Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – IV Perushim/Fariseus


                “Durante quase dois mil anos, a maioria dos cristãos imaginaram que o farisaísmo e o Judaísmo subsequente que se diz descender dele, fosse o inimigo por excelência de Ieshua e do Cristianismo. Entretanto, pesquisas recentes, na maior parte judaicas, mas também cristãs, questionam seriamente esta ideia. Os cristãos têm muito a aprender a respeito de si mesmos com essas pesquisas.

                Nestes últimos anos, realizam-se muitos debates especializados sobre a identidade e o número dos fariseus.[1] Esta busca dos especialistas, que desejam conhecer os “verdadeiros fariseus”, vem se realizando com muita intensidade por duas razões principais:

                Alguns judeus consideraram que os fariseus seriam os precursores dos rabinos, e portanto um vínculo essencial no desenvolvimento do Judaísmo posterior ao ano 70 d.C., chamado, um tanto tautologicamente, de Judaísmo rabínico. Tradicionalmente, os cristãos também fizeram essa mesma vinculação entre rabinismo e farisaísmo e, mais tarde, vincularam o Judaísmo rabínico à descrição altamente negativa dos fariseus, retratados nos evangelhos, como os antípodas de Ieshua. Embora a solução desse quebra-cabeças erudito ainda não esteja completa, muito já foi conseguido, principalmente no sentido de descartar, claramente, numerosas distorções.

fariseus 2

                Por conseguinte, tendo sempre presente o caráter ainda incompleto e, às vezes, tateante dos conhecimentos atuais, bem como os seus progressos, passamos a examinar resumidamente a (s) imagem (s) emergente (s) dos fariseus e o relacionamento de Ieshua com eles.

                Um dos estudiosos mais perspicazes do farisaísmo é o judeu Ellis Rivkin.[2] Ele demonstra que o ensinamento tanto dos rabis posteriores ao ano 70 d.C. quanto dos fariseus era uma tríade:

“O único D’us Pai amou tanto o homem, que revelou, por intermédio de Moisés, a sua Lei dual, lei essa que, se internalizada, e fielmente cumprida, obterá para esse indivíduo a vida eterna para a alma e a ressurreição do corpo”.[3]

                A segunda parte da tríade, a Lei dual, é construída pela Lei escrita, ou Torah (isto é, as Escrituras) e pela Torah oral, isto é, o comentário e a aplicação rabínicos da Torah escrita.

                O estudioso cristão, John Pawlikowski, seguindo a tendência tradicional de vincular intensamente aos rabis posteriores a 70 d.C. os fariseus anteriores a 70 d.C., mas atribuindo as características positivas documentadas dos rabis também aos fariseus, escreveu que por meio do emprego do processo da Torá ora, os fariseus “aprofundaram, humanizaram e universalizaram” as tradições anteriores. Enquanto os sacerdotes concentravam-se codificação da legislação do culto, os fariseus, diz ele, concentravam-se na “codificação” do amor, da lealdade e da compaixão, estabelecendo-os com obrigação de todo o povo de Israel: proposições gerais eram agora entendidas como deveres morais e religiosos específicos a serem cumpridos por todos os judeus.

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                “Dar hospitalidade aos viajantes, visitar os doentes de todos os grupos religiosos, prover de dote a noiva carente, dar educação a todo indivíduo do sexo masculino, cuidar dos mortos, e ajudar a levar a paz àqueles para quem ela está ausente” nunca haviam sido claramente obrigações religiosas nas Escrituras hebraicas, embora estivesse implícito no seu espírito. “Os rabis transformaram esses cuidados em novos mandamentos, ou mitzvot.[4]

                Frequentemente, os cristãos retrataram a intimidade de Ieshua com D’us seu Pai ou a sua insistência no espírito interior de oração e moralidade como algo novo e oposto ao modo de ser e agir dos fariseus. A pesquisa de Rivkin leva-o afirmar que o oposto é que é verdadeiro.

                Ele acha que a fonte de poder de atração dos fariseus era o relacionamento entre o D’us único e o indivíduo singular. “D’us Pai se importou contigo. Estava preocupado contigo. Cuidou de ti, amou-te e te amou tanto que quis que seu eu único viva para sempre”.  Para os fariseus “o Pai celeste estava sempre presente. Podia-se falar com ele, pleitear com ele, clamar por ele, orar a ele, de pessoa a Pessoa, indivíduo a Indivíduo, coração a Coração, alma a Alma. É o estabelecimento deste relacionamento pessoal, uma experiência interior que explica o poder manifesto do farisaísmo de continuar vivo… A interiorização é o caminho único para a salvação”.

