai-vos como irmãos, como se ama a si mesmo…deveis amar uns aos outros como a vós mesmos” (Ib. 36:04-06).

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                Exatamente o mesmo resumo da Lei, Torah, no duplo mandamento do amor foi expresso por Filon de Alexandria (cerca de 20 a.C. a 50 d.C), um judeu contemporâneo de Ieshua.  No seu tratado “Sobre Mandamentos Individuais” II,63, escreveu:

“Há, por assim dizer, dois ensinamentos fundamentais aos quais estão subordinados inúmeros

ensinamentos e afirmações individuais: com referência a D’us o mandamento de honrar a D’us

e de devoção, e com referência à humanidade, do amor pela humanidade

e do amor da justiça”.

                Philip Sigal observa que “Akiba, o rabi por excelência do século I, longe de negar que o mandamento do amor seja critério significativo pelo qual toda ação deve ser avaliada, insistiu nele”, e dá as referências rabínicas, bem como outras citações rabínicas de apoio à afirmação, além das acima citadas.[8]

                Em suma: estas não são palavras de uma religião deficiente em termos de amor. Ieshua, de fato, frisou a Torá e o amor, e nisso frisou a tradição judaica.

 

Autor: Leonard Swidler,  Ieshua, Jesus Histórico, págs. 56 a 58, EP. 1993. Editado e contextualizado por Herança Judaica.

[1] Romanos 11:17.

[2] Yohanan/João 04:22.

[3] Mattityahu/Mateus 05:17.

[4] O termo cristão e suas variáveis modernas não se aplica ao primeiro século, Ieshua viveu e morreu dentro do Judaísmo. (nota do editor da Revista)

[5] Julius Wellhausen, Einleitung in die drei ersten Evangelien, Berlim, Reimer, 1905, p. 113: “Jesus não era cristão, era judeu”.

[6] E. P. Sanders, Jesus and Judaism, Filadélfia, Fortress, 1985, p. 264.

[7] Uma palavra tem muitos significados possíveis, aquele que se pretende somente pode ser conhecido em relação com o contexto, como foi neste caso reportado por Gerhard Delling: “a significação de “pleroo” não pode ser deduzida… ela tem de ser baseada no contexto…segundo Mat. 5:17 a ela (missão de Ieshua) é em primeiro lugar o cumprimento da Lei e dos profetas. Jesus não afirma simplesmente que os manterá. Sua tarefa, como ele a vê, é realizar a vontade de Deus manifestada no Antigo Testamento. ” Gerhard Kittel, Theological Dictionáry of the New Testament, Grand Rapids, MI: Eerdemans, 1968, VI, pp. 293ss.

[8] Phillip SIgal, The Halakhah of Jesus of Nazareth according to the Gospel of Matthew, Lanham, MD, University Press of América, 1987, p. 18. m

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