Para entender os sefarditas


                Sefarad é o nome da Península Ibérica em hebraico e se origina de uma passagem do profeta Abdias. Sefardim ou sefardita são variantes de adjetivo pátrio relativasaos judeus provenientes da Espanha que emigraram, após o decreto de expulsão pelos reis católicos em 1492, para Portugal, Países Baixos, Inglaterra, norte da África, Império Otomano, Itália e sul da França, falando o ladino ou judeu-espanhol. A grafia da palavra “sefardim” procede do plural hebraico, que ao ser lexicografado no português passou a adaptar-se a nossa morfologia, enquadrando-se nos vocábulos oxítonos terminados em “m”, plural “ns”. O vocábulo congênere “tefilin” (filactérios) não sofreu tal incorporação, com a conservação da grafia em caracteres latinos correspondentes ao mencionado plural hebraico.[1]

                Como também adiantado anteriormente, esses adjetivos pátrios contrastam-se a ashkenazitas ou ashkenázis ou ainda ao lexicografado asquenazes, procedentes todos da área Ashkenaz, “nome que aparece pela primeira vez na Bíblia como designação de um filho de Gomner e neto de Jafet (Gen. 10:3)”.[2] Ao contrário dos sefarditas, os asquenazes são judeus que trilharam um caminho histórico e geográfico diverso, fixando-se no noroeste e centro da Europa. São essencialmente descendentes dos judeus rhenisch (alemães) e falavam a língua iídiche ou judeu-alemão, em contraposição ao ladino ou judeu-espanhol.

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                No limiar do século XV, começaram a ver-se obrigados a emigrar para o leste europeu (Polônia, Rússia e Lituânia, cujo território na época ocupava grande porção da região). Na Rússia, o período czarista, que já conhecia perseguições sazonalmente mais gravosas ao judeus, deu largada a outra imigração, primeiro para a Europa Ocidental, daí para as Américas, e por fim para Israel – chamada pelos judeus de “Eretz Israel”.[3]

                Informa Leonor Scliar-Cabral que no séc. XI os sefarditas constituíam 96% do mundo judeu. Em 1650, ainda constituíam 60% de uma população estimada em 1.750.000 judeus, mas a melhora das condições de vida do norte da Europa resultou numa explosão populacional dos asquenazes, cujo número na década de 1930 alcançava 91,8% dos 16 milhões de judeus então existentes, situação alterada dramaticamente com o holocausto.[4]

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                A primeira leva de judeus a aportar na Península Ibérica o fez ainda sob o domínio romano da Terra Santa. O número de emigrados aumentou consideravelmente após a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 da nossa Era, determinada por Tito, imperador romano. Trata-se da contextura histórica conhecida como “diásporas”, cujas implicações sobre o Mediterrâneo e a Europa ainda estão por ser descobertas. No século IV, já se encontra preocupação no relacionamento entre cristãos e judeus, o que denota a existência de um número razoável destes. A subsequente invasão dos visigodos aliviou a discriminação, ao menos até a conversão do líder visigodo Ricaredo ao catolicismo no ano 5869. No período seguinte as perseguições aumentariam.[5]Essas perseguições alimentaram polêmicas, entre elas a erigida pelo defensor dos judeus, Santo Isidoro.

                A invasão muçulmana encontrou, nesse pesado ambiente, certa acolhida entre os judeus.[6] Quando já assegurada grande parte da Península Ibérica aos árabes, seu império fragmentou-se. Os omíadas, expulsos da Mesopotâmia, reergueram seu poder e influência a partir de Córdoba. Numa nova estratificação governamental, com necessidade de burocratas, os judeus encontraram boa acolhida mesmo nas esferas políticas. O grande desenvolvimento do califado de Córdoba, propiciado pelo intercâmbio com o norte da África, com o Egito e com o Oriente, não por acaso coincide com o período áureo dos judeus-espanhóis, que se refletiu nas artes e na literatura.[7]

abderraman_iii

                  O apogeu inicia-se “durante o reinado de Abderraman III (912-971), quando se destaca o primeiro magnata judeu espanhol, Hasday ibn Saprut, médico, farmacêutico e diplomata, que curou o rei de Leão, Sancho, o Crasso, de obesidade. Desenvolve-se em Córdoba, cognominada ‘casa das ciências’ (dar al-culum), um mecenato graças ao qual sobressaem as figuras de Menachen ben Saruc e Dunas ben Labrat, grandes gramáticos, lexicógrafos e poetas. Traduz-se pela primeira vez, do grego para o latim (pelo monge Nicolás) e depois para o árabe, o De materia medica de Dioscórides que havia sido dado como presente junto com as histórias de Orósio a Abderraman III por Constantino VII, imperador de Bizâncio, no dia 9 de setembro de 949 (Valle Rodriguez, 1981:61).