                Pawlikowski escreveu, nessa mesma linha de raciocínio, que com os fariseus, “começava a surgir o senso de uma nova intimidade entre D’us e a pessoa humana. Ele agora se tornava o Pai de todos e de cada um”.[5]

                O retrato dos fariseus que surge desta pesquisa é de que eram aquele grupo de mestres estudioso leigos[6] que apareceram na história cerca de um século e meio antes do nascimento de Ieshua, desenvolveram a técnica e as práticas acima mencionadas, empregaram a técnica de citar textos da Bíblia em apoio às suas afirmações e se tornaram autoridades na vida dos judeus durante o reinado da rainha Alexandra (76-67 a.C.) muito antes dos tempos de Ieshua. Isso era evidentemente uma revolução, pois Moisés não conferiu a nenhuma classe de estudiosos leigos autoridade no tocante à Torah e à vida religiosa, nem a Bíblia empregava a técnica de usar textos já escritos como ponto de apoio para argumentação – essa foi uma evolução tipicamente farisaico-rabínica. Após o falecimento da rainha Alexandra, a influência dos fariseus parece haver declinado, sem contudo desaparecer. Após a destruição de Jerusalém em 70 d.C., aparecem como bastante influentes nas áreas ao redor das igrejas cristãs para as quais Mateus e Marcos escreveram (o uso da palavra “fariseu” em Lucas e João ainda necessita ser mais minuciosamente examinado) de modo que as características de sua importância no ambiente de Mateus em particular (mais ou menos 85 d.C.[7]) será pelo menos um reflexo parcial daquele período, mais do que apenas da época de Ieshua.

                Com essa diferenciação presente na lembrança, está claro que o Novo Testamento/B’rit Hadashah oferece provas irrefutáveis da influência dos fariseus no século I da Era cristã. No capítulo 23 de Mateus, que denuncia violentamente os fariseus, está registrado que Ieshua disse: “Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Portanto, fazei e observai tudo o que vos disserem” (Mat. 23:2). Em Mat. 5:20 Ieshua diz: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. O contexto desta afirmação é Ieshua dizendo que veio para cumprir plenamente a Torah (15:17), que de fato tudo será realizado (15:18), que ensinar a violar a Torah é errado, o certo é defende-la (15:19). Portanto, a reverência dos fariseus para com a Torah deve ser imitada e ultrapassada pelos seus seguidores (15:20).

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                Esta imagem dos fariseus parece diametralmente oposta à aquela que os cristãos projetaram por si mesmos. Na realidade, parece-se extraordinariamente com a imagem de Ieshua, e mais tarde, com as dos seus seguidores. Rivkin notou a mesma coisa, pois após falar a respeito da tríade farisaica, descreveu Ieshua como tendo sido alimentado com a Torah dual:

“A fé global dos fariseus na Tríade estava gravada na sua consciência. D’us era, na realidade, o Pai amoroso e zeloso. D’us havia revelado… a Lei dual… prometido que todo aquele que servia com amor e lealdade teria a vida eterna e a ressurreição. Para Jesus como para os fariseus, a realidade suprema era interior, não exterior”.[8]

Autor: Leonard Swidler, Ieshua – Jesus Histórico, EP, 1993, págs. 69 a 75, editado e revisado pela Revista Herança Judaica.

 

 

[1] Ver louis Finkelstein, The Pharisees, 2 Vols., Filadelfia, Jewish Publication Society, 1962; R. Travers Herford, The Aim and Metod of Pharisaism, republicado sob o título The Pharisees, Boston, Beacon Press, 1962;  Asher Finkel, The Pharisees and the Teacher of Nazareth, Leiden, BRILL, 1964; Jacob Neusner, The Rabbinic Traditions about the Pharisees before 70, 3 vols., Leiden, Brill, 1971; John Bowker, Jesus and the Pharisees, Londres, Cambridge University Press, 1973; para os artigos de atualização, ver Michael Cook, “Jesus and the Pharisees. The Problem as it Stands Today”, Journal of Ecumenical Studies, 15:3, 1978, pp. 441-460; Leonard Swidler, “The Pharisees in Recent Catholic Writing”, Horizons, 10,2 Fall, 1983, pp. 267-287; Lewis Eron, “Implications of Recent Research on the Pharisees for Jewish-Christian Dialogue”, in Leonard Swidler, org., “Breaking Down the Wall” between Americans and East Germans, Jews and Christians-Through Dialogue, Lanham, MD, University Press of America, 1987, pp. 131-160. 

[2] Leia a respeito da obra de Rivkin no texto V desta série.

[3] Rivkin, A Hidden Revolution, p. 293.

[4] John T. Pawlikowski, Christ in the Light of the Christian-Jewish Dialogue, Nova Iorque, Paulist Press, 1982, p. 82.

[5] Pawlikowski, Christ in the Light, p. 88.

[6] No seu trabalho em três volumes The Rabbinic Traditions about the Pharisees before 70, Jacob Neusner argumenta que os fariseus era essencialmente haberim, um pequeno partido pacifista preocupado com a pureza. Rivkin rejeita essa opinião, bem como E. P. Sanders: “Sua análise (de Neusner) dos textos rabínicos não persuasiva e se torna especialmente dúbia devido à evidência tirada de Josefo”. E. P. Sanders, Jesus and Judaism, p. 188.

[7]Muitos estudiosos colocam o evangelho de Mateus antes do ano 70 d.C. (editor)

[8] Rivkin, A Hidden Revolution, p. 303.

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