Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – VI Autoridade Farisaica


“Como já dissemos, Rivkin argumenta que o costume de usar citações da Bíblia para apoiar uma afirmação – inclusive entre os cristãos – era originalmente a técnica farisaica;[1] ela se encontra somente nos antigos materiais (farisaicos) rabínicos (tanaíticos) da Mishnah, do Tosefta[2] etc., não na Bíblia hebraica, nem mesmo nos escritos apócrifos ou pseudoepígrafos. Contudo, prossegue Rivkin, estas formas “farisaicas” estão subjacentes nos evangelhos, nos Atos dos Apóstolos e nas epístolas de Paulo. Paulo, por exemplo, citava constantemente as Escrituras a maneira dos fariseus. Quando quis provar que D’us fizera uma aliança com Abraão antes de Abraão ser circuncidado, encerrou a discussão com um texto conclusivo das Escrituras (conf. Rom. 04:01-12). Ieshua refutou os saduceus com um texto bíblico (Marc. 12:12-27) e justificou a expulsão dos vendilhões do Templo com a citação de um texto bíblico (Marc. 11:17,18). “De fato, quando percorremos os evangelhos, encontramos uma citação bíblica depois da outra; é o testemunho eloquente de quão absolutamente normativo se tornar esse processo original farisaico”.[3]

tosefta 2

                A posição e atitude de autoridade dos fariseus que emergem desta linha de pensamento assemelha-se de maneira surpreendente àquela que um sem número de estudiosos cristãos vem reivindicando exclusivamente para Ieshua: Moisés jamais conferiu a qualquer classe de estudiosos nenhuma autoridade sobre a Lei de D’us. Essa autoridade fora dada a profetas e a sacerdotes, não a estudiosos. Ainda assim, em nenhum trecho da Mishnah – lembremos que Rivkin mantém o vínculo tradicional entre os rabis e os fariseus – a halakhah é exposta por um membro de qualquer classe de profetas ou sacerdotes.

                Nenhuma halakhah é introduzida com a expressão profética “assim diz o Eterno”. Tampouco encontramos na Mishnah o sacerdócio como a classe que exerce qualquer autoridade sem o consentimento tácito da classe dos estudiosos. Ademais, a Mishnah é o repositório única e exclusivamente dos ensinamentos de um grupo de estudiosos. Como esses ensinamentos são apresentados como abalizados, devendo-se-lhes portanto obediência, e porque são ensinamentos que, na sua maior parte, não estão escritos no Pentateuco (Torah), “são testemunho de um sistema de autoridade que é auto aceito, autodefendido e auto validado”.[4] Por isso mesmo, quando Ieshua dizia coisas como “ouvistes que foi dito …mas em verdade vos digo…” estava simplesmente caminhando na trilha farisaica. De fato, Philip Sigal deu exemplos abundantes do uso rabínico semelhante, por exemplo, como se observou acima: a expressão “Em verdade vos digo” com a qual Jesus apresenta as suas observações mais incisivas de halakhah (Mat. 05:22,25,32,34,39,44) deve ser considerada apenas como prova da insistência proto-rabínica na própria opinião, inclusive quando contradiz e revoga ensinamentos já existentes…É obvio que os ouvintes “ficavam extasiados” diante de Menahen ben Sungai (T Ed 3:01) como ficavam extasiados diante de Jesus (Mat.07:28).[5]

Jesus na sinagoga VI

                O reexame cuidadoso do ministério de Ieshua revela a existência de muitos paralelos entre ele e o movimento (farisaico) proto-rabínico: vemos frequentemente Ieshua no ato de ensinar a sua Torah ora, reinterpretando as Escrituras hebraicas de maneira condizente com o meio social onde se encontrava. Sua ênfase no ensinamento se insere no padrão geral do rabi autêntico. Embora o próprio Ieshua não forneça nenhuma indicação clara do tipo de disposições institucionais que desejava que seus discípulos fizessem após a sua morte, o exemplo das igrejas primitivas de Jerusalém e da Galileia, que podemos imaginar que refletissem, pelo menos de maneira geral, os seus ensinamentos, apresenta grandes similaridades com o modelo de sinagoga defendido pelos proto-rabis (fariseus). Ieshua também participou de refeições entre amigos, do tipo farisaico, instituindo a Eucaristia[6] cristã na última a que compareceu.

“No campo da doutrina, a semelhança continua: a ênfase no amor, no Shema (oração do monoteísmo) nos temas resumidos nas Bem-aventuranças e na Ressurreição indicam a presença de um forte espírito farisaico na vida de Jesus. Em especial, a ênfase de Jesus na sua ligação íntima com o Pai retoma a característica central do pensamento farisaico”.[7]

                Não é, pois, nada surpreendente que o católico, Pawlikowski, tenha concluído que não seria errado “considerar Jesus como uma parte do movimento farisaico geral, embora em muitos campos tivesse um ponto de vista diferenciado.[8] O estudioso protestante E. P. Sanders é um pouco mais cauteloso, não obstante siga a mesma tendência ao afirmar:

“Formo parte do número sempre crescente de especialistas que duvidamos tenha havido pontos importantes da oposição entre Jesus e os fariseus”.[9]

