Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – VII Beth Hillel e Beth Shammai


 

Beth Hillel, ensinava que os goin’s/gentios que vivem com retidão – observam os mandamentos antigos – merecerão uma parte no mundo que há de vir, Beth Shammai ensinava que não.[1] Talvez os chamados partidários da circuncisão aos quais Paulo se opõe no cap. 15 dos Atos dos apóstolos e que foram descritos por Lucas de forma direta como “fariseus” (Atos 15:05) fosse de Beth Shammai:

                “Ora, desceram alguns da Judéia e ensinavam aos irmãos: ‘Se não vos circuncidardes segundo as normas de Moisés, não podereis vos salvar’” (Atos 15:01). Visto que após 70 d.C., o judaísmo subsequente rejeitou Beth Shammai em favor de Beth Hillel, chega-se à conclusão de que:

“Como o Talmude afirma explicitamente, o judeu que segue os ensinamentos de Beth Shammai “merece a morte” hão há base para a inimizade dos cristãos para com os judeus dos nossos dias, por causa dos atos de certos indivíduos que viveram no séc. I. não nos identificamos com eles nem com os seus ensinantes. Uma Voz Celestial decidiu o assunto, perto do final do século I: “A Halachá é como Beth Hillel (ensina)”.[2]

                A mais recente, e talvez a mais perspicaz e estimulante pesquisa sobre o assunto é o livro de 1986, de autoria do especialista judaico rabino Philip Sigal de Pittsburgh, infelizmente obra póstuma. Sigal mostra o extraordinário conhecimento erudito tanto do Novo Testamento quanto do material rabínico e de outros materiais judaicos.

enxerto na oliveira

                Ele argumenta que os fariseus dos evangelhos não são os predecessores dos rabis posteriores a 70 d.C., dos quais provêm os escritos e que são sem dúvida os “fundadores” do judaísmo rabínico de nossos dias. Mais exatamente, a palavra grega pharisaioi, do hebraico perushim, significava, em sentido lato, aquilo que dizia literalmente “os separatistas”; os pharisaioi em controvérsia com jesus em Mateus são perushim, judeus sectários beatos de vários círculos e cuja identidade ainda não está clara para nós…eram rígidos na sua halahah, “construcionistas severos” na sua hermenêutica e exegese, e que portanto estavam em sérias desavenças com Jesus”.[3]

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                Sigal chama os predecessores dos rabis – que surgiram como grupo de características definidas após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. reunidos em torno de Iohanan bem Zakkai no vilarejo palestinense de Iavneh, “proto-rabis”. No evangelho de Mateus, o termo nomikos (legista) designa o proto-rabi. Como acontece com os saduceus, ele também pode ser tomado por um parush em linguagem coloquial”,[4] mas, na realidade, é muito diferente dos perushim.

                Falk argumenta que os adversários fariseus de Ieshua nos evangelhos eram, na verdade, shamaítas – que foram basicamente repudiados pelos rabis pós 70, seguidores de Hillel (aos quais era semelhante) – e não eram, portanto, os precursores do judaísmo rabínico de nossos dias.

                Sigal toma a posição um tanto parecida, mas afirma que os predecessores dos rabis anteriores a 70 não eram nem hillelistas nem shammaítas, nem pertenciam a nenhuma escola ou “casa” (Beth) propriamente dita. Além disso, visto que le considera que os próto-rabis agiam muito mais como indivíduos ao fazerem as suas interpretações das regras de conduta, a halahah, do que as diversas escolas e grupos, pode afirmar com base nas suas evidências e na sua argumentação, que Ieshua não é pura e simplesmente como os proto-rabis, nem está próximo deles. Mais exatamente, “agia segundo princípios que não eram considerados aceitáveis pelo perushim, mas que já formavam parte, ou estavam destinados a formar parte do judaísmo proto-rabínico e rabínico. Ele era portanto um proto-rabi antecipando da época tanaítica e ensina a halahah dessa maneira. Ele não era saduceu nem fariseu, tampouco hillelita nem shamaíta. Empregava a liberdade de intepretação e autoridade em concordância com amaneira do judaísmo próto-rabínico”.[5]

CONTINUA NA PARTE VIII

Leonard Swidler – Jesus Histórico – EP – págs. 80 a 82

[1] Conf. Gerd Theissen, Sociology of Early Palestinian Christianity, Philadelphia, Fortress Press. 1977, p. 83: “O resultado foi que no século I a.C., eles (os fariseus) dividiram-se em duas escolas…Assim, os shamaitas exigiam rígida separação dos gentios. Em dezoito halachot, havia proibições contra diversos alimentos dos gentios, a língua grega, o testemunho dos gentios, presentes, noras e genros gentios (J.Shab 3c 49ss). Até usaram de força contra os hilelitas para levar a cabo estas normas intensificadas (j.Shab 3c 34ss). Somente após a catástrofe de 70 d.C. é que os hilelitas mais moderados conseguem obter a superioridade”.

[2] Falk, Jesus the Pharisee, p. 158.

[3] Sigal, Halakhah of Jesus, pp. 9, 4.

[4] Ibid., p. 163.

[5] Ibid., p. 9.

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