                Ao lado das pesquisas linguísticas e poéticas, desenvolvem-se também os estudos rabínicos, e com a vinda do gaon Mosé ben Hanoc, da Babilônia, com a posterior transferência, para Córdoba e Lucena, das Academias de Sura, Pumbedita e Nehardea. Toda esta eclosão intelectual prossegue até o século XII, sendo conhecido este período como a Idade de Ouro”.[8] É aí que os judeus-espanhóis conhecem o, estabelecimento natural de sua cultura e o limite máximo de sua influência. Às portas da implosão do califado de Córdoba, ensejado por violentas disputas políticas, destaca-se afigura de Semuel ibn Nagrella, ou Semuel há-Naguid, insigne poeta e erudito em estudos rabínicos, “que chegou à condição de vizir”.[9]

Maimonides II

                Nesse período áureo brilharam poetas e filósofos, entre estes uma das maiores figuras do judaísmo: o codificador, filósofo e médico Rabi Moshé ben Maimón, conhecido como Maimônides, cujo escrito O Guia dos Perdidos é “provavelmente a obra filosófica mais importante escrita por um judeu”.[10] Scliar-Cabral esclarece: “Os debates em torno da obra de Maimônides vão dividir os judeus de Sefarad em dois grupos irreconciliáveis: os ortodoxos, que a acusam de heresia, e os intelectuais com formação mais científica. Ocorre também uma divisão no plano sócio-econômico e ético: de um lado, um grupo de cortesãos, com ambições de poder, riquezas e glória, de outro, os pequenos artesãos, os religiosos, cujo ideal era devolver a comunidade ao ‘seio do Talmud’ (Lacave, op. cit.: 17). Foi feroz a luta que se desenvolveu entre os judeus ortodoxos e a heresia caraita (adesão estrita ao texto bíblico).”[11] Houve igualmente contribuição significativa de sábios judeus à astronomia, à matemática e “aos princípios sintetizadores do pensamento da época”.[12]

                Interessante notar que ao próprio estudo da tradução ofereceram os sefarditas valiosa contribuição: “O Colégio de Tradutores de Toledo, fundado pelo arcebispo Don Raimundo de Toledo já era famoso no começo do século XII, com traduções do árabe e do hebraico e transformou-se, assim, no berço da língua espanhola escrita, sendo pioneiro no uso do romance, inclusive da Bíblia em castelhano: ‘O procedimento era o seguinte: um judeu, falante do castelhano e especialista em árabe, traduzia de viva voz o texto original ao romance: em seguida, um clérigo passava esse texto para o latim culto’ (Lacave, op. cit.: 20)”.[13]

                E não só aí: o astrolábio foi introduzido na Europa por um judeu converso, considerado patriarca dos autores de novelas curtas e difusor do apólogo hindu, persa e árabe pela primeira vez no ocidente cristão.[14] Essa manifestação cultural intensa dos séculos XI e XII “‘coincide com o prodigioso desenvolvimento de sua poesia lírica religiosa, superior em elevação ideal a de todos os povos da Idade Média, inclusive Provença. Esta poesia é fruto próprio e espontâneo da sinagoga; mas por algo e talvez por muito, nela entraram conceitos de ordem filosófica e cosmológica, derivados das escolas profanas e estranhos, sob todos os aspectos, à tradição talmúdica. Ocorre, assim, serem estes poetas ao mesmo tempo os maiores líricos e os mais profundos e célebres pensadores de sua raça, excetuando-se somente Maimônides, em quem a qualidade de poeta não aparece’ (Menendez Pelayo, op. cit.: 204, trad. da autora)”.[15] Muito embora nesse período estivessem os judeus em situação não tão trágica como alhures, a alternância entre épocas de perseguição e tolerância prosseguiu.[16]

astrolabio [1]

                Nesses anos, alguns estilos literários já haviam circulado, além das novelas curtas: as macamas, “pequenos contos ou novelas satíricas, como as 50 Saracosties de Aben el Asterconi”.[17] Tem início a partir daí estudos cabalísticos, com continuação da perseguição até a expulsão em 1492. Em 1232 estabeleceu-se na Espanha o tribunal do, Santo Ofício, sob orientação de frades dominicanos, cujo funcionamento ensejou emprego de calúnias e acusações, como assassinato ritual, blasfêmias contra Jesus e ridicularização  do crucifixo. O ponto alto se dava na Sexta-Feira Santa, aproveitada para instigar o populacho a apedrejar as comunidades judias; os judeus eram queimados vivos ou submetidos a torturas como a da roda.[18]

                O contínuo cerceamento dos direitos dos judeus na Espanha oportuniza um quadro de situações familiares dramáticas, o qual aparece em certa medida, como se verá, nas traduções de Leonor Scliar-Cabral.