Fariseus 3

                O especialista judeu Geza Vermes observa:

“Não que pareça haver existido alguma discordância fundamental entre Jesus e os fariseus sobre alguma questão básica… o conflite entre Jesus da Galileia e os fariseus da sua época, teria, em circunstancias normais, simplesmente sido semelhante à luta corpo a corpo de facções pertencentes ao mesmo corpo religioso”.[10]

                O rabino Harvey Falk recentemente defendeu, com uma argumentação esmerada, um nuançamento da afirmação referente à proximidade entre Ieshua e os fariseus, afirmando que Ieshua tomava partido de uma determinada escola ou “casa” de fariseus, a Casa de Hillel (Beth Hillel), e não de seus oponentes Beth Shammai.[11] Há tempo, os especialistas cristãos acreditam, de maneira geral, que em numerosas disputas entre Ieshua e os fariseus ou os saduceus, Ieshua fende a posição de Beth Hillel. Alguns especialistas cristãos aludiram resumidamente ao fato de que “foi o farisaísmo, e aquele do tipo shamaíta, que dominou o Judaísmo do século I d.C.[12] e que “foi talvez somente depois da queda de Jerusalém que os hilelitas conseguiram a sua ascendência”.[13]

                Apesar do manejo não muito crítico de materiais do Novo Testamento, Falk analisa meticulosamente os materiais rabínicos (embora infelizmente não trate de maneira crítica os problemas de datas) e demonstra que Beth Shammai foi dominante no Judaísmo de cerca de 30 a.C. até 70 d.C. (entre outras causas poderia estar o fato de que Hillel faleceu por volta de 10 d.C., e Shammai por volta de 30 d.C.), e que os mortíferos zelotes, frequentemente representados na classe sacerdotal de Jerusalém, eram seguidores de Beth Shammai…(e) demonstra que os shamaíta foram responsáveis pela entrega de Jesus aos romanos para ser crucificado e que a sua decisão era a violação da Lei judaica”.[14]

Jesus na Sinagoga

                Falk afirma, além disso, que as várias críticas e os vários ataques de Jesus aos fariseus são, na verdade, ataques específicos ao farisaísmo tacanho e intolerante de Beth Shammai, e que Jesus tentava trazer o Judaísmo de volta ao farisaísmo generoso e magnânimo de Beth Hillel, que ensinava seus seguidores a serem “pessoas que amam a paz, buscam a paz, amam a humanidade e os (gentios) traz para perto da Torah”.[15] Continua na parte VII.

Autor: Leonard Swidler, Ieshua, Jesus Histórico, EP, págs. 75 a 80, editado e contextualizado por Herança Judaica.

[1] Rivkin descobre os rabis nos escritos rabínicos, todos eles codificados depois que os evangelhos foram escritos, usando o método de utilizar textos como prova da argumentação. Porque ele vê nos fariseus os predecessores dos rabis, atribui essa prática a eles. Entretanto, o único documento “judaico” do século I além do Novo Testamento (onde de fato Ieshua e Paulo usam textos para corroborarem suas afirmativas) que comprova essa prática são as escolas do mar Morto dos qumranistas. Assim, talvez fosse mais seguro dizer que a técnica de usar de usar textos como prova da argumentação era amplamente praticada no judaísmo anterior a 70 d.C., o qual, é claro, incluía os fariseus, mas não afirma que os fariseus inventaram a prática.

[2] Mishnah significa ensinamento que é recitado oralmente (assim como o termo árabe “qur’na”) originário de “shani”, “repetir”. A raiz aramaica tem o mesmo significado e, por isso, os mestres que ensinam esse material são conhecidos como “tennaim”. A “Tosefta” é uma coletânea de ensinamentos haláquicos omitida da edição de 200 d.C. da Mishnah e editada provavelmente pouco depois: a palavra significa “complemento”. O Talmud palestinense (a palavra significa “instrução”) de longe o mais curto dos dois Talmudes, foi editado por volta do ano 400 d.C., o Talmud babilônico por volta do ano 500 d.C.. O Talmud consiste de citações da Mishnah e do comentário conhecido como “Gemará”, da raiz “gamai”, “completar”. Os rabis responsáveis pela “Gemará” são conhecidos como “amoraim”, o que significa “intérpretes”.

[3] Rivkin, A Hidden Revolution, pp. 273ss.

[4] Ibid.,p. 232 – (o grifo é meu)

[5] Philip Sigal, The Halakah of Jesus, pp. 81ss.

[6] Ação de graças ou Santa Ceia (editor da RH)

[7] Pawlikowski, Christ in the Light, pp. 92ss.

[8] Ibid., p. 92.

[9] Sanders, Jesus, p. 264.

[10] Vermes, Jesus and the World of Judaism, p. 11.

[11] Harvey Falk, Jsus the Pharisee, Nova Iorque, Paulist Press, 1985.

[12] W.D. Davies, Paul and Rabbinic Judaism, Londres, SPCK, 1970, p. 54.

[13] George Goot Moore, Judaism in the First Centuries of the Christian Era, Cambridge, Harvard University Press, 1927, vol. 1, p. 81.

[14] Falk, Jesus the Pharisee, pp. 8ss.

[15] Mishná, Avot 1,2.

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