Fonte: ROMANCES E CANÇÕES SEFARDITAS DOS SÉCULOS XV A XX TRADUZIDOS DO JUDEU-ESPANHOL – Márcio Schiefler-Fontes – Universidade Federal de Santa Catarina, disponível em PDF:   https://periodicos.ufsc.br/index.php/scientia/article/view/12890/12053

[1] SCLIAR-CABRAL, Leonor. Romances e canções sefarditas (Séc. XV ao XX). Traduzidos do judeu espanhol por Leonor Scliar-Cabral. São Paulo: Massao Ohno, 1990. p. 63.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] Mais especificamente: “Sisebuto, em 613, promulga o édito que obriga os judeus a abraçar o cristianismo ou emigrar, inaugurando uma conduta que, com diferentes requintes de obscurantismo e terror, ressurge aqui ali, nos diferentes reinos da península, conforme os conflitos políticos, econômicos e sociais não resolvidos necessitassem de um bode expiatório conveniente, até a expulsão definitiva, em 1492. Alguns cânones do Concílio IV de Toledo (633) detalham as medidas, como o afastamento dos filhos de judeus da fé mosaica e a conversão de toda a população judaica espanhola ao cristianismo. Desenha-se, assim, um procedimento queocorrerá doravante, diante das perseguições: emigração (no episódio acima mencionado, para o norte da África), conversão total (cristãos novos), conversão, mantendo a fé mosaica às escondidas (marranos (termo considerado ofensivo) ou anusium)” (SCLIAR-CABRAL, Leonor. Romances e canções sefarditas (Séc. XVao XX). Traduzidos do judeu-espanhol por Leonor Scliar-Cabral. São Paulo: Massao Ohno, 1990. p. 64).

[6] “A invasão muçulmana em 711, liderada por Muza ben Nossair (muçulmano) e por Tarik, reconhecido como judeu da tribo de Simeão, encontrou aliados fiéis nos judeus, como, por exemplo, um dos chefes da batalha de Guadualete, Kaula al-Yahudi, quando a monarquia visigótica foi derrotada” (SCLIAR-CABRAL, Leonor. Romances e canções sefarditas (Séc. XV ao XX). Traduzidos do judeu-espanhol por Leonor Scliar-Cabral. São Paulo: Massao Ohno, 1990. p. 65).

[7] Ibidem, p. 65.

[8] Idem.

[9] Idem.

[10] Idem p. 66.

[11] Idem.

[12] Idem.

[13] Idem.

[14] Idem p. 67.

[15] Idem.

[16] “Não se pense, porém, que este período áureo tenha sido isento de perseguições aos judeus espanhóis: em 1013, ocorre uma matança de judeus em Córdoba, em decorrência da intromissão nas lutas internas no califato; por ocasião da morte de Sancho III, o Maior (1035), se dá um assalto e matança no bairro judeu (juderia) de Castrojeriz e em 1066 e 1070, matança de judeus no reino de Granada, apesar de conselhos do Papa Alexandre II; em 1109, há matanças generalizadas nas juderias castelhanas, por ocasião da morte de Afonso VI que havia outorgado a Carta inter Christianos et Judaeos, regulando-lhes o convívio; em 1180, matança dos judeus em Toledo e, finalmente, em 1196, o incêndio da juderia de Leão, por ordem de Alfonso VIII de Castela e Pedro II de Aragão. Nos pequenos estados cristãos e onde foi se dando a reconquista, particularmente na Catalunha (incorporada à Septimania), os judeus passaram a gozar de privilégios que contrastavam com a situação em outros países europeus: é importante assinalar que os judeus eram considerados propriedade da realeza, o que implicava sua proteção, através dos ‘privilégios dos judeus’ e foros especiais, entre os quais uma multa superior, em caso de assassinato, às pagas pela morte de umcamponês” (SCLIAR-CABRAL, Leonor. Romances e canções sefarditas (Séc. XV ao XX). Traduzidos do judeu-espanhol por Leonor Scliar-Cabral. São Paulo: Massao Ohno, 1990. p. 67-68).

[17] Ibidem, p. 67.

[18] Ibidem, p. 69.

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